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Conferência Green Finance: A sustentabilidade é o novo sistema operativo da economia

Regulação, risco climático e green bonds estiveram em debate na primeira conferência do Jornal PT Green, dedicada à green finance. Bancos, empresas e reguladores analisaram o novo enquadramento europeu das finanças sustentáveis e o papel do setor na transição climática.

27 Nov 2025 - 18:32

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Isabel Ucha, CEO da Euronext Portugal | Foto: Jornal PT Green

Isabel Ucha, CEO da Euronext Portugal | Foto: Jornal PT Green

As finanças verdes são a rede que hoje sustenta a sustentabilidade, apesar dos problemas e dos desafios, mas a transição climática e energética exige grandes investimentos, ou seja, exige capital, confiança e um quadro regulatório que não asfixie empresas e investidores, como foi salientado na “Conferência Green Finance: Desafios do novo enquadramento regulatório e geopolítico”, organizada nesta quinta-feira pelo Jornal PT Green, e que contou com o apoio do Novo Banco.

Na abertura da conferência, Isabel Ucha, CEO da Euronext Lisboa, começou por sublinhar que a sustentabilidade permanece um eixo central do mercado, apesar da incerteza global. “Não é porque alguns líderes globais têm posições contraditórias que o tema deixou de ser importante”, afirmou, lembrando que empresas portuguesas e europeias continuam a investir massivamente na transição energética. A EDP, disse, “já emitiu mais de 15 mil milhões de euros em obrigações verdes e levantou 3 mil milhões em capital”, demonstrando o peso do mercado de capitais no financiamento da transformação.

A líder da Euronext destacou ainda o papel da bolsa enquanto pilar da chamada União da Poupança e do Investimento, lembrando que o grupo opera hoje “um centro único de financiamento, com as mesmas regras e acesso para mais de 1.800 empresas”. Uma das prioridades tem sido reforçar a transparência, nomeadamente através dos perfis ESG harmonizados que permitem comparar 60 indicadores de sustentabilidade entre empresas. Do lado dos investidores, Isabel Ucha salientou o crescimento dos ETF e o dinamismo das obrigações ESG: “Temos 3.100 obrigações sustentáveis cotadas e 2025 está ainda mais ativo do que 2024”.

Foto: Jornal PT Green

Mas Isabel Ucha alerta que a “avalanche regulatória” europeia precisa de ser contida e que se deve “reencontrar o equilíbrio entre promover a economia verde e evitar burocracia que não acrescenta valor.”

Se a CEO da Euronext falou da perspetiva operacional do mercado, Juliano Ferreira, administrador da CMVM, trouxe o ponto de vista do supervisor, defendendo que a sustentabilidade deixou de ser um capítulo paralelo e “transformou-se no novo sistema operativo da economia”. O risco climático, afirmou, já se reflete “no preço dos ativos, no custo de capital e nos deveres fiduciários dos gestores”.

O administrador da CMVM alertou para o contexto internacional adverso — da guerra da Ucrânia às mudanças políticas nos EUA — e para a tensão crescente entre competitividade, defesa e ambição climática. Perante este cenário, a regulação europeia tornou-se simultaneamente avançada e excessivamente complexa: “Criámos regras extraordinárias, mas nem sempre proporcionais. A incerteza normativa está a tornar-se um custo estrutural”, admitiu.

Para responder a este desafio, Juliano Ferreira sintetizou o papel da CMVM em quatro eixos: confiança, simplificação, proporcionalidade e previsibilidade. Defendeu uma regulação que diferencie rigor de burocracia em que haja “menos reporte obrigatório porque não significa menos escrutínio, significa melhor informação, mais relevante e útil para os investidores.”

Juliano Ferreira, administrador da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) | Foto: Jornal PT Green

Juliano Ferreira destacou ainda a adesão voluntária das empresas portuguesas às novas normas de reporte, frisando que “a quase totalidade das cotadas publicou relatórios de sustentabilidade relativos a 2024. Já não estamos num mero contexto de compliance, mas de convicção.”

No encerramento, deixou uma reflexão sobre o futuro: “As finanças sustentáveis não são um destino. São um meio para transformar empresas, reforçar a confiança dos investidores e construir um futuro, em vez de apenas reagir ao presente.”

