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Luz, câmara, inação.

Não apostamos numa estratégia de eletrificação que atravesse transportes, edifícios e indústria. A maioria continua a legislar setor a setor, de forma fragmentada e desconectada. Por Alice Khouri, PhD em Direito e Economia, Head of Legal da Helexia Portugal

09 Out 2026 - 07:00

8 min leitura

Alice Khouri PhD em Direito e Economia Head of Legal da Helexia Portugal

Portrait of a woman with blonde hair in a blue blazer, outdoors, inside a circular frame with a green border.

Alice Khouri PhD em Direito e Economia Head of Legal da Helexia Portugal

Nos cinemas, Iñárritu brinda-nos com uma sátira genial na qual Digger Rockwell é o homem mais poderoso do mundo e encarna um estereótipo clássico: magnata do petróleo e amigo íntimo de decisores políticos mundiais, provoca uma catástrofe ecológica sem precedentes ao ignorar os alertas dos técnicos mais capazes do mundo. De forma muito inteligente, o protagonista no seu monólogo faz o clássico “greenshifting” e passa o resto do filme a tentar convencer-nos de que a culpa é da própria sociedade, que escolhe um estilo de vida assente e dependente da exploração do petróleo.

O que mais incomoda em Digger, talvez, não é a ganância. É o desprezo assumido pelo conhecimento. Os cientistas avisam, medem, explicam. Suas conclusões, contudo, são ouvidas como ruído de fundo.

Saí da sala a pensar que a sátira chegava tarde pois, durante décadas, ignorar a ciência climática era até politicamente barato (custos eram difusos, distantes e futuros), e hoje já não é.

Inspirada pela sétima arte, vamos a uma análise com um corte epistemológico na energia. A Agência Internacional de Energia publicou recentemente um relatório especial sobre eletrificação, preparado a pedido da presidência da COP31, e apresenta um diagnóstico claro: a procura de eletricidade cresce quase duas vezes mais depressa do que a procura total de energia, e a eletricidade já é a principal fonte de energia de atividades que geram quase metade do PIB mundial. Estamos, portanto, na Era da Eletricidade.

Ao contrário do que o personagem tenta convencer (no filme e na vida real) a sociedade não depende do petróleo. Depende de mobilidade, de calor e de frio, de indústria e de dados. O petróleo e o gás são “apenas” a forma como, até agora, entregámos esses serviços, a um custo que hoje já se revela ineficiente: motores de combustão e caldeiras perdem grande parte da energia em calor. Um carro elétrico pode ser cerca de três vezes mais eficiente do que um carro a combustão. Uma bomba de calor é três a cinco vezes mais eficiente do que uma caldeira a gás. Por isso, a eletricidade representa menos de um quarto do consumo final de energia, mas já entrega quase 40% dos serviços energéticos que usamos.

Importante esclarecer que a eletrificação descarboniza por duas vias, sendo uma imediata (retira a combustão do ponto de consumo) e outra cumulativa. Em termos imediatos, a queima de combustíveis fósseis nos transportes, nos edifícios e na indústria emite cerca de 18,5 mil milhões de toneladas de CO₂ por ano, e essas emissões subiram 5% desde 2015. No cenário de alta eletrificação da IEA, caem 40% até 2035. A cada nova central solar ou eólica torna mais limpos, de uma só vez, todos os carros, bombas de calor e fábricas que estejam ligados à rede. Em 2025, 42% da eletricidade mundial já vinha de fontes de baixas emissões, contra 33% em 2015. Um carro a gasóleo emite o mesmo por quilómetro durante toda a vida útil. Um carro elétrico fica mais limpo, contudo, à medida que a rede se descarboniza.

A escolha que Digger nos apresenta, entre o nosso estilo de vida e o clima, é falaciosa. A escolha real é entre continuar a entregar os mesmos serviços com combustão ou com eletricidade renovável. E essa escolha já não é apenas ética ou ambiental. É económica.

Com os custos de 2025, já seria economicamente rentável eletrificar cerca de 33% do consumo final de energia no mundo. Hoje estamos em 23%. Com as políticas atuais, chegaremos a cerca de 30% em 2035.

Leia-se devagar: daqui a quase dez anos, as políticas em vigor não nos levam sequer ao que a economia já justifica em números hoje. E o fosso tende a alargar-se, porque a descida contínua dos custos tecnológicos vai aumentar aquilo que compensa eletrificar.

