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Investir em Natureza é rentável? O que os municípios precisam de saber
Para um autarca, cada euro investido em restauro não é despesa ambiental, é investimento produtivo com retorno em emprego e fixação de população. Ou seja, apostar em obras públicas que rendem mais do que custam. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI
27 Mar 2026 - 07:36
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Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence
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Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence
Raramente se quantifica o custo de não investir na natureza, e é por isso que os territórios continuam a gastar centenas de milhões em reparação de danos que poderiam ter sido, pelo menos parcialmente, evitados com uma fração desse investimento aplicada a infraestrutura ecológica. A Economia Natural propõe que se faça, finalmente, essa aritmética, e o resultado é inequívoco.
Rendimentos crescentes: o que distingue a Natureza do betão
Quando um município investe em infraestrutura convencional, um dique, um muro de contenção, um sistema de drenagem pluvial, obtém exatamente uma função. O dique contém água. O muro contém terra. E a partir do momento em que são construídos, estes ativos degradam-se: exigem manutenção crescente, perdem eficiência com o tempo e, no final da vida útil, precisam de ser substituídos. Em termos económicos, operam em regime de rendimentos decrescentes: cada euro adicional de manutenção compra menos proteção do que o anterior.
A infraestrutura ecológica funciona ao contrário. Uma planície de inundação restaurada, uma galeria ripícola reconstituída ou uma paisagem em mosaico agrossilvopastoril não prestam apenas um serviço, prestam muitos, simultaneamente, e tendem a melhorar com o tempo. A planície de inundação retém caudal de pico, mas também recarrega aquíferos, sequestra carbono, suporta biodiversidade, purifica água e alimenta cadeias de valor agrícola. A paisagem em mosaico funciona como corta-fogo natural, mas também produz carne, cortiça, mel, serviços de polinização e emprego local. Cada função adicional emerge da complexidade do sistema sem exigir investimento proporcional. Isto é a lógica dos rendimentos crescentes, e é o core da Economia Natural: a Natureza, quando funcional, produz mais valor à medida que amadurece.
O efeito Kristin: quando o excecional se torna recorrente
Na madrugada de 28 de janeiro de 2026, a depressão Kristin atingiu o centro de Portugal com a força de um ciclone-bomba e um fenómeno raro chamado sting jet. Mas a Kristin não é um acidente isolado. É o episódio mais recente de um padrão: Gong (2013), Hércules (2013-2014), Ophelia (2017), Leslie (2018). E em 2026, não foi apenas a Kristin: foi um comboio inteiro, Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta, que varreu o país em poucos dias.
A implicação para os municípios é operacional: eventos como estes não são exceções que se gerem com fundos de emergência, são a nova normalidade climática e exigem infraestrutura territorial permanente. Nenhum dique para um fenómeno destes. Mas uma paisagem ecologicamente funcional, galerias ripícolas que ancoram margens, zonas húmidas que absorvem caudal, florestas diversificadas que resistem ao vento melhor do que plantações simplificadas, amortece a componente hídrica, reduz a erosão, acelera a recuperação e, sobretudo, fá-lo em regime de rendimentos crescentes: quanto mais madura, mais eficaz a cada evento seguinte.
Cheias e incêndios: duas faces da mesma fatura
As tempestades de 2026 custaram a Portugal entre 5 e 6 mil milhões de euros, dezoito vidas e mais de 140.000 sinistros segurados. Semanas antes, o TJUE condenara o país em 10 milhões de euros por não proteger a Rede Natura 2000. Com a metodologia europeia de NbS, esses 10 milhões poderiam financiar centenas de hectares de planícies de inundação, com rácios entre prevenir e reparar entre 1:13 e 1:25.
Do lado dos incêndios, a equação é igualmente desequilibrada. A Quercus e a Acréscimo calcularam que o custo anual de uma prevenção florestal adequada seria de 165 milhões de euros, muito inferior aos mil milhões anuais de prejuízos estimados.
A alternativa é a paisagem em mosaico: conversão de plantações industriais em sistemas mistos agrossilvopastoris que intercalam floresta autóctone (sobreiros, carvalhos, medronheiros, freixos, etc.), pastagem extensiva e culturas diversificadas. Reduz-se a carga combustível, criam-se descontinuidades e gera-se atividade económica.
A Portaria n.o 79/2026 avançou com um programa de pastoreio extensivo financiado pelo Fundo Ambiental, mas o problema estrutural persiste: faltam pastores e, sem renovação geracional, o programa apoia quem resiste sem resolver o vazio onde a atividade desapareceu. Talvez a solução passe por criar novas profissões, como ‘gestores de ecossistemas’.
É aqui que a lógica dos rendimentos crescentes se torna decisiva: se o investimento em paisagem mosaico gerar simultaneamente prevenção de incêndios, proteção contra cheias, produção agropecuária, emprego local qualificado e serviços dos ecossistemas, a equação financeira muda e o argumento para fixar pessoas no território torna-se quantificável e o efeito, inevitável.
A economia do restauro: empregos que ficam no território
Há uma dimensão do investimento em Natureza que raramente entra no debate municipal: a criação de emprego. A investigação de Todd BenDor demonstrou que o restauro ecológico gera até 33 postos de trabalho por cada milhão de dólares investido, contra 5,2 na indústria petrolífera, com um multiplicador económico entre 1,6 e 2,6. A OIT, o PNUA e a UICN estimam que o investimento em NbS poderia gerar até 32 milhões de empregos até 2030.
Em Portugal, a oportunidade é concreta: planeamento de projetos de restauro, reconversão paisagística, viveiros de espécies autóctones, monitorização ecológica e turismo de Natureza. Para um autarca, cada euro investido em restauro não é despesa ambiental: é investimento produtivo com retorno em emprego e fixação de população. Ou seja, apostar em obras públicas que rendem mais do que custam.
A janela que se fecha: o PNRN
A Lei Europeia do Restauro da Natureza obriga Portugal a apresentar o Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) até setembro de 2026. O Grupo de Trabalho coordenado pelo ICNF concluiu a fase de diagnóstico e entrou na fase de medidas. Portugal distingue-se como o único Estado-Membro que enquadra o PNRN como estratégia nacional alargada. Mas a ambição precisa de capilaridade territorial, e essa depende dos municípios. Os que chegarem ao processo de consulta pública com inventários de capital natural e análises de custo-eficácia de NbS terão vantagem na afetação de fundos e no argumento político após uma catástrofe.
Rendimentos crescentes para territórios com futuro
O Pinhal de Leiria, plantado por ordem régia no século XIII, foi uma NbS avant la lettre e gerou uma economia florestal durante séculos. A lição é simples: investir em Natureza é rentável quando ativa múltiplas funções dos ecossistemas em simultâneo.
A resposta à pergunta do título é sim. Mas com uma condição: que os municípios tratem o capital natural como o ativo mais produtivo e mais subvalorizado do balanço territorial de Portugal. Os que o fizerem estarão a construir economias locais mais resilientes e, sobretudo, com futuro.
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