Na sustentabilidade, a Europa lidera na regulação, mas enfrenta desafio da competitividade e da inovação

“A transição está aqui, está a acontecer e é imparável”, afirmou António Baldaque da Silva, diretor do Center for Sustainable Finance da Católica-Lisbon, durante o painel “O novo mapa do regulatório”, moderado por Dina Rato, ROC e senior advisor em Governance, Risk e Compliance. António Baldaque da Silva sublinhou que os três motores desta mudança são os padrões de consumo da sociedade, a evolução tecnológica que torna as soluções sustentáveis mais eficientes financeiramente, e a compreensão das empresas sobre os riscos e oportunidades da alteração climática.

Baldaque Silva foi crítico em relação à abordagem regulatória europeia inicial. “Lideramos não da forma que seria mais saudável, que seria por inovação das empresas. Entrámos com regulação a mais”, reconheceu, defendendo que “ainda bem que estamos a corrigir um bocadinho”. O especialista alertou para a necessidade de “coragem política para alterar a forma como o sistema está a funcionar”, referindo que “7% do PIB mundial é em subsídios e investimentos que são inúteis para o ambiente e para a biodiversidade”.

Ana Fontoura Gouveia, diretora de sustentabilidade do Banco de Portugal, contextualizou o pacote de simplificação europeu. “O que vemos na Europa é um pacote de simplificação que se enquadra num objetivo mais vasto de colocar a política industrial no centro das ações”, explicou, destacando que “não teremos uma política climática verdadeiramente sustentável se ela não for a par de uma política industrial criadora de riqueza e emprego”.

A responsável alertou que “os riscos climáticos estão lá e não vão embora com essas ambições de competitividade”, referindo que os eventos climáticos extremos “estão a tornar-se mais frequentes e intensos” e afetam as cadeias de valor globais. Quanto ao exemplo chinês, destacou o incentivo económico na indústria de veículos elétricos e “a vontade da China de reduzir a sua dependência aos esforços do exterior”.

Patrícia Afonso Fonseca, administradora do Novo Banco, chamou a atenção para as dificuldades práticas. “A diversidade e as diversas velocidades regulatórias mostram bem os desafios para os agentes económicos”, afirmou, sublinhando que “empresas com atividades à escala global têm dificuldade enorme de se preparar”.

António Baldaque da Silva, Ana Fontoura Gouveia, Patrícia Afonso Fonseca e Dina Rato | Foto: Jornal PT Green

Sobre o impacto nas PME, explicou que “mesmo que a maioria das empresas esteja fora dos âmbitos de aplicação desta legislação, são afetadas indiretamente” porque “as empresas obrigadas a reporte exigem que esta informação seja prestada pelos agentes das suas cadeias de valor”. A administradora salientou a importância da plataforma AICEP-ESG, que “permite a criação de um repositório de informação centralizado” e facilita o cálculo de indicadores importantes para as relações com o sistema financeiro.

Afonso Fonseca sublinhou ainda que “a robustez financeira das empresas depende de conseguirem incorporar os riscos climáticos nos seus planos de negócio”, afetando diretamente “a perceção de risco de crédito que os bancos e os mercados de capitais têm, condicionando o acesso ao crédito”.

Ana Fontoura Gouveia detalhou o papel do Banco de Portugal na supervisão. “O risco climático alimenta aquilo que é o risco financeiro”, esclareceu, explicando que o banco publica anualmente um relatório sobre a exposição do setor bancário, tendo identificado que “o risco de estresse hídrico, térmico e o risco de incêndio são particularmente relevantes para o nosso sistema bancário”.

Quanto à evolução do setor, mostrou-se otimista: “Começámos com uma área cheia de vermelhos e vamos passando para laranja. Neste relatório mais recente já se veem algumas cores mais positivas”, referindo-se à incorporação do risco climático pelos bancos.

António Baldaque Silva partilhou a experiência do Center for Sustainable Finance no trabalho com PME. “Desde o início do ano, já fizemos formação a mais de 500 PME”, revelou, destacando a boa receção ao relatório voluntário de sustentabilidade. “Tem sido interessante ver que elas pegam nisso como um instrumento de trabalho, quase como uma maneira mais estratégica de olhar para o problema e para as oportunidades”, concluiu.

Risco climático e o setor financeiro

“O que vai acontecer já está a acontecer”, afirmou Nuno Cordeiro, partner da PwC, citando a economista Sylvia Porter para ilustrar o estado atual do setor financeiro, durante o painel Gestão do Risco Climático nas Instituições Financeiras”, moderado por Sónia Santos Dias, diretora do Jornal PT Green. Nuno Cordeiro traçou a evolução dos últimos cinco a seis anos: “Em 2018, 2019, 2020, vieram as primeiras obrigações muito organizacionais. A seguir veio a vaga das avaliações de materialidade, perceber qual é o nível de exposição que temos a este tipo de dinâmicas”.

