4 min leitura
Data centers já são tema de campanha. Em Portugal, ainda não são tema de debate.
A pergunta não é se queremos a infraestrutura digital: é quanto do território estamos dispostos a comprometer, quanta água, quanta energia, quanto ruído aceitamos, com que limites e com que benefício para quem cá vive. Por Pedro A. Neto, diretor executivo da SPEA
16 Out 2026 - 07:00
4 min leitura
Pedro A Neto diretor executivo da SPEA
- ERSE propõe subida de 1,5% nas tarifas da eletricidade em janeiro
- Economia portuguesa continua a crescer enquanto emissões de GEE diminuem
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- Importações de químicos vindos de países fora da UE sobem 12% em Portugal
- Bancos financiaram com 531 mil ME setores de elevado risco para as florestas
- Ministro da Agricultura defende mais fundos para programas regionais de apoio ao setor
Pedro A Neto diretor executivo da SPEA
Beverly Morris tem 71 anos e vive em Newton County, na Geórgia, EUA. Comprou ali a casa em 2016 e, dois anos depois, a Meta começou a construir, a trezentos metros, um data center — um armazém cheio de servidores e máquinas de processamento, essencial à inteligência artificial. A água do poço foi perdendo pressão e passou a trazer sedimento; substituiu os eletrodomésticos estragados, mas não tem dinheiro para um poço novo. A Meta encomendou um estudo que concluiu ser improvável que a sua obra fosse a causa, contou o New York Times. No início de setembro, os Morris, juntos com outras famílias, avançaram para tribunal, alegando que o abate de árvores e as escavações perturbaram o aquífero, noticiou o Atlanta Journal-Constitution.
Já não é caso único. Em 2026, deram entrada ações por ruído, incomodidade e negligência em tribunais federais de vários estados — do Michigan ao Mississippi, de Nova Jérsia a Nova Iorque —, segundo um balanço da WilmerHale.
Daí à política foi um instante. A 3 de novembro de 2026, as eleições intercalares nos EUA vão decidir-se, em parte, à volta dos centros de dados: o preço da eletricidade, que subiu 7,1% em 2025 num quadro de procura crescente, o gasto de água para arrefecimento e o ruído.
Em Portugal, o problema provavelmente repetir-se-á. As consultas públicas para este tipo de projetos têm sido muitas e a Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2026, de 13 de abril, aprovou o Plano Nacional de Centros de Dados, que promete simplificar os procedimentos de licenciamento. Em Sines, o campus da Start Campus avança. Em Abrantes, dois projetos — o Hyperion, em Alvega, e o EDC One, nos terrenos da antiga central do Pego — podem consumir, segundo a proTEJO e em plena capacidade, até 4380 GWh por ano, quase 29 vezes o consumo elétrico do concelho, e entre 3,6 e 22,2 milhões de litros de água por dia, consoante a tecnologia de arrefecimento. A Quercus, com pressupostos porventura mais prudentes, estima 1314 GWh de consumo elétrico por ano num cenário de 30% de utilização — ainda assim, quase nove vezes o consumo de todo o concelho — e exige uma avaliação ambiental de impactes cumulativos dos dois projetos. A proTEJO lembrou também que a Agência Portuguesa do Ambiente prevê o agravamento da escassez na bacia do Tejo entre 2028 e 2033, quando estas instalações deverão arrancar.
Mais procura de eletricidade significa mais produção: o PNEC 2030 (Plano Nacional de Energia e Clima) prevê passar de 8,4 para 20,8 GW de solar e de 6,3 para 10,4 GW de eólica em terra. Se essa expansão for feita sem critério, o impacte alarga-se ainda mais. Este plano quer garantir independência energética, mas os centros de dados exigirão muito consumo. O plano é para eles ou para nós?
Em junho, o Governo aprovou a revisão da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030, que assume a meta de proteger 30% do território e manda integrar a biodiversidade nas políticas setoriais, e, na mesma semana, a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030, que promete reforçar a resposta a secas e ondas de calor. Um plano que acelera um grande consumo de água e de energia nas bacias mais vulneráveis parece ser contraditório.
Beverly Morris não ficou sem água por causa da inteligência artificial. Ficou porque ninguém perguntou, a tempo, que impactes o projeto causaria.
Portugal tem sol, vento, água do mar e espaço — é por isso que os projetos chegam. Nada disso nos obriga a aceitá-los em qualquer sítio e a qualquer preço. A pergunta não é se queremos a infraestrutura digital: é quanto do território estamos dispostos a comprometer, quanta água, quanta energia, quanto ruído aceitamos, com que limites e com que benefício para quem cá vive.
- ERSE propõe subida de 1,5% nas tarifas da eletricidade em janeiro
- Data centers já são tema de campanha. Em Portugal, ainda não são tema de debate.
- Economia portuguesa continua a crescer enquanto emissões de GEE diminuem
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