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A Inteligência Artificial precisa de um novo contrato social

Se uma empresa conseguir produzir o mesmo com menos trabalhadores, a sua produtividade e os seus resultados poderão aumentar. Mas haverá também menos salários, eventualmente menos contribuições sociais e mais pessoas a necessitar, pelo menos temporariamente, de apoio público. Temos, portanto, de discutir quem beneficia dos ganhos e quem suporta os custos da transição. Por Sofia Santos, PhD, CEO da Systemic Sphere

07 Out 2026 - 06:50

3 min leitura

Sofia Santos PhD CEO da Systemic Sphere

Sofia Santos PhD CEO da Systemic Sphere

A Inteligência Artificial promete aquilo que todas as grandes revoluções tecnológicas prometeram: fazer mais com menos. Empresas mais produtivas, processos mais rápidos, menores custos e, potencialmente, maiores lucros. Tudo isto é positivo. O problema começa quando perguntamos como serão distribuídos os ganhos dessa produtividade.

A IA não vai simplesmente eliminar empregos. Vai transformar profissões, substituir determinadas tarefas e criar outras. Mas esta transição não será neutra. Alguns trabalhadores conseguirão adaptar-se rapidamente e beneficiarão da tecnologia; outros poderão perder rendimento ou emprego, ou descobrir que as competências que construíram durante décadas deixaram de ter o mesmo valor. E a velocidade da mudança poderá ser muito superior à capacidade de adaptação das pessoas e das instituições.

É aqui que a Inteligência Artificial deixa de ser apenas um tema tecnológico e passa a ser também um risco social e financeiro.

Se uma empresa conseguir produzir o mesmo com menos trabalhadores, a sua produtividade e os seus resultados poderão aumentar. Mas haverá também menos salários, eventualmente menos contribuições sociais e mais pessoas a necessitar, pelo menos temporariamente, de apoio público. Temos, portanto, de discutir quem beneficia dos ganhos e quem suporta os custos da transição.

Não significa criar simplesmente um “imposto sobre a IA”, que poderia penalizar inovação e competitividade. Significa reconhecer que, numa economia em que uma parcela crescente do valor pode ser criada por tecnologia e capital, os sistemas fiscais excessivamente dependentes do rendimento do trabalho terão de ser repensados. Empresas altamente produtivas e lucrativas têm de contribuir adequadamente para financiar a sociedade na qual operam.

E essa discussão deve estar ligada a uma segunda: o Estado Social terá de ser mais forte, e não mais fraco, num mundo de Inteligência Artificial. Não necessariamente um Estado maior, mas um Estado mais preparado para apoiar transições profissionais, financiar requalificação ao longo da vida, proteger temporariamente rendimentos e criar condições para que perder um emprego não signifique ficar definitivamente excluído do mercado de trabalho.

Também as empresas têm interesse neste equilíbrio. Uma transição tecnológica que gere desemprego persistente, desigualdade, perda de confiança ou exclusão cria riscos sociais que regressam às próprias empresas através de menor procura, instabilidade política, conflitualidade laboral e perda de legitimidade.

A questão essencial não é, portanto, se devemos travar a Inteligência Artificial. Devemos aproveitar todo o seu potencial para aumentar a produtividade. A questão é como garantir que uma parte dos ganhos extraordinários que ela pode gerar financia a adaptação daqueles que suportam os custos da transformação.

A tecnologia pode tornar a economia mais eficiente. Cabe-nos garantir que também a torna socialmente sustentável.

 

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