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Guerra no Médio Oriente está a provocar danos ambientais com efeitos que podem durar décadas
Poluição tóxica do ar, solo e mar ameaça milhões e pode persistir durante décadas, alerta especialista da ZERO e dados do Observatório de Conflitos e Ambiente. Só nos primeiros 14 dias, o conflito gerou 5 milhões de toneladas de emissões.
30 Mar 2026 - 07:45
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Teerão, Irão | Foto: Unsplash
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Teerão, Irão | Foto: Unsplash
As colunas de fumo negro que se elevam sobre Teerão tornaram-se um dos símbolos mais visíveis da guerra em curso no Médio Oriente. Mas o que se vê é apenas uma parte do problema. Por detrás das explosões e incêndios, acumulam-se riscos ambientais com efeitos potencialmente prolongados. Só nos primeiros 14 dias, o conflito gerou 5 milhões de toneladas de emissões de gases com efeito de estufa, segundo uma análise enviada ao jornal The Guardian pelo Climate and Community Institute, a 21 de março.
A mesma avaliação deu conta que a guerra está também a esgotar o orçamento global de carbono mais rapidamente do que 84 países juntos. Desde o início da chamada “Operação Fúria Épica”, que juntou Estados Unidos e Israel para atacar o Irão, o Observatório de Conflitos e Ambiente identificou mais de 300 incidentes com relevância ambiental, dos quais 232 já foram avaliados quanto ao risco. A maioria está ligada a alvos militares, mas, à medida que o conflito procede, são cada vez mais as infraestruturas civis e de uso duplo que estão na linha de fogo.
“Há realmente um risco ambiental e para a saúde pública”, alerta o presidente da ZERO- Associação Sistema Terrestre Sustentável, Francisco Ferreira, ao Jornal PT Green. O ambientalista refere que, apesar de não haver, até ao momento, sinais de aumento de radiação, como sublinha a Agência Internacional de Energia Atómica, os perigos são de outra natureza e não menos graves.
O problema está na composição do fumo libertado pelos ataques. “Estamos a falar de um fumo tóxico, composto por partículas, gases irritantes, compostos orgânicos perigosos”, explica o representante da associação. Entre os contaminantes mais preocupantes estão metais pesados, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e benzeno, substâncias associadas a efeitos cancerígenos.
As partículas finas e ultrafinas destacam-se como uma ameaça imediata. “São aquelas que têm maior impacto na saúde”, sublinha o especialista, referindo que os efeitos se fazem sentir tanto no curto prazo, durante a exposição, como no longo prazo, à medida que os poluentes se acumulam no organismo ou no ambiente.
Exposição agravada devido à geografia
Em Teerão, onde vivem cerca de dez milhões de pessoas, a situação é agravada pela sua geografia. Rodeada por montanhas, a cidade retém poluentes na atmosfera, dificultando a sua dispersão e tornando-a uma das cidades mais poluídas do mundo. Por vezes, quando os níveis de poluentes no ar atingem o pico, normalmente durante o verão, a escolas fecham e é recomendado à população que evite sair de casa. Acresce que, dos 395,8 terawatts-hora (TWh) de energia produzida no Irão em 2024, apenas 21,1 TWh tinha origem hidroelétrica ou renovável, segundo a última “Análise Estatística da Energia Mundial”, publicada pelo Energy Institute.
Nos últimos dias, relatos de “chuva negra”, isto é, precipitação carregada de compostos tóxicos provenientes de incêndios em instalações petrolíferas, ilustram a gravidade da atual exposição.
“Foi um cenário extremo”, descreve o ambientalista. “A carga de poluição foi extremamente elevada e atingiu muito a população”. Episódios semelhantes foram registados no passado, como durante os incêndios em petroleiros no Kuwait, em 1991, mas a escala atual levanta novas preocupações.
Contaminação do solo e da água pode persistir durante décadas
Os impactos não se limitam ao ar. Muitos dos contaminantes libertados permanecem no solo e na água durante anos ou décadas. Por exemplo: “Se tivermos metais pesados a infiltrar-se nos aquíferos, falamos de décadas”, sinaliza Francisco Ferreira. Mesmo resíduos de explosivos, como TNT, nitroglicerina ou percloratos, podem transformar as áreas atingidas em focos persistentes de contaminação.
No mar, os riscos são igualmente elevados. No Golfo Pérsico, pelo menos uma dúzia de navios comerciais foi atingida, aumentando o perigo de derrames. “Há um grande desastre ambiental iminente”, avisa o presidente da ZERO. Sendo um sistema semifechado, o Golfo tem uma capacidade limitada de dispersão de poluentes, o que amplifica os danos. Francisco Ferreira explica que “isso vai aumentar muito a concentração e o risco de danos nas zonas mais próximas, inclusive com interferência, por exemplo, em estações de dessalinização, para além de alguns ecossistemas que ali também existem”.
O impacto já ultrapassa a região. Um derrame associado a um incidente militar ao largo do Sri Lanka obrigou a operações de limpeza costeira, sinalizando a natureza transfronteiriça desta poluição.
Segundo o Observatório de Conflitos e Ambiente, os ataques a infraestruturas energéticas, incluindo refinarias, portos e instalações de armazenamento, estão a tornar-se mais frequentes. Estes locais concentram grandes volumes de substâncias perigosas e, quando atingidos, libertam uma mistura complexa de poluentes atmosféricos, incluindo dióxido de enxofre, óxidos de azoto e partículas finas.
Além do impacto imediato na saúde pública, há efeitos indiretos ainda difíceis de quantificar, como a contaminação de cadeias alimentares, degradação de ecossistemas e aumento das emissões de gases com efeito de estufa.
“Não é um cenário sem precedentes”, reconhece o ambientalista, mas a dimensão “é cada vez maior, quer no que diz respeito à poluição marinha, quer principalmente em relação à poluição atmosférica”. À medida que o conflito se prolonga, a guerra deixa de ser apenas um confronto militar. Torna-se também uma fonte contínua de degradação ambiental, com consequências que poderão persistir muito depois de cessarem os combates.
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