O especialista sublinhou uma conclusão fundamental: “Não estamos a falar de novos riscos. Falamos essencialmente de risco de crédito e de risco de mercado. Não falamos de riscos climáticos”. O desafio, segundo Nuno Cordeiro, está em “adotar uma visão cada vez mais prospetiva. Um modelo de negócio pode ser sustentável hoje, mas se meter necessidades de investimento adicionais, se meter Opex adicional porque está num setor que enfrenta choques energéticos, isso pode mudar a perspetiva sobre a viabilidade financeira”.

Nuno Cordeiro ilustrou como esta análise já está integrada nas operações diárias: “Quando uma instituição recolhe os dados climáticos, o tema não é recolher os dados, o tema é o que vamos fazer com eles. Quando leva uma proposta para o Comité de Crédito com análise de viabilidade financeira, e por causa dos riscos climáticos alguém exigiu à empresa um plano de investimento que aumenta o nível de endividamento, o Comité vai ter que ter uma opinião sobre a viabilidade daquela operação”.

Pedro Carvalho, Susana Lagarto, Nuno Cordeiro e Sónia Santos Dias | Foto: Jornal PT Green

O partner da PwC alertou ainda para um desafio estratégico: “Quando tentamos posicionar-nos como grande agente de financiamento da transição, começamos a perceber que não temos as condições de apoiar esses projetos. Há outros mercados e segmentos que estão a começar a competir, como o private credit nos Estados Unidos, ou bancos promocionais com outras condições técnicas e outro apetite pelo risco”.

BEI: 50% do financiamento em projetos verdes

Susana Lagarto, Principal Advisor (Energy) do Banco Europeu de Investimento (BEI), destacou o papel pioneiro da instituição: “O BEI é o Banco do Clima da União Europeia desde há cinco anos. Fomos pioneiros em 2007 a emitir a primeira obrigação de ação climática e, desde aí, nestes 18 anos, já emitimos mais de 100 mil milhões de euros em obrigações verdes, em 23 moedas diferentes”.

Lagarto revelou números impressionantes: “Desde 2020, comprometemo-nos a financiar no mínimo 50% do nosso portfólio anual em investimentos verdes. Em 2024 já ultrapassámos, fizemos 57%. No ano passado financiámos mais de 50 mil milhões de euros em financiamento verde, que se traduzem em projetos de mais de 200 mil milhões de euros só num ano para a transição energética na União Europeia”.

Quanto à análise de risco, a responsável explicou o processo: “Com a geolocalização do projeto, fazemos uma avaliação de quais serão os riscos mais prováveis. Riscos de inundações, de incêndios, de tempestades, de seca. Se estamos a investir numa central hídrica, a probabilidade de a pluviosidade diminuir naquela região é importante para a viabilidade do projeto”. Em Portugal, o BEI financia projetos que ajudam a mitigar o risco de incêndios, “como empresas ligadas à produção de energia a partir de biomassa, para recolher resíduos florestais”.

Pedro Carvalho, CEO da Generali Tranquilidade, apresentou uma visão preocupante sobre o impacto dos riscos climáticos no setor segurador. “Por um lado, é uma oportunidade porque os riscos estão a aumentar. Por outro, é uma forte ameaça porque há uma série de riscos, ativos, pessoas e bens que estão a ficar completamente fora de qualquer possibilidade de serem cobertos em termos de seguro”.

“Já está a acontecer algumas zonas agrícolas de Portugal em que já não se consegue fazer seguros de colheitas. Sempre foi difícil, havia alguma subsidiação do Estado, mas com as alterações climáticas está a ficar impossível para muito mais culturas”, revelou Pedro Carvalho.

Alertou para outro desafio global da Inteligência Artificial devido às necessidades energéticas. “A introdução da inteligência artificial implica que os investimentos anunciados implicam um aumento brutal do consumo de energia e de emissões de CO2. Estamos a falar de 20, 30% de aumento. Os cenários preveem que vamos precisar de quatro a cinco vezes mais energia do que a consumida hoje no mundo. Não há vento e sol suficiente que vá poder alimentar isto”, disse Pedro Carvalho.

