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Falhas na recolha travam reciclagem de vidro em Portugal

Portugal deverá falhar a meta de reciclagem de 65% de vidro em 2025. Players do setor alertam para falhas nos circuitos de recolha seletiva e exigem soluções operacionais adequadas ao canal HORECA.

31 Dez 2025 - 07:30

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Foto: Freepik

Foto: Freepik

O vidro representa 6,67% do total de resíduos urbanos produzidos em Portugal Continental, segundo o Relatório Anual de Resíduos Urbanos, publicado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Apesar do aumento do investimento e dos alertas sucessivos de vários agentes do setor, a reciclagem deste material continua a enfrentar diversos obstáculos.

A ausência de sistemas de recolha dedicados e eficazes surge como um dos principais entraves, sobretudo no canal HORECA (hotelaria, restauração e cafetaria), onde a maioria dos estabelecimentos, pela sua reduzida dimensão, acaba por depender dos sistemas de recolha destinados aos cidadãos.

Tudo isto ocorre num contexto em que as metas nacionais e europeias continuam longe de ser cumpridas. A Comissão Europeia estipulou uma meta de reciclagem de vidro de 70% para 2025 e 75% para 2030. Portugal, no entanto, solicitou uma prorrogação do prazo por cinco anos, passando a ter de cumprir a meta oficial de 65% até 2025. “No caso do vidro, este pedido reflete as dificuldades persistentes na recolha deste material, especialmente no canal HORECA, responsável por uma fatia releevante do consumo de embalagens de vidro e onde subsistem barreiras estruturais à deposição seletiva”, refere Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde (SPV), ao Jornal PT Green.

Os dados mais recentes da SPV, relativos aos primeiros nove meses de 2025, indicam que Portugal continua distante de atingir as metas de reciclagem de embalagens, mesmo com um “reforço histórico” do investimento. O vidro permanece como o material que mais preocupa, com a reciclagem praticamente estagnada em relação ao período homólogo, registando 0% de crescimento, tendo sido recicladas 165.071 toneladas de embalagens de vidro neste período. “A meta oficial é 65% e com muita dificuldade chegaremos aos 60%. Nós pagamos uma pesada penalização por não conseguirmos cumprir a meta de reciclagem destas embalagens”, já havia adiantado Ana Trigo Morais numa entrevista recente ao Jornal PT Green.

Ana Trigo Morais CEO Sociedade Ponto Verde

O canal HORECA é, pela própria natureza da sua atividade, um grande produtor de embalagens de vidro, nomeadamente garrafas de bebidas. Segundo a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), cada estabelecimento produz, em média, cerca de duas toneladas de resíduos de vidro por ano, um volume significativamente superior ao de um agregado familiar. “Atualmente, estima-se que cerca de 36% do vidro gerado no HORECA seja separado para reciclagem, um valor que evidencia margem clara de melhoria, mas que deve ser analisado à luz das condições reais de recolha disponíveis. O vidro que não é separado acaba encaminhado para o indiferenciado não por displicência das empresas, mas porque o sistema de recolha existente não está adaptado à escala, ao ritmo e às rotinas operacionais dos estabelecimentos”, esclarece Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, ao Jornal PT Green.

Falha na recolha seletiva

Efetivamente, a produção de resíduos de vidro no canal HORECA é muito superior à dos consumidores domésticos, mas a maioria depende dos ecopontos destinados aos cidadãos. Apenas é obrigado a contratar um operador privado para recolher o vidro um café ou restaurante que produza mais de 1100 litros por dia.

Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP

Para Ana Jacinto, o atual modelo “não é adequado à realidade dos setores HORECA. Os ecopontos e vidrões foram desenhados para uso doméstico e não para atividades que produzem grandes volumes concentrados num curto espaço de tempo”. E identifica vários constrangimentos nesta operação. Por exemplo, “não é realista esperar que um restaurante proceda à deposição manual de dezenas ou centenas de garrafas, uma a uma, num vidrão concebido para uso doméstico”. Para além disso, aponta que a deposição de garrafas no vidrão provoca ruído significativo, gerando queixas dos moradores e, nalguns casos, riscos de corte para os trabalhadores. “Especialmente em zonas urbanas e turísticas, esta prática pode gerar impacto direto na aceitação social da reciclagem”, refere Ana Jacinto.

