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Carregar mais depressa pode criar um novo problema: a rede está preparada?

A redução dos tempos de carregamento é uma boa notícia para a mobilidade elétrica. Mas obriga a coordenar melhor fabricantes, operadores de carregamento e operadores de rede. Por Luis Monge, coordenador de Operações de Rede.

14 Out 2026 - 07:00

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Luis Monge coordenador de Operações de Rede

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PT Green

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Luis Monge coordenador de Operações de Rede

O carregamento ultrarrápido promete encurtar as paragens dos veículos elétricos. Mas a rapidez anunciada pelos fabricantes coloca uma questão que começa muito antes de ligar o cabo: que infraestrutura será necessária e quanto custará disponibilizá-la?

Durante anos, o debate sobre o automóvel elétrico concentrou-se na autonomia e no tempo de carregamento. A indústria tem respondido com baterias mais evoluídas, arquiteturas de maior tensão e equipamentos cada vez mais potentes.

Em março de 2026, a BYD apresentou um sistema capaz de atingir 1.500 kW através de um único conector e anunciou carregamentos dos 10% aos 97% em nove minutos. São resultados comunicados pelo fabricante para veículos compatíveis e condições específicas; a potência indicada corresponde à configuração apresentada para o mercado chinês. Não representa a experiência disponível para qualquer automóvel ou em qualquer posto europeu.

Ainda assim, o anúncio mostra a direção da tecnologia. E levanta uma pergunta: quando o automóvel deixa de ser o principal limite à velocidade de carregamento, onde passa a estar esse limite?

A mesma energia pode exigir uma infraestrutura muito diferente

Um automóvel que recebe 60 kWh em meia hora exige uma potência média de 120 kW. Se receber a mesma energia em seis minutos, essa potência sobe para 600 kW. O consumo de energia é igual; a exigência instantânea multiplica-se por cinco.

Esta distinção é essencial. A energia, medida em quilowatt-hora, indica a quantidade de eletricidade transferida. A potência, medida em quilowatts, indica a rapidez dessa transferência.

Numa estação com quatro pontos de 350 kW, o carregamento simultâneo à potência máxima representa 1,4 MW, antes de considerar perdas e outros consumos. É um exemplo hipotético, não uma descrição do funcionamento permanente de uma estação. Na prática, a procura depende dos veículos, do estado das baterias, das curvas de carregamento e da gestão da potência disponível.

Por isso, somar a potência anunciada nos equipamentos não basta para conhecer a capacidade de serviço. É necessário saber quanto pode a estação entregar em simultâneo e durante quanto tempo.

Quatro cenários de utilização e investimento

Um hotel onde o automóvel fica toda a noite e uma área de serviço onde o condutor pretende parar poucos minutos não devem ser dimensionados da mesma forma.

Para tornar a comparação concreta, podemos recorrer à avaliação de impacto publicada pela Comissão Europeia em 2021 para a infraestrutura de combustíveis alternativos. O documento apresenta custos de referência de 2020, incluindo equipamento e instalação, mas excluindo reforços da rede elétrica. Não são preços atuais de fornecedores nem orçamentos para Portugal.

Nos três primeiros cenários, os totais resultam da aplicação dos valores unitários do estudo: 6.280 euros para 22 kW, 90.000 euros para 150 kW e 230.000 euros para 350 kW. Servem para comparar escalas de investimento; não incluem terreno, armazenamento estacionário ou reforços da rede. Para o quarto cenário, não se deve extrapolar linearmente o custo dos equipamentos de menor potência.

No carregamento de destino, adequado a hotéis, locais de trabalho e parques com permanências prolongadas, são necessários carregadores em corrente alternada, cablagem, quadros de proteção e gestão de potência. Pode ser possível aproveitar capacidade elétrica existente. A potência recebida depende também do carregador interno do automóvel, pelo que um ponto de 22 kW não garante que todos os veículos carreguem a essa potência.

No carregamento rápido, aplicável a supermercados ou postos de abastecimento, o equipamento em corrente contínua permite transferir mais energia durante uma paragem curta. Acrescem sistemas de comunicação, pagamento, proteções e uma alimentação adequada. Um carregador de 150 kW com duas saídas e potência partilhada não equivale a dois pontos capazes de entregar 150 kW cada um em simultâneo.

Numa estação ultrarrápida com quatro pontos de 350 kW, a ligação elétrica torna-se uma decisão central. Conforme a capacidade disponível no local, poderão ser necessários ligação em média tensão, posto de transformação, quadros de distribuição, módulos de conversão e cabos refrigerados. A gestão dinâmica permite repartir potência, mas essa repartição pode prolongar os carregamentos quando vários veículos a solicitam ao mesmo tempo.

O cenário de quatro pontos até 1 MW por veículo coloca exigências adicionais, sobretudo em aplicações para transporte pesado. Requer equipamentos e conectores compatíveis, refrigeração e infraestrutura elétrica dimensionada para a simultaneidade pretendida. Quatro pontos de 1 MW não implicam necessariamente uma ligação de 4 MW, mas também não garantem essa potência aos quatro utilizadores. O custo só ganha significado depois de definir o serviço que se pretende assegurar.