O CEO da Tranquilidade criticou ainda a falta de proteção em Portugal: “Temos um risco sísmico sobretudo em Lisboa e não temos um fundo para catástrofe. A maior parte dos países europeus tem, e com menor risco sísmico. A maior parte das infraestruturas físicas e públicas estão desprotegidas. Se acontecer alguma coisa, vamos ter que pedir ajuda”.

Os caminhos distintos, mas convergentes para o Green Finance

O terceiro painel da conferência sobre finanças sustentáveis mostrou como diferentes setores desde a energia ao capital de risco, passando pela indústria cimenteira e os investidores institucionais enfrentam a crescente pressão para integrar critérios ESG, gerar impacto e assegurar viabilidade financeira.

Cristina Casalinho, administradora da Fundação Gulbenkian, foi direta ao colocar a sustentabilidade no centro da análise de longo prazo. “Não há empresa sustentável que não seja viável financeiramente. As duas coisas têm de estar alinhadas”. Mas a sustentabilidade, sublinhou, obriga a olhar para riscos antes ignorados. “Se uma fábrica estiver numa zona de cheias, isso tem de entrar no modelo de cash flow. São riscos que sempre existiram, mas que eram negligenciados.”

Explicou como a Fundação Gulbenkian integrou a visão ESG em toda a carteira, tanto na gestão passiva, em que “passámos do MSCI World para o MSCI World ESG e Universal”, como na gestão ativa, onde o escrutínio dos gestores é rigoroso: “Monitorizamos desde a pegada carbónica à idade média dos colaboradores, diversidade de género ou contingências laborais”. Descreveu também o braço de impacto da Fundação, com investimentos em reflorestação, economia azul e startups de impacto: “A nossa lógica é escrutínio, reporte e monitorização”.

João Gouveia Carvalho, André de Almeida Santos, Carlos Correia de Barros e Cristina Casalinho | Foto: Jornal PT Green

Se a Fundação Gulbenkian representa o investidor institucional com horizonte de décadas, André de Almeida Santos, partner da Indico Capital Partners, trouxe ao debate a perspetiva mais crítica de quem financia inovação tecnológica. “Sou particularmente dissonante em relação ao ESG. Há uma ambição tecnocrática que pede às PME e startups um nível de reporte impossível de cumprir”, afirmou.

Com experiência em fundos de impacto e venture capital tecnológico, deixou o alerta: “As startups querem causar impacto até certo ponto, ou seja, até ao ponto da sobrevivência. Muitas não têm sequer capacidade para preencher métricas básicas de ESG”. André de Almeida Santos salientou o risco de desajuste entre ideal regulatório e realidade empresarial, porque “se fôssemos escrutinar totalmente as cadeias de valor do setor alimentar, parávamos todos de comer.” Ainda assim, reconhece que o capital de impacto não desapareceu: “O cleantech continua forte. O que mudam são as modas, hoje é a IA, amanhã será outra coisa. O que fica são soluções boas.”

Do lado das grandes empresas, João Gouveia Carvalho, Head of Corporate Finance da EDP Global, considerou que para o grupo elétrico português, “o green finance deixou de ser um KPI. É parte integrante da estratégia. Virtualmente 100% do nosso investimento e do nosso funding é verde.” Recordou que a primeira emissão verde da EDP, e que hoje mais de 80% do stock de financiamento já é verde. “Vamos no nosso quarto Green Framework. Já incorporamos as melhores práticas, os Sustainable Linked Loans e as novas obrigações verdes alinhadas com o PSAB (Plano Estratégico de Ações de Bio-segurança)”. Para João Gouveia Carvalho, o mercado entrou numa fase de consolidação, explicando que “as ideias iniciais foram testadas, algumas morreram. Hoje há standards. Isso traz clareza e confiança.”

Por fim, Carlos Correia de Barros, CFO da Secil, trouxe a realidade da indústria grande emissora de CO₂. “Produzir cimento é absolutamente necessário para o desenvolvimento humano. Mas representa 6% das emissões globais de CO₂.”
Procurou evidenciar o dilema entre cessar a atividade e fazer a transição. “Se parássemos de produzir cimento, recuávamos um século. A solução é uma transição: produzir, mas produzir cada vez com menos emissões”, assinalou Carlos Correia de Barros. A indústria tem metas claras até 2050 e marcos ambiciosos já em 2030. Mas o caminho não é simples. “Estamos a construir o equivalente a uma cidade de Nova Iorque por mês. A procura não vai abrandar. A descarbonização tem de acompanhar este ritmo gigante.”

 

 

 

 

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