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O caminho para Yerevan

Mais de 44 biliões de dólares de produção anual dependem de sistemas naturais, segundo o Fórum Económico Mundial. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI

28 Set 2026 - 06:43

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Nuno Gaspar de Oliveira CEO da NBI Natural Business Intelligence

Nuno Gaspar de Oliveira CEO da NBI Natural Business Intelligence

 

Calouste Gulbenkian morreu em Lisboa em julho de 1955, num hotel onde vivia havia 13 anos, e deixou uma das maiores fortunas do século e um cognome que dizia tudo: Senhor Cinco por Cento. Nunca perfurou um poço; sabia onde estava cada interesse e cada assinatura que faltava, e cobrava por juntar quem tinha petróleo a quem o queria. Era arménio, de um povo que passou séculos sem Estado próprio e sobreviveu com registos e contas bem feitas, certo de que o valor de uma coisa depende menos do lugar onde nasce do que do caminho que a leva até quem a paga.

Foi para a sua terra natal que a Natureza marcou viagem em outubro. Entre os dias 19 e 30, Երևան, Yerevan, acolhe a COP17 da Convenção sobre a Diversidade Biológica, a primeira a rever o que os governos prometeram em Montreal em 2022, numa cidade que começou por ser uma inscrição: em 782 AEC, Argishti I, rei de Urartu, mandou gravar em cuneiforme numa pedra da fortaleza de Էրեբունի, Erebuni, que fundara ali uma cidade onde antes havia deserto, e a primeira lápide que os arqueólogos desenterraram comemorava a construção de um celeiro. A 8 km, a reserva de Erebuni, criada em 1981 numa estepe de solos vermelhos, guarda 3 das 4 espécies de trigo selvagem do mundo. Nikolai Vavilov, o botânico russo que cartografou os centros de origem das plantas cultivadas, foi vê-las nos anos 30 e pediu ali mesmo uma reserva; morreu de fome numa prisão de Estaline em 1943, e a reserva demorou 50 anos. Hoje tem por vizinho um cemitério de pesticidas. A cidade que abriu a sua história com o registo de um celeiro ainda não aprendeu a contar o trigo selvagem, nem a pôr no balanço o que perde quando o envenena.

A sul, a estrada para o lago Sevan sobe por Vayots Dzor, o vale das lamentações, entre encostas nuas de rocha vulcânica, sem uma árvore, com rebanhos em prados de altitude onde no inverno só fica a neve; é terra de muflão e de cabra-bezoar, e por cima das cristas voa o quebra-ossos, de que restam 11 ou 12 casais em toda a Arménia. No alto do passo de Վարդենյաց, Vardenyats, a que os mapas chamam Selim, a 2 410 m, resiste um caravançarai de 1332, palavra persa que junta caravana e palácio e designa a estalagem fortificada onde as caravanas paravam de noite: uma nave escura de basalto, animais atados a manjedouras de pedra, os homens num quarto à parte. O passo só se atravessa de maio a novembro, e quem ficava do lado errado … ficava.

À entrada, uma inscrição. Um príncipe cristão, Chesar Orbelian, com a mãe Ana, a mulher Khorishah e os irmãos, mandou erguer aquilo “no reinado mundial de Busaid Khan”, um ilcã mongol e muçulmano, e deixou a memória em arménio por dentro, no alfabeto que Mesrop Mashtots desenhou em 405 e que a cidade ainda usa, e em persa por fora, com o nome de quem pagou e para quê. Em 1332, numa das rotas mais violentas do planeta, havia quem soubesse registar quem financiou o abrigo, sob que soberania e com que propósito, em duas línguas. Yerevan guarda hoje, no Matenadaran, milhares de manuscritos que sobreviveram a invasões e deportações porque alguém os carregou às costas. A biodiversidade em 2026 ainda não tem um registo tão claro.

