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Armazenamento afirma-se como condição para a transição energética no Portugal Energy Storage Forum

Setor elétrico aponta fragilidades do sistema europeu e defende eletricidade renovável com integração eficaz. Sem armazenamento, alertam especialistas, não haverá estabilidade, competitividade, nem segurança energética.

24 Mar 2026 - 14:49

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Pedro Amaral Jorge | Foto: APREN

Pedro Amaral Jorge | Foto: APREN

Num contexto descrito como “trágico, mas favorável” ao desenvolvimento do armazenamento de energia, o setor elétrico reuniu-se nesta terça-feira na Culturgest para discutir aquilo que muitos consideram já não ser uma opção, mas uma condição para a transição energética. Na abertura da primeira edição do Portugal Energy Storage Forum (#PESF2026), promovido pela APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis, o presidente executivo, Pedro Amaral Jorge, apontou diretamente às fragilidades estruturais do sistema energético europeu: dependências externas, choques de oferta e uma volatilidade de preços face à qual parece que “não conseguimos reagir”.

“O gás natural é também, quem diria, intermitente”, concluiu o responsável. Num discurso marcado pela urgência, defendeu que a eletrificação dos consumos e a integração de renováveis deixaram de ser apenas instrumentos de mitigação climática para se tornarem pilares de competitividade e soberania energética e política. “A única solução é a eletricidade renovável”, reforçou, ao frisar, porém, que o verdadeiro desafio está na sua integração eficaz no sistema elétrico.

Mais do que capacidade instalada, essa integração exige armazenamento, constatou Pedro Amaral Jorge. E exige, sobretudo, um enquadramento de mercado capaz de remunerar o valor que este traz. “Conseguimos armazenar o valor das soluções renováveis?”, questionou.

A resposta não é consensual, mas a necessidade de ação parece reunir acordo. O armazenamento surge como condição para flexibilidade, bancabilidade e estabilidade. Sem ele, avisam vários intervenientes, não haverá transição energética sustentável. Ao mesmo tempo, cresce a pressão sobre as redes. Isto é, já não basta expandir a produção renovável, é preciso integrá-la com sistemas de armazenamento, num quadro onde os maiores obstáculos são agora regulatórios, sociais e financeiros.

A ideia de que “a eletricidade é o novo petróleo da economia europeia” serviu de pano de fundo a um debate que rapidamente se deslocou para a escala continental. Patrick Clerens, da Energy Storage Europe, projetou um sistema europeu com 310 TWh de capacidade de armazenamento até 2040, implicando investimentos anuais de 28 mil milhões de euros num cenário de continuidade. No entanto, alertou que a infraestrutura de ligação é insuficiente e a flexibilidade continua por resolver do ponto de vista dos investidores. O plano RepowerEU – adotado por Bruxelas para responder ao aumento de preços da energia em 2022 -, reconheceu, ainda não é suficiente.

Num sistema cada vez mais dependente de fluxos variáveis, o armazenamento surge também como questão de segurança. As necessidades passam pelo reforço da bombagem hídrica, novas tecnologias, baterias de fluxo com componentes europeus, e  cibersegurança, “para evitar outro apagão”, segundo Clerens. Confessou que, com dependências que persistem, “não conseguimos prescindir dos painéis solares chineses”.

Se a escala europeia levanta desafios estruturais, a operação do sistema elétrico português revela tensões imediatas. Pedro Furtado, responsável pela regulação e estatística da REN, descreveu um sistema sob pressão crescente, com variações de até 1800 MW em menos de duas horas. “O desafio é brutal”, resumiu, apontando para um mercado que reage “de forma ansiosa” e que, paradoxalmente, pode conduzir o armazenamento à sua própria “autofagia”.

Foto: APREN

Pensar no armazenamento a longo prazo

A tensão entre curto e longo prazo atravessa o desenho de mercado. O armazenamento é reconhecido pelos participantes do fórum como instrumento essencial para estabilizar o sistema, mas continua sem remuneração adequada. Pedro Furtado deixou a pergunta: “Como é que criamos sustentabilidade no longo prazo, se o mercado não paga”? Ainda assim, reconheceu avanços e a necessidade de soluções adaptadas ao sul da Europa, onde as dinâmicas diferem das economias centrais, como a alemã. Aqui, o armazenamento poderá funcionar também como mecanismo de descongestionamento da rede.

Do lado académico, João Peças Lopes reforçou o impacto positivo do armazenamento na valorização da produção renovável e na redução de desperdício energético. Mas, a seu ver, o suporte com base na arbitragem de preços “não chega” para sustentar o investimento, terá de incluir mecanismos de capacidade.

Também Jorge Esteves, da ERSE, sublinhou a necessidade de criar condições estruturais, com planeamento integrado entre setores e soluções que respondam ao desafio sazonal, ainda longe de estar resolvido, na sua opinião.

Já Pedro Carvalho, professor catedrático, destacou que, num sistema com elevada penetração renovável, a segurança de abastecimento dependerá da diversificação de fontes e, sobretudo, da participação ativa do consumo. Sem essa flexibilidade do lado da procura, o sistema arrisca depender excessivamente da bombagem hídrica e de interligações externas.

A resposta poderá passar por redes mais inteligentes e descentralizadas. Rui Gonçalves, da E-Redes, apontou para o papel crescente dos serviços locais de flexibilidade, ainda em fase inicial, mas já com impacto. O consumo em baixa tensão aumentou mais de 6,5% em 2025 face ao ano anterior, salientou. Neste contexto, o armazenamento destaca-se pela sua versatilidade e capacidade de localização.

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