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Gás, guerra e geopolítica: a Europa continua à procura da sua autonomia energética
UE já rompeu laços com Moscovo, mas a escalada militar no Médio Oriente e a crescente dependência dos EUA mostram que a segurança energética europeia continua vulnerável a forças externas.
09 Mar 2026 - 07:29
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A guerra na Ucrânia desencadeou uma transformação estrutural no sistema energético da União Europeia (UE), alterando uma relação que durante décadas foi considerada estável para a economia europeia. Antes de 2022, cerca de 45% do gás importado para a Europa vinha da Rússia. Em poucos anos, essa dependência caiu para cerca de 13%, resultado de sanções, cortes de fornecimento e da procura acelerada por fornecedores alternativos.
A mudança foi rápida, mas está longe de ser simples. Enquanto os governos europeus procuram cortar definitivamente os laços energéticos com Moscovo, novas vulnerabilidades começam a emergir – desde a crescente dependência do gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, à concentração global de matérias-primas críticas necessárias para a transição energética por parte da China.
O debate tornou-se ainda mais urgente nos últimos dias, à medida que a escalada militar no Médio Oriente, iniciada por ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, reacendeu o medo sobre a estabilidade dos mercados energéticos globais. O receio de perturbações no transporte marítimo de petróleo e gás no estreito de Ormuz ou de novas tensões com grandes produtores reforçou, em Bruxelas, a perceção de que a segurança energética europeia continua profundamente ligada à geopolítica.
“Hoje, o sistema energético europeu é mais limpo, muito mais diversificado e muito mais estável do que há alguns anos. No entanto, os desenvolvimentos no Médio Oriente lembram-nos mais uma vez os riscos de continuarmos a depender excessivamente dos combustíveis fósseis”, admitia a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na passada sexta-feira.
Para Carla Patrício Fernandes, especialista em Relações Internacionais e Estudos Políticos, no entanto, quando se fala da dependência energética da União Europeia face à Rússia, “é essencial perceber que nunca se tratou de uma relação de dependência unilateral”. A especialista descreve ao Jornal PT Green que esta relação era, historicamente, uma interdependência estratégica: “A Europa precisava do gás russo para assegurar eletricidade, aquecimento e competitividade industrial, enquanto a Rússia dependia do mercado europeu, um dos maiores em termos de volume e receita, para a estabilidade da sua economia baseada em hidrocarbonetos”.
Esse equilíbrio começou a desfazer-se antes da invasão russa à Ucrânia, com a crise energética de 2021, e desapareceu completamente após o início da guerra. Para Carla Patrício Fernandes, “a energia passou a ser utilizada como instrumento de pressão política ou arma política, com cortes de fornecimento perante reservas baixas de energia e ameaças às infraestruturas de trânsito para a Europa”. Por consequência, “a vulnerabilidade europeia que já era percecionada, tornou-se evidente”.
A resposta europeia foi inicialmente pragmática: “Reorganizar fluxos de importação, procurar fornecedores alternativos e assegurar o abastecimento num inverno crítico”, explica a especialista que é também docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova. Mas esta realidade não se limita aos dias de hoje. Já “desde as crises petrolíferas da década de 1970, a Europa procura reduzir vulnerabilidades energéticas, diversificar fornecedores e desenvolver fontes endógenas”.
Segundo a especialista, o choque de 2022 funcionou, sobretudo, como catalisador de políticas já em curso, que procuram “menos dependência de combustíveis fósseis importados, maior autonomia estratégica e maior resiliência a choques externos”.
O novo peso do gás dos Estados Unidos
A redução das importações russas foi compensada sobretudo pelo aumento de aquisições de GNL aos Estados Unidos. Em 2025, o país norte-americano representava cerca de 58% do GNL importado pela União Europeia, tornando-se o principal fornecedor deste combustível.
A nova concentração levanta a dúvida se a Europa não estará apenas a trocar uma dependência por outra. “Se analisarmos apenas os fluxos físicos de energia, o risco existe. Mas é preciso contextualizar”, esclarece Carla Patrício Fernandes. “Os Estados Unidos são parceiros estáveis, com regime jurídico previsível e forte alinhamento político com a UE. Não há o mesmo risco de instrumentalização geopolítica que existia com a Rússia”.
Ainda assim, a docente alerta para os riscos de concentração. “Se a tendência continuar sem diversificação adicional, os EUA poderão fornecer 75-80% do GNL europeu até 2030”. Face a essa possibilidade, reitera que “a estratégia europeia não pode ser apenas substituir Moscovo por Washington”.
Noruega e Canadá destacam-se entre possíveis parceiros
Entre os novos pilares da diversificação energética europeia, surgem alguns parceiros que se distinguem pela sua consistência política. A Noruega “destaca-se como parceiro de referência”, considera a especialista, por já fornecer “grande parte” do gás europeu, combinar contratos de longo prazo com proximidade geográfica e possuir “estabilidade institucional”. A seu ver, o Canadá é outra alternativa com forte potencial, por ser “previsível, com capacidade de exportação crescente e alinhamento geopolítico com a UE, oferece alternativas sólidas, sobretudo em GNL”.
