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A IA entra nos próximos 50 anos da EDP
Do atendimento ao cliente ao desenvolvimento de software, a inteligência artificial já está a mudar processos dentro da EDP. Com cerca de 12 mil colaboradores a usar ferramentas de IA generativa, a energética quer agora passar da experimentação à transformação à escala. Mas sem entregar às máquinas aquilo que considera que deve continuar humano.
01 Out 2026 - 12:00
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Ana Paula Marques administradora do Conselho de Administração Executivo da EDP
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Ana Paula Marques administradora do Conselho de Administração Executivo da EDP
Cerca de doze mil colaboradores já usam ferramentas de inteligência artificial generativa, mais de 10 mil agentes de IA estão disponíveis dentro da organização e a estimativa aponta para cerca de 1,8 milhões de horas de poupança anual. Na EDP, a discussão sobre inteligência artificial começa, por isso, a deixar para trás a pergunta sobre aquilo que a tecnologia consegue fazer. A questão passa a ser o que deve ser entregue às máquinas e o que tem de continuar nas mãos das pessoas.
Foi essa fronteira que atravessou a terceira edição do AI Summit da EDP, realizada nos dias 15 e 16 de setembro. Durante dois dias, responsáveis da energética e especialistas internacionais, provenientes de diferentes geografias e de parceiros tecnológicos como Microsoft, AWS, Google, SAP e Gartner, discutiram o impacto da inteligência artificial nas organizações, na sociedade e, em particular, num setor que gere infraestruturas críticas. “Para a EDP, tornar-se uma empresa verdadeiramente impulsionada por IA significa saber o que automatizar, o que delegar e o que amplificar. Significa também ter clareza sobre o que deve permanecer humano — o julgamento, o pensamento crítico e a responsabilidade. E, enquanto empresa, temos de abraçar esta transformação, impulsioná-la e estabelecer, de facto, as salvaguardas adequadas”, defendeu Ana Paula Marques, administradora do Conselho de Administração Executivo da EDP e responsável pela tutela da inteligência artificial na empresa.
A afirmação ganha outra dimensão num ano particularmente simbólico para a energética. A EDP completou 50 anos e está a colocar a inteligência artificial entre as tecnologias que considera determinantes para a próxima etapa da sua história. O desafio já não passa apenas por experimentar ferramentas. Passa por levá-las à escala de uma organização internacional e perceber onde podem efetivamente transformar o negócio da energia.
Da experiência à escala
Os números apresentados pela empresa ajudam a perceber a dimensão que essa mudança já alcançou. Ferramentas de IA generativa como o Microsoft Copilot e o Mind4EDP foram disponibilizadas transversalmente à organização e são utilizadas por cerca de 12 mil colaboradores. No grupo considerado prioritário, a taxa de utilização ultrapassa os 90%.
Ao mesmo tempo, mais de oito mil colaboradores já participaram em programas de formação em inteligência artificial. A adoção é acompanhada por mais de 10 mil agentes de IA, numa transformação que a EDP estima poder representar cerca de 1,8 milhões de horas de poupança num ano.
Mas é precisamente na forma de olhar para esse número que se encontra uma das ideias que a empresa quis colocar no centro do AI Summit. O objetivo não é apenas contabilizar as horas que deixam de ser gastas em determinadas tarefas. A oportunidade, na perspetiva da EDP, está também naquilo que pode ser feito com o tempo libertado: pensar, inovar, colaborar, exercer espírito crítico ou concentrar a atenção nas decisões consideradas mais relevantes.
A transformação começa, entretanto, a sair das ferramentas de utilização generalizada para entrar diretamente nos processos de negócio. A EDP contabiliza atualmente mais de 60 casos de utilização de inteligência artificial já implementados e cerca de 50 jornadas de transformação em curso nas diferentes geografias onde opera.
É aí que os números começam a ganhar exemplos concretos. No desenvolvimento de software, a IA generativa já acompanha diferentes etapas do processo, desde a definição de requisitos até às operações. A adoção nos casos de utilização ativos ronda os 50%, incluindo ferramentas como o GitHub Copilot, que apoia os programadores na escrita de código, nos testes de aplicações e na identificação e correção de erros.
O princípio é semelhante ao que está a acontecer noutras áreas: automatizar parte das tarefas repetitivas e libertar as equipas para trabalho de maior complexidade.
Quando a IA fala com o cliente
No atendimento ao cliente, essa mudança já chega diretamente a quem está do outro lado da relação com a energética. A EVA, assistente de inteligência artificial utilizada pela EDP no atendimento, consegue atualmente responder de forma autónoma, do princípio ao fim, a cerca de 36% das interações. A utilização da tecnologia procura reduzir os tempos de resposta e tornar o serviço mais consistente, ao mesmo tempo que automatiza uma parte das solicitações recebidas.
Noutro ponto da relação com os consumidores surge o Moonshot, uma plataforma que utiliza inteligência artificial para gerar recomendações personalizadas relacionadas com eficiência e poupança energética. A solução apresenta níveis de adoção próximos dos 60% e as recomendações chegam aos clientes através da Eddy, a assistente energética da EDP baseada em IA.