O nome da rota é uma invenção tardia, popularizada em 1877 pelo geógrafo alemão Ferdinand von Richthofen, que percorria a China a cartografar carvão e caminhos de ferro; a estrada, no singular, nunca existiu, e a seda era uma fração da carga. O que atravessava mesmo a Ásia era confiança escrita: letras de câmbio, promessas de pagamento em papel que dispensavam carregar metal, e livros de contas que sobreviviam aos donos. Os arménios de Նոր Ջուղա, a Nova Julfa, deslocados à força para Isfahan no início do século XVII, ergueram sobre esse papel uma rede de Amesterdão a Manila. A grande invenção da rota foi medir uma coisa num sítio e vê-la reconhecida noutro, por gente que nunca se cruzou.

A viagem muda aqui de mercadoria. Mais de 44 biliões de dólares de produção anual dependem de sistemas naturais, segundo o Fórum Económico Mundial, e ainda assim a Natureza viaja sem caravançarais: entra nos balanços como madeira ou colheita e sai deles sem rasto quando se degrada. Em Montreal, os governos prometeram integrá-la na contabilidade pública, obrigar as grandes empresas e a banca a divulgar dependências e impactos, mobilizar 200 mil milhões de dólares por ano e cortar 500 mil milhões de subsídios que a destroem. Prometeram construir a rota; em Yerevan mede-se quanto do mapa virou estrada.

O primeiro passo está fechado por mau tempo: chega-se à Arménia num ano em que a palavra de ordem em Bruxelas é simplificar e do outro lado do Atlântico é desregular. As caravanas, quando um passo fechava, procuravam outro. O ISSB (International Sustainability Standards Board) publica em outubro a minuta das suas orientações sobre Natureza e clarificou de caminho que a norma IFRS S1, a regra internacional que os investidores usam para ler o risco de uma empresa, já exige hoje a divulgação da informação material sobre a Natureza. A Comissão Europeia prepara um mercado de créditos de Natureza para 2027. E Portugal chegou cedo: o projeto do Plano Nacional de Restauro da Natureza entrou em Bruxelas a 28 de agosto, com 375 medidas e cerca de 500 milhões de euros por ano até 2030.

O oásis traz a primeira desilusão: 500 milhões parecem muito até se dividirem por 20% do território a restaurar, e o dinheiro público é o poço de que todas as caravanas bebem e que nunca chega para todas. A Rota da Seda durou porque milhares de mercadores confiavam nas contas uns dos outros, e os créditos de Natureza tentam repetir esse mecanismo: pagar a quem restaura com dinheiro de quem depende. Pelos mesmos caminhos viajaram os salteadores, e a peste: créditos sem adicionalidade, que pagam por uma Natureza que já existia; verificadores que veem o que lhes pagam para ver. Uma rota distingue-se de um contrabando pela qualidade do registo, e nenhum crédito sobrevive a uma linha de base inventada, o retrato medido do estado de partida sem o qual nenhuma melhoria se prova.

E há a portagem, a parte que Gulbenkian conhecia melhor. As métricas, os registos e as normas que se escrevem entre 2026 e 2027 vão ser os trilhos por onde o capital para a Natureza circulará durante décadas; quem os ajudar a desenhar, e quem chegar com dados próprios e verificáveis, negociará em condições que os retardatários terão de aceitar como dadas. Cinco por cento, cobrados a quem só tem intenções.

A palavra caravana vem do persa kārwān, کاروان, e designa uma coisa que ninguém consegue ser sozinho. Quem hoje gere uma empresa ou um território vai ser medido, de Yerevan em diante, por perguntas simples de fazer e difíceis de responder: de que ecossistemas depende o negócio, e em que estado estão? Se um investidor pedir amanhã a informação que a IFRS S1 já exige, o que há para lhe mostrar além de intenções? E o que existe, no território gerido, que um crédito de Natureza poderia valorizar, se alguém estivesse hoje a medir o que lhe dará valor amanhã?

Chesar Orbelian, Ana e Khorishah deixaram escrito em duas línguas quem pagou o abrigo e para quê. A caravana para Yerevan já partiu; do desfiladeiro vê-se quem segue dentro dela com a inscrição escrita, e quem ficou a olhar.

 

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