Existem ainda outros atores que desempenham papéis diferentes no sistema energético internacional. “O Qatar é um grande exportador global, mas opera num contexto regional mais volátil, o que exige cuidado e integração estratégica num portefólio diversificado”.
Após a primeira ofensiva no Irão, a instalação de Ras Laffan, no Qatar, foi alvo de um ataque pelo Irão que forçou a paragem da produção. Da empresa QatarEnergy, esta é a maior fábrica de GNL do mundo, tendo produzido em 2025 cerca de 112 mil milhões de metros cúbicos de GNL, além de 300 mil barris por dia de gás de petróleo liquefeito e 180 mil barris diários de condensados, segundo dados da Agência Internacional de Energia.
Já no caso da China, a importância está sobretudo nas cadeias industriais, porque, “embora não seja fornecedora direta de energia em larga escala, é um ator global relevante, especialmente no contexto da transição energética e das matérias-primas críticas”, constata a docente. Pequim tem vindo a acelerar a sua capacidade de energia solar e eólica, com um aumento de anual respetivo de 41,9% e 22,4%, segundo o Comité Central do país. Este ano a solar deve mesmo ultrapassar o carvão pela primeira vez, ao marcar um ponto de inversão histórico na matriz energética chinesa.
Em janeiro deste ano, a UE assinou também um acordo de livre comércio histórico com a Índia, anunciando um reforço da cooperação em energia limpa e resiliência energética, no quadro da Parceria Índia–UE para a Energia Limpa e o Clima. As duas partes divulgaram que será criada uma ‘taskforce’ sobre hidrogénio verde e uma Cimeira Empresarial Índia–UE sobre Energia Eólica, a realizar já em 2026. Além disso, o comissário europeu para a Energia, Dan Jørgensen, tem feito visitas a países como o Azerbaijão e a Argélia com o propósito de reforçar parcerias energéticas já estabelecidas.
Segurança energética e clima: um equilíbrio difícil
A crise energética também trouxe para o centro do debate a questão de garantir segurança de abastecimento sem comprometer as metas climáticas europeias. Carla Patrício Fernandes considera que “garantir segurança de abastecimento e avançar na neutralidade carbónica é um desafio simultaneamente técnico, económico e político”.
O aumento das importações de GNL foi essencial para estabilizar o sistema energético europeu após 2022, “evitando interrupções graves”. Mas a docente relembra que este gás “é um combustível fóssil e não contribui diretamente para a descarbonização”. Na sua opinião, a solução passa por gerir a transição com tempo, inovação tecnológica e investimento. “A tensão entre estes dois vetores não deve ser vista como um dilema de escolha absoluta, mas como um desafio de gestão temporal e estratégica”, remata.
A expansão de energias renováveis é considerada uma resposta central para reduzir a vulnerabilidade externa da Europa. Carla Patrício Fernandes justifica que “a expansão de solar, eólica e armazenamento é a forma mais eficaz de reduzir vulnerabilidades externas”. A seu ver, produzir energia no mercado interno “significa menos exposição a choques geopolíticos e maior autonomia estratégica”.
Contudo, essa transformação traz novos desafios ligados às matérias-primas críticas (como lítio, cobalto, níquel ou terras raras) essenciais para a produção de baterias, hidrogénio verde e turbinas eólicas. “A transição energética não elimina todas as vulnerabilidades; apenas as transforma”, evidencia a especialista.
A política energética europeia enfrenta ainda um desafio da grande diversidade entre Estados-membros. Em 2023, a dependência energética média da UE rondava 58%, mas com diferenças significativas entre governos. Por essa razão, expõe a docente, a implementação de políticas comuns torna-se “complexa”, uma vez que “medidas idênticas têm impactos muito diferentes conforme o país”.
Segundo a investigadora, a resposta europeia tem-se focado em reforçar mecanismos de cooperação e solidariedade. Carla Patrício Fernandes defende que “a coerência da política energética passa por reconhecer estas diferenças e conciliar a diversidade estrutural com objetivos comuns de segurança, sustentabilidade e autonomia estratégica”.
Energia ainda tem desafios pela frente
Apesar da rápida redução das importações russas, os riscos permanecem. “Nos próximos cinco a dez anos, a segurança energética europeia continua a enfrentar desafios complexos”, alerta a especialista ao Jornal PT Green. Entre as principais preocupações estão a volatilidade dos preços da energia, a dependência de fornecedores externos e as novas vulnerabilidades ligadas às matérias-primas críticas.
Para avaliar se a estratégia europeia está a resultar, a docente aponta vários indicadores. “É fundamental observar a quota de renováveis no consumo total, o grau de interligação e flexibilidade das redes entre Estados-membros, a diversificação de fornecedores de gás e matérias-primas estratégicas e a estabilidade dos preços para consumidores e empresas”.
No fundo, resume, “o desafio europeu continua a ser equilibrar segurança energética, sustentabilidade ambiental e autonomia estratégica, construindo um sistema resiliente capaz de resistir a crises externas sem comprometer a trajetória de transição energética que é central para o futuro do continente”.
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