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Desastres climáticos de 2025 custam mais de 140 mil milhões de dólares e vitimam milhares de pessoas

Relatório da Christian Aid documenta devastação global causada por eventos extremos agravados pelas alterações climáticas. Incêndios em Los Angeles e ciclones na Ásia lideram perdas económicas, mas incêndios ibéricos também entram na contabilização.

30 Dez 2025 - 12:07

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Foto: Unsplash

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Os eventos climáticos extremos que assolaram o planeta em 2025 provocaram perdas económicas superiores a 140 mil milhões de dólares e mataram mais de 4.000 pessoas, segundo um relatório divulgado pela organização britânica Christian Aid. O documento, intitulado “Contar os Custos de 2025: Um Ano de Colapso Climático“, estabelece uma ligação direta entre a intensificação destes desastres e as alterações climáticas e inação política.

Os incêndios florestais que devastaram Palisades e Eaton, nos arredores de Los Angeles, em janeiro, tornaram-se o evento mais destrutivo e caro da história dos Estados Unidos nesta categoria. Embora as estimativas iniciais apontassem para 57 mil milhões de dólares em danos, avaliações posteriores indicam perdas superiores a 60 mil milhões. O fogo vitimou diretamente 31 pessoas, mas um estudo subsequente reportou 400 mortes adicionais. Segundo cientistas climáticos citados no relatório, as condições meteorológicas que permitiram a devastação tornaram-se pelo menos 35% mais prováveis devido às alterações climáticas, e a intensidade dessas condições foi 6% superior ao que seria num mundo sem interferência humana no clima.

No sul e sudeste da Ásia, uma combinação de três sistemas de tempestades no final de novembro transformou-se num dos eventos climáticos extremos mais mortais do ano. O ciclone Senyar atingiu a Indonésia e a Malásia, o ciclone Ditwah devastou o Sri Lanka no pior desastre climático das últimas décadas naquele país, e o tufão Koto causou estragos nas Filipinas e no Vietname. As perdas económicas são estimadas em cerca de 25 mil milhões de dólares, com mais de 1.750 mortos. Especialistas preveem que só o Senyar pode custar 15,7 mil milhões de dólares à Tailândia.

A época das monções na Índia e no Paquistão, entre junho e setembro, resultou em pelo menos 1.860 mortes e em perdas de 3 mil milhões de dólares, no total. No Paquistão, as chuvas torrenciais, combinadas com inundações glaciares, mataram mais de 1.000 pessoas, danificaram 12.500 casas e afetaram quase 7 milhões de indivíduos. A agricultura foi particularmente atingida, com cerca de 5260 km² de culturas submersas. Cientistas do instituto alemão Postdam calculam que, para cada grau de aquecimento global, as chuvas das monções aumentarão cerca de 5%, sendo que as alterações climáticas intensificaram as precipitações no Paquistão em aproximadamente 12%.

As Filipinas enfrentaram uma sucessão devastadora de ciclones tropicais, incluindo o supertufão Fung-Wong, que deslocou 1,4 milhões de pessoas com ventos sustentados de até 185 km/h. Os danos acumulados ultrapassaram os 2,4 mil milhões de dólares. Os estudos de atribuição citados no relatório indicam que as alterações climáticas tornaram tufões semelhantes 49% mais prováveis em 2025 e que cerca de 30% dos danos económicos do Fung-wong podem ser diretamente atribuídos ao aquecimento global.

O furacão Melissa, que atingiu a Jamaica, Cuba e as Bahamas, tornou-se a tempestade mais poderosa a afetar a Jamaica, com ventos máximos de 296 km/h. Provocou 45 mortes e perdas estimadas em 8 mil milhões de dólares. Investigadores do Climate Central concluíram que as alterações climáticas aumentaram a intensidade do furacão em 30% e tornaram a sua ocorrência cerca de duas vezes mais provável.