Esse fosso tem uma tradução física. Mede-se em barris. Com as políticas atuais, os veículos elétricos evitarão cerca de 10 milhões de barris de petróleo por dia em 2035, o equivalente, segundo a IEA, a toda a produção da Rússia. No cenário que leva a eletricidade a 35% do consumo, evitariam 18 milhões. A diferença, cerca de 8 milhões de barris por dia, é petróleo que continuará a ser extraído apenas porque a política não acompanha o que já se sabe.

Os três pontos percentuais, portanto, entre o economicamente rentável e a realidade, não se perdem por acaso e estão escondidos em decisões regulatórias concretas, que insistem em não enfrentar três grandes questões.

A primeira é fiscal. Em algumas economias avançadas, os impostos chegam a 30% do preço da eletricidade paga pelas famílias. A União Europeia destaca-se pela tributação elevada da eletricidade doméstica, enquanto vários países tributam menos o gás e o petróleo, ou até os subsidiam. Segundo a IEA, reduzir o IVA e os impostos especiais sobre a eletricidade poderia baixar o preço doméstico em cerca de 20% e o industrial em cerca de 10% até 2035. Toda a vantagem de eficiência da eletrificação desaparece quando a fiscalidade favorece o gás.

A segunda são as redes. Pode-se assumir que a transição tem três peças: produzir energia limpa, consumi-la e transportá-la. As duas primeiras são relativamente rápidas. Um parque solar constrói-se em 1 a 5 anos, um posto de carregamento em menos de 1 ano e meio. Uma linha de alta tensão demora entre 5 e 13 anos a planear, licenciar e construir. Faltam nove anos para 2035. A rede de que vamos precisar nessa data já devia estar a ser planeada hoje.

O investimento global em redes subiu de 295 mil milhões de dólares em 2020 para 450 mil milhões em 2025. Para chegar aos 35%, terá de quase duplicar até 2035. Isso não depende só de engenheiros. As redes são monopólios regulados, e o operador investe aquilo que o regulador aceita remunerar. Investir antes da procura exige que alguém assuma o risco de construir antes de haver pedidos de ligação. Exige regras claras sobre a recuperação desses custos e estabilidade ao longo dos períodos regulatórios.

A terceira é o corte de produção renovável, o curtailment. É o sintoma mais visível de um sistema que produz mais energia limpa do que consegue transportar ou armazenar. Algum corte faz parte de um sistema eficiente, mas ligações flexíveis à rede, em que o produtor aceita cortes limitados em troca de uma ligação mais rápida, por exemplo, poderiam libertar interessantes GW de capacidade adicional. O mesmo vale para substituir o critério de primeiro a chegar, primeiro a ser servido (first come, first served) nas filas de ligação por critérios de maturidade dos projetos. São reformas de regras, de desenho regulatório. Mas requerem planeamento, fazer e refazer contas, tomar decisões.

O Brasil mostra o que acontece quando o problema chega antes da regra. A Lei 15.269/2025 criou uma compensação pelos cortes impostos a centrais eólicas e solares entre setembro de 2023 e novembro de 2025. Em troca, os produtores têm de renunciar às ações judiciais e arbitragens sobre o tema. O acordo, de cerca de 3,3 mil milhões de reais, compra “paz judicial” para o passado. Para os cortes posteriores, a regra continua por definir. Paga-se a fatura sem redesenhar o sistema.

É aqui que a sátira volta a acertar. Conhecer as barreiras e não as remover é a forma contemporânea de ignorar a ciência. Não apostamos numa estratégia de eletrificação que atravesse transportes, edifícios e indústria. A maioria continua a legislar setor a setor, de forma fragmentada e desconectada. É, também, uma decisão. Só não é no sentido da descarbonização efetiva que a UE elege como prioridade.

Vá ao cinema. Ria-se de Digger, que bem merece. Mas depois das pipocas, faça as contas e reflita. Trinta e três contra trinta. Oito milhões de barris por dia. Nove anos para construir redes que, na verdade, precisam de até treze. Continuamos presos no loop de uma discussão sobre se a transição compensa e se ela faz sentido ser atrasada em tempos de segurança energética em cheque pela geopolítica. Já compensa, já descarboniza e pode contribuir diretamente para o que chamamos de segurança no cenário atual, e a inação é dispendiosa a mais.

A pergunta que falta fazer é outra: por que razão não avançamos e que decisões nos impedem de o fazer.

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