6 min leitura
Da sustentabilidade à estratégia: O desafio climático dos eventos empresariais
A sustentabilidade dos eventos é frequentemente associada à utilização de materiais recicláveis, à eliminação de plásticos descartáveis, à redução do desperdício alimentar ou ao consumo de energia renovável. Por Dina Rato, ROC e senior adviser em Governance, Risk & Compliance.
21 Set 2026 - 06:45
6 min leitura
Dina Rato, ROC e senior adviser em Governance, Risk & Compliance
- Climate Week arranca com energia no centro da agenda climática global
- Lisboa recebe conferência internacional sobre papel do hidrogénio verde na transição energética
- Sumo de batata vai dar origem a produtos químicos de base biológica em novo projeto europeu
- Erros na medição da temperatura podem subestimar impactos climáticos em 15%
- Von der Leyen anuncia novas medidas europeias para reforçar a resiliência climática
- Mais de metade da eletricidade da UE teve origem em renováveis no segundo trimestre de 2026
Dina Rato, ROC e senior adviser em Governance, Risk & Compliance
O crescimento do turismo de negócios reforça a projeção internacional e a economia portuguesa. Portugal consolidou, nos últimos anos, uma posição relevante no mercado internacional de congressos e eventos empresariais. A capacidade de atrair encontros científicos, convenções e reuniões de organizações internacionais constitui uma componente importante da atividade turística, mas também um instrumento de projeção económica, circulação de conhecimento e desenvolvimento de relações empresariais.
Em 2025, Lisboa ocupou o primeiro lugar do ranking mundial da International Congress and Convention Association (ICCA), com 188 congressos e reuniões associativas internacionais elegíveis. Portugal contabilizou 356 eventos neste segmento, enquanto a capital ultrapassou Paris, com 174, e Barcelona, com 166. Os congressos realizados em Lisboa atraíram mais de 100 mil participantes internacionais, com uma despesa média estimada de 3.000 euros por participante, segundo a Associação Turismo de Lisboa. Estes números confirmam a importância económica de um setor que beneficia a hotelaria, a restauração, os transportes, os serviços especializados e as empresas envolvidas na organização e produção de eventos.
A dimensão económica dos eventos empresariais é frequentemente subestimada quando a análise se limita às receitas dos centros de congressos ou às dormidas geradas pelos participantes. Segundo o estudo publicado em 2026 pelo Events Industry Council (EIC), em colaboração com a Oxford Economics, os eventos empresariais reuniram aproximadamente 1,65 mil milhões de participantes em todo o mundo em 2025 e geraram 1,3 biliões de dólares de despesa direta. Considerando os efeitos diretos, indiretos e induzidos, o setor sustentou cerca de 24,2 milhões de empregos e contribuiu com 1,8 biliões de dólares para o produto interno bruto mundial. Os eventos corporativos e empresariais representaram aproximadamente 566 mil milhões de dólares, enquanto as convenções, conferências e congressos geraram 383,2 mil milhões. As feiras e exposições constituem outro segmento significativo, com 178,5 mil milhões de dólares de despesa direta.
A sustentabilidade dos eventos é frequentemente associada à utilização de materiais recicláveis, à eliminação de plásticos descartáveis, à redução do desperdício alimentar ou ao consumo de energia renovável. O roteiro “A Net Zero Roadmap for the Events Industry”, publicado em 2022 pela iniciativa Net Zero Carbon Events, identifica as deslocações dos participantes como a principal fonte de emissões na maioria dos eventos. O relatório analisa as exposições empresariais nos Estados Unidos e no Canadá e refere que o transporte dos participantes representou 85% das emissões, comparativamente a 13% associados à energia dos recintos e 1% à logística. Em exposições, a produção de stands e outros materiais pode assumir uma importância significativa. Nos eventos corporativos, a alimentação tende a representar uma componente relevante entre as emissões operacionais não relacionadas com viagens. Nas grandes competições desportivas ou nos eventos com movimentação intensiva de equipamentos, a logística pode apresentar um peso muito diferente. A dimensão, a duração, a distribuição geográfica dos participantes, os meios de transporte, a utilização de infraestruturas e os materiais envolvidos influenciam os resultados.
A reflexão ganhou particular relevância durante o Convene 4 Climate 2026 (C4C 2026), realizado em Lisboa, nos dias 15 e 16 de setembro, numa iniciativa da Professional Convention Management Association (PCMA), em colaboração com a Strategic Alliance of National Convention Bureaux of Europe e outros parceiros, e em que competiram várias empresas com soluções inovadoras endereçar os desafios de sustentabilidade, impacto climático, social, humano da realização destes eventos.
Destaço as três soluções selecionadas para a categoria Technology for Climate: Convien, Voltaage e Cosysense, sem desmerecer outras soluções inovadoras apresentadas. A Convien desenvolveu uma plataforma que analisa as cidades de origem dos participantes e compara possíveis localizações para reuniões e eventos, considerando custos, emissões de CO₂, tempos de viagem e produtividade, sendo que a mesma empresa afirma que a sua solução permite reduzir até 42% nas emissões associadas às deslocações e até 35% nos custos de viagem, dependendo das características do encontro. A Voltaage desenvolve ferramentas de inteligência artificial e análise geoespacial aplicadas ao planeamento da mobilidade elétrica e à utilização de infraestruturas de carregamento. A Cosysense desenvolveu uma solução de inteligência artificial para otimizar o funcionamento de equipamentos elétricos e sistemas de climatização em edifícios comerciais. A tecnologia pode ser integrada em infraestruturas existentes, utilizando dados operacionais para ajustar consumos de energia às necessidades dos espaços e dos seus utilizadores e apresenta um modelo comercial baseado na partilha das poupanças obtidas. Em conjunto, as três soluções intervêm em momentos distintos do ciclo de vida de um evento: A escolha do destino, a organização da mobilidade e a gestão energética dos recintos constituem decisões com consequências económicas e ambientais relevantes.
As soluções tecnológicas demonstram que a sustentabilidade pode começar muito antes de um evento acontecer: quando se escolhe o destino, se definem as deslocações ou se decide como utilizar os recursos disponíveis.
Setembro concentra 16,7% das reuniões registadas mundialmente pela associação, seguindo-se junho e outubro (ICCA, 2026). Em pleno mês de maior concentração de congressos associativos internacionais, é pertinente lembrar que soluções tecnológicas demonstram que a sustentabilidade pode começar muito antes de um evento acontecer: quando se escolhe o destino, se definem as deslocações ou se decide como utilizar os recursos disponíveis. Mas a tecnologia, por si só, não transforma modelos de negócio. Essa transformação depende de quem decide, dos critérios que orientam o investimento e da capacidade de medir os resultados. Para as empresas, organizadores e destinos, o desafio é deixar de tratar a sustentabilidade como uma preocupação operacional posterior e integrá-la nas decisões estratégicas. Porque a pegada carbónica de um evento, inclusive corporativo, começa muito antes da chegada dos participantes, começa nas escolhas de quem o planeia.
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