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O que falta à rede elétrica para enfrentar o novo clima

Como reforçar a rede elétrica para enfrentar fenómenos extremos sem custos incomportáveis. Por Bernardo Silva, Professor na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e investigador Sénior e Responsável da Área de integração de Fontes Renováveis no Centro de Sistemas de Energia do INESC TEC.

23 Fev 2026 - 07:40

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Bernardo Silva, Professor na FEUP

Bernardo Silva, Professor na FEUP

A tempestade Kristin deixou uma evidência incontornável: o paradigma climático mudou e a nossa rede elétrica não está preparada para fenómenos extremos que, até há poucos anos, eram excecionais. Ao mesmo tempo, a eletrificação acelerada da economia aumenta a pressão sobre infraestruturas que já operam no limite. Perante este cenário, a pergunta impõe‑se: como fortalecer a rede elétrica para garantir resiliência, fiabilidade e continuidade de serviço num país cada vez mais dependente da eletricidade?

Em primeiro lugar é necessário distinguir, entre o investimento na produção de energia renovável e o investimento nas redes elétricas que asseguram a transmissão e a distribuição dessa energia. A transição energética exige ambas as dimensões: a expansão das renováveis, por um lado, e, por outro, uma rede moderna, robusta e preparada para responder a exigências crescentes de fiabilidade, resiliência e qualidade de serviço do Sistema Elétrico de Energia. Neste contexto, as fontes renováveis e, em particular, o armazenamento distribuído de energia elétrica podem desempenhar um papel adicional relevante, não apenas na redução da dependência externa e das emissões de CO₂, mas também como instrumento de apoio à operação da rede: desde a alimentação temporária de zonas afetadas por incidentes (desde que exista armazenamento local e produção de energia local) até ao contributo para a reposição de serviço após fenómenos extremos.

Importa, contudo, reconhecer que o que se verificou com a tempestade Kristin assumiu características excecionais. Tratou-se de um evento climatérico extremo, com grande dispersão geográfica, que afetou infraestruturas elétricas em múltiplos níveis de tensão — Muito Alta Tensão (MAT), Alta Tensão (AT), Média Tensão (MT) e Baixa Tensão (BT) — numa região onde estas infraestruturas são maioritariamente de tipologia aérea ao longo de extensões significativas de território. Os danos verificaram-se de forma transversal, produzindo ruturas simultâneas em vários patamares da rede e comprometendo a interligação entre segmentos que asseguram o abastecimento aos centros de consumo, e à interligação de algumas fontes renováveis. Em determinadas áreas, após o fenómeno, a reposição temporária do fornecimento só foi possível através da ligação direta de geradores aos quadros elétricos de instalações residenciais ou comerciais. A questão que se colocou — porquê não instalar geradores de maior capacidade nos postos de transformação, por via do operador da rede (e-redes)? — teve, em muitos casos, uma resposta objetiva: a magnitude dos estragos impactou também a rede de baixa tensão que liga os consumidores aos postos de transformação, tornando indispensável a reparação dessas ligações para permitir o restabelecimento a um número alargado de clientes.

Perante fenómenos desta natureza, surge inevitavelmente o debate sobre o enterramento das redes como medida de mitigação. Também aqui é essencial uma abordagem informada e diferenciada. As redes de MAT e AT são, tipicamente, estabelecidas em estrutura aérea, atendendo aos níveis de tensão elevados — em Portugal, 400 kV, 220 kV e 150 kV (MAT) e 60 kV (AT). Estas redes, são estabelecidas através de condutores aéreos nus, sendo o isolamento elétrico é assegurado por apoios de elevada altura e cadeias de isoladores. Embora existam soluções através de circuito de cabos para estes níveis de tensão, elas implicam custos muito elevados e desafios técnicos relevantes na exploração, o que limita a sua adoção em escala.

No caso das redes de MT e BT, o estabelecimento de circuitos de cabo enterrado é tecnicamente viável e amplamente utilizado, sobretudo em grandes centros urbanos. Porém, essa realidade assenta numa elevada concentração geográfica de consumos, o que contrasta com outras zonas onde o consumo pode ser igualmente significativo, mas com maior dispersão territorial — circunstância que aumenta a extensão de rede necessária e dificulta a implementação generalizada de soluções enterradas. Acresce o fator custo, sendo conhecido que as redes enterradas apresentam sobrecustos face às redes aéreas, envolvendo trabalhos de abertura e fecho de vala e reposição de pavimentos. Dada a dispersão geográfica em muitas regiões, esta opção deve ser ponderada com base em análises rigorosas de custo-benefício. Importa, ainda, considerar que o investimento em rede é, tipicamente, refletido nas tarifas, podendo traduzir-se num acréscimo relevante para os consumidores, reduzindo parte do benefício que tem vindo a ser observado no mercado grossista de energia elétrica em cenários de elevada contribuição de fontes renováveis. Um aumento do custo da eletricidade tem igualmente impacto na competitividade da indústria nacional.

É neste equilíbrio que se justifica uma solução híbrida, assente em resiliência, racionalidade económica e eficácia operacional. Após a observação de fenómenos climatéricos recentes — com especial foco na tempestade Kristin — torna-se oportuno repensar, de forma estratégica, o estabelecimento e o reforço da rede elétrica em determinadas zonas, tendo em conta a probabilidade de ocorrência de eventos adversos e o objetivo de minimizar, simultaneamente, a energia não fornecida e o tempo de indisponibilidade. Nesse sentido, considera-se prioritária a adoção de uma rede de baixa tensão mais resiliente através do enterramento seletivo onde exista maior concentração de consumo, complementada pelo reforço mecânico das redes aéreas nas zonas de maior dispersão. Esta abordagem permitirá mitigar impactos, nomeadamente através da instalação provisória e estrategicamente localizada de grupos geradores, centralizados por postos de transformação, assegurando uma resposta mais rápida e coordenada em contexto de crise.

Em paralelo, deve ser tirado pleno partido da infraestrutura de contadores inteligentes, recorrendo à limitação temporária de potência como instrumento de gestão do serviço em situação de contingência. Esta medida permite alimentar um maior número de clientes com a capacidade disponível, promovendo uma resposta mais equitativa e eficaz. Do ponto de vista do consumidor, é preferível garantir fornecimento elétrico — ainda que com potência limitada — durante o período necessário à reposição integral das infraestruturas.

Por fim, no que respeita às infraestruturas aéreas — MAT, AT, MT e BT em áreas geograficamente dispersas — é recomendável a realização de estudos técnicos que caracterizem, por troço e por zona, os níveis de indisponibilidade e vulnerabilidade, permitindo orientar o investimento para soluções de reforço estrutural e mecânico, dimensionadas para suportar velocidades de vento superiores e outros fatores críticos associados a fenómenos extremos. Esta abordagem, sustentada em evidência e planeamento, permitirá fortalecer a resiliência do sistema, protegendo os cidadãos e a economia.

É, portanto, impossível enterrar toda a rede de distribuição, pois tal acarretaria custos incomportáveis, além de dificultar a manutenção em caso de avarias (apesar de essas serem menos frequentes em circuitos enterrados). Todo esforço no aumento da resiliência das redes perante fenómenos climáticos adversos deverá ser focado em estudos especializados, multidisciplinares e numa ótica de reparação/troca programada, permitindo diluir o impacto na fatura dos consumidores.

 

 

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