Neste caso, a inteligência artificial não é utilizada apenas para responder a uma pergunta. Cruza informação para ajudar o consumidor a perceber como pode tomar decisões diferentes sobre a utilização de energia.
São exemplos de uma transformação que a EDP procurou levar ao AI Summit não apenas através de apresentações sobre tecnologia, mas mostrando casos desenvolvidos nas diferentes geografias onde está presente. Ao longo dos dois dias foram apresentados quatro casos de sucesso da empresa, num programa que reuniu 23 sessões e 40 oradores.
Quem decide quando decide o algoritmo?
Quanto mais a inteligência artificial entra nos processos quotidianos de uma organização, porém, mais relevante se torna uma questão que não pode ser respondida apenas pela tecnologia: quem mantém a responsabilidade pela decisão? Precisamente um tema abordado por Rita Ferreira de Almeida, Global Legal & Governance Executive Director da EDP, e Adolfo Mesquita Nunes, Country Co-Chair e Partner da Pérez-Llorca e especialista em compliance e ética de inteligência artificial, que participaram numa sessão com uma pergunta particularmente direta no título: “Quem detém o poder quando os algoritmos governam?”
A discussão incidiu sobre a relação entre poder, responsabilidade, autonomia humana e prestação de contas quando os sistemas algorítmicos participam na tomada de decisões. Transparência, governação, enviesamentos e a identificação de quem responde pelas consequências de decisões influenciadas por sistemas automatizados estiveram entre os temas colocados em cima da mesa.
Aliás, não é difícil perceber que esta é uma discussão especialmente relevante para uma empresa energética. Aplicar inteligência artificial numa organização que opera infraestruturas críticas coloca problemas diferentes daqueles que surgem quando a tecnologia é utilizada apenas para automatizar uma tarefa administrativa.
A segurança e o controlo dos dados estiveram, por isso, também entre os temas do encontro. Joseph Santamaria, General Manager da AWS Energy and Utilities, participou numa sessão dedicada à “IA Soberana para Infraestruturas Críticas”, centrada na construção de arquiteturas resilientes para sistemas críticos, no controlo dos dados e na integridade das operações.
A discussão avançou ainda para uma nova etapa da adoção tecnológica: a IA baseada em agentes e a possibilidade de passar progressivamente da automação inteligente para operações com maior grau de autonomia. É justamente aí que a distinção traçada por Ana Paula Marques no início do encontro se torna mais relevante. A tecnologia pode automatizar, pode receber tarefas delegadas e pode ampliar capacidades. Mas julgamento, pensamento crítico e responsabilidade são colocados pela EDP no lado da equação que deve permanecer humano.
A energia que a própria IA vai exigir
Há ainda uma segunda relação entre inteligência artificial e energia. A IA pode transformar uma empresa energética, mas o crescimento da própria inteligência artificial e da economia digital exige cada vez mais capacidade energética. O campus de centros de dados de grande escala previsto para Sines é utilizado pela EDP como exemplo dessa ligação. No pico, o projeto terá uma capacidade de até 1,2 GW e será alimentado a 100% por energia renovável. De acordo com os dados disponibilizados pela empresa, poderá representar aproximadamente 20% do consumo energético de Portugal. A escala ajuda a perceber por que razão a discussão sobre IA dentro de uma energética não se esgota na adoção de ferramentas digitais. A expansão dos centros de dados e da capacidade computacional necessária para suportar novas aplicações cria também procura de eletricidade, colocando a infraestrutura energética no centro da transformação tecnológica.
IA e energia encontram-se, assim, dos dois lados da mesma equação: a inteligência artificial pode ser utilizada para tornar o sistema energético mais eficiente e, simultaneamente, a sua expansão depende da capacidade de produzir e fornecer a energia de que necessita.

Uma discussão para os próximos 50 anos
O AI Summit reuniu mais de 2600 participantes ao longo dos dois dias, presencialmente e online, nas geografias onde a EDP está presente, desde América do Sul, América do Norte, Europa e Ásia-Pacífico. Além das 23 sessões e dos 40 oradores, o programa incluiu quatro desafios de inteligência artificial promovidos por parceiros no Hackathon, quatro casos de sucesso da EDP e três projetos distinguidos nos “Oscars” da iniciativa. Foram ainda reconhecidos 16 Global Black Belts.
Mas o encontro serviu sobretudo para colocar uma discussão que ultrapassa os dois dias de programa.
Na abertura, Ana Paula Marques e Mark Chaban, Corporate Vice President e Board Member da Microsoft, partiram precisamente da passagem da experimentação para uma transformação à escala empresarial. A conversa “Liderar a Empresa Energética Impulsionada pela IA” colocou a liderança no centro dessa mudança, num momento em que a tecnologia começa a deixar de estar confinada a projetos isolados e passa a integrar processos quotidianos da organização.
O encerramento levou o horizonte ainda mais longe. Numa sessão intitulada “Liderar os Próximos 50 Anos: Como a IA irá Moldar o Futuro da EDP”, Miguel Stilwell d’Andrade, CEO da EDP, abordou o papel da inteligência artificial na direção estratégica de longo prazo da empresa, com a discussão centrada nas pessoas, confiança, infraestruturas críticas, sustentabilidade e relação com parceiros.
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