Aponta ainda como entrave à reciclagem o facto de muitos estabelecimentos operarem com equipas reduzidas, não sendo a gestão de resíduos a sua prioridade, e também terem falta de espaço físico para ter vários contentores de reciclagem. “Tudo isto demonstra que o modelo de recolha tem de ser adaptado à escala e especificidade destes negócios”, sublinha a responsável da AHRESP.

Para resolver este problema, a SPV já levou a cabo vários projetos. Entre 2022 e 2023, em parceria com a Associação Dos Industriais De Vidro De Embalagem e vários Sistemas de Gestão de Resíduos Urbanos (SGRU), foi desenvolvido o projeto-piloto “Mais Vidro, Mais Reciclagem #Horecafazpartedasolução”, que instalou 270 vidrões com sistema de baldeamento assistido e distribuiu contentores especiais a 1500 estabelecimentos. O modelo eliminou a recolha manual garrafa a garrafa e trouxe resultados positivos: a retoma de vidro nos municípios parceiros cresceu entre 7% e 11%, e a quantidade de vidro recolhido aumentou entre 15% e 72%.

Outro programa da SPV, denominado “Juntos a Reciclar ++”, financia ações de comunicação e sensibilização promovidas por SGRU, autarquias e empresas municipais. Nas últimas edições, o foco tem sido a reciclagem de embalagens de vidro, com atenção especial ao setor HORECA. Para Ana Trigo Mortais, os projetos são a prova de que “a conveniência e a adequação do serviço são determinantes para aumentar as quantidades de vidro reciclado”.

Na edição de 2025, foram apoiados 39 projetos, resultantes de 33 candidaturas, num investimento total de 707.470 euros , o valor mais elevado desde o início do programa e superior ao inicialmente previsto para 2025 (600 mil euros) e ao de 2024 (500 mil euros), segundo s SPV.

Foto: Freepik

Questionada sobre até que ponto a ausência de sistemas de recolha dedicados ao setor contribui para a estagnação da reciclagem de vidro, Ana Jacinto é perentória: “Contribui de forma decisiva. Quando existem sistemas adaptados, os resultados aparecem”. E acrescenta: “Sem um modelo de recolha ajustado ao volume e às rotinas operacionais destas empresas, continuaremos a desviar para o indiferenciado uma parte significativa do vidro que poderia ser valorizado. A estagnação do vidro não deve, por isso, ser lida como falha das empresas, mas como consequência de modelos de recolha desajustados e insuficiente investimento em infraestruturas específicas.

Qual o caminho?

A AHRESP defende a criação de um modelo de recolha de vidro adaptado à escala e à realidade operacional do canal HORECA, com contentores de maior capacidade com acessos adaptados, silenciosos e seguros, sistemas de recolha dedicados ou porta-a-porta em zonas de elevada concentração de estabelecimentos, e a expansão nacional de soluções já testadas com sucesso através de projetos-piloto assim como de novos programas piloto, especialmente em territórios de elevada concentração turística. Defende ainda políticas públicas construídas com quem conhece o terreno e campanhas de comunicação e capacitação ajustadas a equipas frequentemente multiculturais, com trabalhadores que nunca ouviram falar em reciclagem.

“Não basta legislar, é preciso operacionalizar, investir e colaborar. O cumprimento das metas europeias exige sistemas ajustados à realidade dos operadores económicos, nomeadamente dos estabelecimentos do setor HORECA, que, sendo maioritariamente pequenos produtores, funcionam com dinâmicas distintas das dos consumidores domésticos”, sublinha Ana Jacinto.

Ana Trigo Morais vai na mesma linha, sublinhando que “o setor enfrenta desafios estruturais que exigem soluções mais inovadoras e próximas dos locais de consumo e uma mobilização reforçada de todos os agentes da cadeia de valor”.

 

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