O Brasil enfrentou uma seca persistente que afetou mais de metade do país no primeiro semestre, causando perdas de 4,75 mil milhões de dólares, principalmente na agricultura. A China registou 11,7 mil milhões em perdas devido a inundações sazonais entre junho e agosto. Na Austrália, o ex-ciclone tropical Alfred causou 1,2 mil milhões em danos, enquanto o ciclone Garance provocou prejuízos de 1,05 mil milhões de dólares nas ilhas Reunião e Maurícia. No Texas, as inundações repentinas mataram 135 pessoas e causaram perdas de mil milhões de dólares.

Incêndios ibéricos custaram 810 milhões de dólares

A Península Ibérica enfrentou uma das temporadas de incêndios florestais mais devastadoras das últimas décadas durante o verão, segundo a Christian Aid. Portugal e Espanha viram arder 643 mil hectares de terra, uma área superior a 3% do território português, num cenário de ondas de calor extremo que levou as temperaturas a ultrapassarem os 45 graus Celsius.

Em Espanha arderam 383 mil hectares até setembro, enquanto Portugal registou 260 mil hectares queimados, quase cinco vezes acima da média nacional. O balanço humano aponta para pelo menos seis mortes diretas, mas o fumo e a poluição do ar afetaram milhares de pessoas em toda a Europa. As perdas económicas diretas são estimadas em 810 milhões de dólares.

A ligação às alterações climáticas é inequívoca, segundo os especialistas citados pela organização britânica. Os estudos concluem que as mudanças no clima tornaram este evento cerca de 40 vezes mais provável e aumentaram a intensidade das condições propícias a incêndios em aproximadamente 30%. As semanas de temperaturas extremas, com máximas de 45,8°C registadas em Espanha, combinadas com baixa humidade, criaram o cenário perfeito para grandes incêndios.

“Lotaria dos códigos postais”

A organização aproveita o contexto dos desastres de 2025 para lançar uma crítica à inação dos países desenvolvidos. A maioria das Contribuições Nacionalmente Determinadas apresentadas este ano foi considerada insuficiente para manter o aquecimento global em 1,5°C acima das temperaturas pré-industriais, conforme estabelecido no Acordo de Paris. A Christian Aid exige que as nações ricas e poluidoras acelerem drasticamente a redução de emissões de carbono e abandonem todos os novos projetos de combustíveis fósseis, redirecionando os triliões de dólares em subsídios para a transição energética.

No plano do financiamento climático internacional, o diagnóstico é igualmente severo. A Nova Meta Coletiva Quantificada, acordada na COP29, ficou muito aquém dos 1,3 biliões de dólares anuais necessários, e a COP30 em Belém pouco progrediu nesta matéria. O Fundo de Resposta a Perdas e Danos, já operacional, conta com menos de mil milhões de dólares comprometidos, um valor que a organização considera “extremamente baixo”.

A Christian Aid sublinha ainda a desigualdade global face às catástrofes climáticas, alertando para uma “lotaria dos códigos postais” que determina quem sobrevive. Mais de um terço da população mundial, principalmente no Sul Global, não tem acesso a sistemas de alerta precoce, apesar da meta ambiciosa da ONU de cobertura universal até 2027. “Os países ricos têm um papel vital a desempenhar para garantir que os governos dos países de menor rendimento tenham mais ‘espaço fiscal’ para investir na proteção social, através do alívio da dívida, de regras fiscais internacionais mais justas, da mobilização de financiamento internacional para o clima e da ajuda ao desenvolvimento”, salienta a organização.

O relatório sublinha ainda que os valores económicos registados representam apenas uma fração do custo real destes desastres. Milhares de propriedades não eram cobertas por seguros, particularmente em comunidades de baixos rendimentos, e os impactos a longo prazo na saúde mental, deslocações populacionais e destruição de meios de subsistência são incalculáveis. A organização britânica alerta que, à medida que as temperaturas globais continuam a aumentar, a intensidade e frequência destes eventos extremos tenderá a agravar-se, tornando a redução drástica de emissões de gases com efeito de estufa uma urgência incontornável.

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