Subscrever Newsletter - Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Submeter

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade

4 min leitura

A economia azul em Portugal não precisa de mais estratégia. Precisa de começar a escalar

Portugal tem quase tudo para fazer isto bem. Talvez por isso seja ainda mais difícil perceber porque é que não acontece. Há conhecimento, há talento, há capacidade científica, há acesso a financiamento. E, mesmo assim, continuamos aquém. Por Pedro Bobião, managind director da Vide de Grunwald.

03 Abr 2026 - 10:30

4 min leitura

Pedro Bobião, managind director da Vide de Grunwald

Pedro Bobião, managind director da Vide de Grunwald

A economia azul não é nova. Nunca foi. O que é estranho é continuarmos a falar dela como se ainda estivesse por começar. Sempre esteve lá, a sustentar comunidades, a criar valor e a gerar emprego.

O problema nunca foi o recurso. Foi, e continua a ser, a forma como o organizamos.

Hoje fala-se mais de economia azul do que nunca em Portugal. Está em todo o lado, em programas, universidades, eventos e agendas. E isso é positivo. Mostra interesse, mostra prioridade. Mas há uma diferença que continua por resolver: falar de economia azul não é o mesmo que ter uma economia azul. E essa diferença chama-se escala.

Portugal tem quase tudo para fazer isto bem. Talvez por isso seja ainda mais difícil perceber porque é que não acontece. Há conhecimento, há talento, há capacidade científica, há acesso a financiamento. E, mesmo assim, continuamos aquém.

Não é falta de visão. É a dificuldade em ligar as peças.

Há produção, mas sem escala. Há indústria, mas sem previsibilidade. Há inovação, mas muitas vezes longe do mercado. Quando estas peças não se ligam, o valor perde-se.

Também se diz muitas vezes que falta capital. Mas não é isso que se vê no terreno. O capital existe, está disponível e está interessado. O que não acontece é a entrada consistente desse capital.

E não acontece por uma razão simples: falta estrutura onde esse capital possa entrar com confiança.

Quem investe não entra em intenções. Entra quando percebe que há continuidade, previsibilidade e capacidade de execução. E isso ainda é raro.

Ao mesmo tempo, Portugal tornou-se muito bom a alinhar. Há acordos, redes e cooperação entre universidades, cidades e centros de investigação. Tudo isso é importante, mas há uma pergunta simples que quase nunca se faz: o que é que saiu daqui?

Quantas empresas cresceram de forma consistente? Quantos projetos passaram do piloto? Quantos empregos ficaram?

Alinhar não cria economia. Execução cria economia.

E é aqui que continuamos a falhar.

Não faltam projetos interessantes, mas muitos ficam no piloto. Testar é importante, claro. Mas uma economia não vive de pilotos. Precisa de estruturas que permitam repetir, crescer e ganhar escala.

E essa mudança não é tecnológica. É estrutural.

Ideias nunca faltaram. O que falta é ligá-las aos problemas certos, nos territórios certos, com capacidade real de execução.

Hoje, produção, ciência, indústria e capital continuam demasiado separados. E, enquanto assim for, vamos continuar a ter iniciativas, mas não vamos ter uma economia a funcionar como um sistema.

É aqui que entram os clusters. E é aqui que, muitas vezes, nos enganamos.

Clusters não são eventos, nem redes, nem fóruns. São estruturas que funcionam no terreno. Não existem para discutir a economia, existem para a executar. Servem para organizar cadeias de valor, ligar quem produz a quem transforma e a quem investe, e dar continuidade ao que hoje fica pelo caminho.

São essas estruturas que permitem tirar projetos do piloto e transformá-los em atividade económica real.

Sem isso, não há previsibilidade. E sem previsibilidade, o investimento não acontece.

No fundo, o problema não é falta de potencial. É falta de estrutura que torne esse potencial real.

Há ainda um ponto que continua subaproveitado. Portugal não ganha por dimensão. Ganha por posição.

Existe uma ligação natural entre Portugal, o Brasil e vários países africanos. E isto não é uma ideia bonita, é algo que faz sentido na prática. A Europa com conhecimento, tecnologia e capital, o Brasil com escala e capacidade produtiva, África com crescimento e novas oportunidades.

Mas isto só funciona quando é organizado. Sem estrutura, são apenas relações. Com estrutura, torna-se economia.

Quando estas ligações começam a funcionar a sério, deixa de haver projetos isolados. Passa a haver continuidade, pipeline e escala. E é aí que o investimento entra. Porque o capital não procura ideias, procura aquilo que já está a funcionar.

Portugal já tem muito do que precisa. O desafio não é inventar mais. É organizar melhor e transformar organização em execução.

A economia azul já existe há milhares de anos.

O que ainda não existe é uma economia azul organizada o suficiente para crescer de forma consistente, atrair investimento e gerar valor à escala.E isso não se resolve com mais planos, mais eventos ou mais alinhamento.

Resolve-se quando alguém começar a executar a sério. Até lá, o potencial continua lá, mas o valor continua por capturar.

E isso, mais do que falta de recursos, é uma escolha.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade