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Conflito no Golfo expõe fragilidade energética da Ásia: especialistas defendem aposta nas renováveis
Interrupções no fornecimento de gás e petróleo reacendem riscos económicos e geopolíticos para os países da ASEAN. Analistas da Ember defendem aceleração das renováveis como escudo contra futuras crises.
23 Mar 2026 - 13:13
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Foto: Getty Images/WangAnQi
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Desde o início do conflito no Golfo Pérsico, a 28 de fevereiro, os países asiáticos têm-se visto vulneráveis a choques no abastecimento e nos preços da energia. O ‘think thank’ Ember acredita que a solução para proteger as economias orientais de dirupções passa pela transição para as energias renováveis.
“Afastar os países do caminho dos combustíveis fósseis e reconduzi-los para as energias limpas garantirá que os países mitiguem riscos potenciais, mantenham a segurança energética e permaneçam no caminho da descarbonização”, defendeu a organização numa análise divulgada nesta segunda-feira.
À medida que o tempo passa e os fornecimentos de gás natural liquefeito (GNL) e petróleo provenientes do Médio Oriente continuam interrompidos, a segurança energética vê-se cada vez mais implicada. A Ember antevê que “um período prolongado de conflito poderá alterar a dinâmica dos preços e arriscar a fragmentação geopolítica em toda a Ásia, alimentada pela intensificação da concorrência no mercado à vista”. Como resultado, adiciona, os países poderão ter de recorrer a planos de contingência para evitar a crise económica.
E “embora a poupança de energia possa constituir uma solução inicial a curto prazo, a transição para as energias renováveis produzidas localmente pode oferecer mais opções para amortecer futuros choques energéticos”, avisa a doutora Dinita Setyawati, analista sénior da Ember.
Entre os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa), Tailândia e Singapura têm sido os maiores importadores de gás natural. Além disso, à exceção do Brunei, as importações líquidas de petróleo têm aumentado em todos os países do grupo.
Em 2024, a China, a Coreia do Sul, o Japão e Singapura, os maiores mercados de gás na ASEAN e no Leste Asiático, importaram todos pelo menos 4% mais do que em 2023. A dependência de combustíveis externos para produzir eletricidade expõe o setor à volatilidade dos custos, denota a Ember. Os maiores países asiáticos importadores de gás, exceto a China, utilizam gás em 34% a 92% da sua matriz energética.
De acordo com a Ember, um pico nos preços do gás poderia, por exemplo, elevar o custo da eletricidade gerada a partir do gás em Singapura para cerca de 260,8 dólares americanos por megawatt-hora (MWh), aproximadamente o dobro do nível de fevereiro de 2026.
Também a subida de cerca de 15% no preço do carvão volta a colocar pressão sobre o sistema energético, com riscos económicos e ambientais acrescidos. Os dados da Ember indicam que o custo da eletricidade produzida a partir de carvão ronda os 76 dólares por MWh, abaixo dos cerca de 104 dólares associados ao gás. Ainda assim, as energias renováveis, como a solar com armazenamento em baterias, mantêm-se mais competitivas, com custos próximos dos 40 dólares por MWh.
Apesar do potencial das renováveis para apoiar a descarbonização, esse avanço pode abrandar, ou mesmo inverter-se, se os governos recorrerem ao carvão para responder à procura, aponta o ‘think thank’.
Se os preços elevados persistirem, a competição pelo abastecimento tenderá a intensificar-se, favorecendo as economias mais ricas e agravando desigualdades. Países emergentes do Sudeste Asiático, como a Indonésia e a Tailândia, poderão ter mais dificuldade em suportar os custos e garantir acesso à energia.
Um agravamento da instabilidade no Médio Oriente poderá acentuar estas pressões, com impacto tanto entre países como dentro deles, à medida que os custos energéticos se refletem nas famílias e nas empresas. O cenário “amplifica a necessidade de acelerar a transição para as energias renováveis”, salienta a Ember e como já defenderam ministros da Economia da ASEAN em resposta às recentes tensões geopolíticas.
O doutor Muyi Yang deixa a pergunta: “Poderá a prosperidade futura da Ásia assentar realmente numa base de combustíveis volátil, importada e geopolíticamente exposta?”. O também analista sénior da Ember refere que a crise do Estreito de Ormuz é apenas “o mais recente lembrete” e “talvez seja altura de a Ásia repensar o seu caminho de crescimento intensivo em combustíveis fósseis”.
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