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ONU alerta que o mundo já entrou em “bancarrota global de água”
Novo relatório diz que a crise hídrica deixou de ser temporária e tornou-se estrutural, afetando milhares de milhões de pessoas e ecossistemas irreversíveis. A agricultura surge como um dos principais focos da bancarrota hídrica.
21 Jan 2026 - 09:17
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O mundo já vive numa era de bancarrota global da água, uma condição estrutural de colapso dos sistemas hídricos causada por décadas de sobre-exploração, poluição e má governação. O alerta é feito num novo relatório das Nações Unidas, que conclui que muitos rios, aquíferos, lagos, zonas húmidas e glaciares ultrapassaram pontos de não retorno e já não podem ser restaurados aos níveis históricos.
De acordo com o documento, os conceitos tradicionais de “stress hídrico” ou “crise da água” tornaram-se insuficientes. Em grande parte do planeta, a situação já não é reversível nem temporária: trata-se de uma bancarrota pós-crise, em que o uso prolongado da água e a degradação ambiental excederam de forma persistente a capacidade natural de renovação. O relatório afirma mesmo que a humanidade está a viver “para além dos seus meios hidrológicos”.
Os dados revelam uma crise humana de grande escala. Cerca de 2,2 mil milhões de pessoas continuam sem acesso a água potável gerida de forma segura, 3,5 mil milhões não dispõem de saneamento adequado e quase 4 mil milhões enfrentam escassez grave de água durante pelo menos um mês por ano. Quase 75% da população mundial vive em países classificados como hídrica ou criticamente inseguros.
A degradação dos ecossistemas aquáticos é descrita como massiva. Mais de metade dos grandes lagos do mundo perdeu volume desde o início da década de 1990, afetando diretamente cerca de um quarto da população global. Nos últimos 50 anos desapareceram aproximadamente 410 milhões de hectares de zonas húmidas naturais, uma perda avaliada em mais de 5,1 biliões de dólares em serviços ecossistémicos.
Também as reservas subterrâneas estão em colapso. Cerca de 70% dos principais aquíferos do planeta apresentam declínios a longo prazo, enquanto a subsidência dos solos causada pela extração excessiva de águas subterrâneas já afeta mais de 6 milhões de quilómetros quadrados e quase 2 mil milhões de pessoas, aumentando os riscos de cheias e danos permanentes nas cidades.
“Este relatório revela uma verdade desconfortável: muitas regiões estão a viver para além dos seus meios hidrológicos e muitos sistemas hídricos críticos já se encontram em bancarrota”, afirma o autor principal, Kaveh Madani, diretor do Instituto para a Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), conhecido como o ‘think tank’ da ONU para a água.
Em termos financeiros, o relatório explica que muitas sociedades não só gastaram em excesso o seu “rendimento” anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve acumulada, como também esgotaram as suas “poupanças” de longo prazo em aquíferos, glaciares, zonas húmidas e outros reservatórios naturais.
Dedo apontado à agricultura
A agricultura surge como um dos principais focos da bancarrota hídrica. Responsável por cerca de 70% das captações globais de água doce, depende cada vez mais de aquíferos que estão a ser esgotados mais rapidamente do que conseguem recarregar. Mais de metade da produção alimentar mundial ocorre em regiões onde o armazenamento total de água está a diminuir ou é instável, colocando a segurança alimentar global sob forte pressão.
O relatório identifica ainda o crescimento das secas antropogénicas, provocadas sobretudo pela ação humana — como a sobre alocação de água, a degradação dos solos, a desflorestação e a poluição — e não apenas pela variabilidade climática natural. Estes impactos já geram custos estimados em 307 mil milhões de dólares por ano.
Perante este cenário, a ONU defende uma mudança urgente de paradigma: os governos devem abandonar a lógica de resposta a crises e adotar uma gestão da bancarrota da água, centrada na redução e redistribuição da procura, na transformação de setores intensivos em água, no combate à extração ilegal e à poluição, e na proteção do capital natural que sustenta o ciclo hidrológico.
As Nações Unidas apelam ainda a que os próximos marcos internacionais, nomeadamente, as Conferências da Água de 2026 e 2028, o fim da Década da Água em 2028 e o prazo dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em 2030, sejam usados para redefinir “profundamente” a agenda global da água.
Os números da água
50%: Grandes lagos do mundo que perderam água desde o início da década de 1990 (dos quais depende diretamente 25% da humanidade)
50%: Água doméstica global atualmente proveniente de águas subterrâneas
40%+: Água de irrigação retirada de aquíferos que estão a ser progressivamente esgotados
70%: Principais aquíferos a nível mundial com declínio a longo prazo
410 milhões de hectares: Área de zonas húmidas naturais — quase equivalente à área total da União Europeia — desaparecida nos últimos 50 anos.
30%+: Massa global de glaciares perdida em várias regiões desde 1970.
100 milhões de hectares: Terras agrícolas degradadas apenas devido à salinização.
75%: Da população mundial vive em países classificados como hídrica ou criticamente inseguros
2 mil milhões: Pessoas a viver em zonas onde o solo está a afundar.
25 cm: Queda anual do nível do terreno registada em algumas cidades.
4 mil milhões: Pessoas que enfrentam escassez severa de água pelo menos um mês por ano.
170 milhões de hectares: Terras agrícolas irrigadas sob stress hídrico elevado ou muito elevado — o equivalente às áreas combinadas de França, Espanha, Alemanha e Itália.
5,1 biliões de dólares: Valor anual dos serviços ecossistémicos de zonas húmidas perdidos.
3 mil milhões: Pessoas a viver em regiões onde o armazenamento total de água está a diminuir ou é instável, sendo que mais de 50% da produção alimentar mundial ocorre nessas mesmas áreas sob pressão.
1,8 mil milhões: Pessoas afetadas por condições de seca em 2022–2023.
307 mil milhões de dólares: Custo económico global anual atual da seca.
2,2 mil milhões: Pessoas sem acesso a água potável gerida de forma segura, enquanto 3,5 mil milhões não têm acesso a saneamento seguro.
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