Reforçar a ligação ou armazenar energia

O reforço da ligação à rede é uma resposta possível, mas deve ser comparado com outras configurações. Uma bateria estacionária pode acumular energia em períodos de menor utilização e apoiar os carregadores nos picos de procura.

A própria BYD associa o sistema apresentado a armazenamento de descarga rápida. A inovação anunciada já combina, portanto, o carregador com uma solução para lidar com as limitações da alimentação elétrica.

Regressemos ao exemplo hipotético dos quatro pontos de 350 kW. Se a alimentação disponibilizar 800 kW aos carregadores, uma bateria poderá fornecer os 600 kW restantes para atingir 1,4 MW.

Uma reserva de 600 kWh úteis permitiria, idealmente, fornecer esses 600 kW durante uma hora. O sistema teria de suportar também essa potência de descarga. Numa instalação real, seria necessário considerar perdas, margens de segurança, temperatura, degradação e limites de operação.

Terminada a reserva, a potência disponível volta a depender da alimentação e da gestão da estação. A bateria precisa de recuperar carga, utilizando a capacidade que sobra depois de alimentar os veículos e os restantes consumos.

Esta solução pode fazer sentido para picos curtos e separados por períodos de menor procura. Se os picos forem prolongados ou consecutivos, poderá ser necessário mais armazenamento ou uma ligação mais potente. A comparação económica deve incluir o custo instalado da bateria, perdas, manutenção e substituição futura, além do investimento e dos prazos de reforço da ligação.

O fotovoltaico local pode contribuir para o balanço energético, mas a produção solar não garante potência numa noite de grande movimento. Cada solução responde a uma parte do problema.

A utilização decide a sustentabilidade do investimento

O equipamento mais rápido não é necessariamente o investimento mais rentável. Para um operador, a questão é quantas vezes será utilizado e que receita conseguirá gerar ao longo da sua vida útil.

Consideremos um exercício financeiro inteiramente hipotético: uma estação com investimento inicial de 800 mil euros, 20 carregamentos diários de 45 kWh e uma contribuição de 0,15 euros por kWh vendido, depois dos custos variáveis.

Em 365 dias, venderia 328,5 MWh e geraria 49.275 euros de contribuição anual. Dividir o investimento por esse valor conduz a cerca de 16,2 anos. Este cálculo não é uma previsão de rentabilidade: ainda faltam os custos fixos, financiamento, impostos e renovação dos equipamentos, e não se considera o valor temporal do dinheiro.

Com 40 carregamentos diários, mantendo todos os outros pressupostos, o mesmo cálculo aproxima-se de 8,1 anos. A diferença resulta da utilização, não da potência máxima anunciada.

O dilema operacional está aqui. Dimensionar para os períodos de maior movimento pode deixar capacidade pouco utilizada durante o resto do ano. Dimensionar apenas para a média pode produzir filas precisamente quando a rapidez é mais valorizada. A decisão exige conhecer os padrões de procura e o nível de serviço que se pretende oferecer.

Portugal precisa de olhar além do número de pontos

Na informação pública consultada em 11 de outubro de 2026, a MOBI.E anuncia mais de 16.100 pontos de carregamento disponíveis em todo o país. É um indicador importante de expansão, mas não permite, isoladamente, avaliar a capacidade para acompanhar o carregamento de maior potência.

Quatro pontos de 22 kW e quatro pontos de 350 kW contam ambos como quatro pontos. A experiência oferecida, as necessidades elétricas e o investimento são muito diferentes.

Também não seria rigoroso concluir que a rede portuguesa está genericamente impreparada. O desafio deve ser analisado localmente: potência disponível, distância à infraestrutura elétrica, possibilidade de reforço, procura esperada e capacidade de expansão.

Nos corredores rodoviários, a rapidez pode justificar maior concentração de potência. Em casa, no trabalho ou num hotel, o tempo de estacionamento permite soluções menos exigentes. O carregamento inteligente e a distribuição da procura podem ajudar a utilizar melhor a infraestrutura existente.

Para quem investe, a disponibilidade de potência deve entrar na análise da localização desde o início. Escolher o terreno e os carregadores antes de avaliar a ligação elétrica pode comprometer o custo, o prazo e o serviço previsto.

A rapidez terá de ser sustentada fora do automóvel

A redução dos tempos de carregamento é uma boa notícia para a mobilidade elétrica. Mas obriga a coordenar melhor fabricantes, operadores de carregamento e operadores de rede.

Antes de perguntar qual é o carregador mais potente, importa definir quantos veículos se espera atender, quanta energia precisam de receber e em que intervalo de tempo. Depois, comparar as configurações capazes de assegurar esse serviço.

O condutor não avalia uma estação pelo número impresso no equipamento. Avalia-a pela disponibilidade, pelo tempo de espera, pela energia que consegue receber e pelo preço que paga.

Carregar mais depressa só será uma vantagem efetiva se essa rapidez puder ser entregue de forma consistente. Preparar a rede para o futuro começa por escolher onde essa potência faz sentido e como pagar a infraestrutura que a torna possível.

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