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Presidenciais 2026: candidatos defendem autonomia da rede elétrica nacional
O Jornal PT Green questionou todos os candidatos sobre energia, economia circular e a transição verde no setor empresarial. Responderam Catarina Martins, António Filipe e André Pestana, que convergem na urgência da transição verde, mas propõem caminhos distintos.
16 Jan 2026 - 07:26
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Foto: Freepik
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Os candidatos às eleições presidenciais de 2026 Catarina Martins, António Filipe e André Pestana apresentam visões distintas sobre os desafios ambientais do país, num contexto marcado pelo apagão ibérico de abril de 2025 e pela aproximação do limite de capacidade dos aterros nacionais.
O Jornal PT Green questionou os candidatos sobre energia, economia circular e a transição verde no setor empresarial. As respostas revelam consensos quanto à necessidade de reforçar a autonomia energética e promover a economia circular, mas divergências nas estratégias propostas.
Dos 11 candidatos oficiais contactados, apenas quatro responderam. Entre eles, Humberto Correia limitou-se a afirmar que “a melhor energia é aquela que não consumimos e o melhor produto é aquele que não precisamos”.
Apagão ibérico
O apagão na Península Ibérica ocorreu às 11h33 do dia 28 de abril de 2025, afetando Portugal continental, Espanha peninsular, Andorra e o sudoeste de França, deixando cerca de 60 milhões de pessoas sem eletricidade durante mais de dez horas. O apagão, classificado pela ENTSO-E como “excecional e grave”, resultou em aeroportos encerrados, congestionamento nos transportes e falta de combustíveis. O incidente teve origem numa queda abrupta de geração de energia em Granada, seguida de falhas em Badajoz e Sevilha, provocando uma perda de 2,2 gigawatts de eletricidade.
Questionados sobre o papel que o Presidente da República deve assumir para reforçar a resiliência da rede energética nacional, os três candidatos apresentam abordagens contrastantes.

André Pestana
André Pestana propõe uma estratégia descentralizada, defendendo maior apoio para que habitações tenham isolamento térmico e painéis solares, em alternativa aos “painéis solares gigantes que destroem as nossas florestas ou zonas de cultivo”. O professor de Biologia, que ficou conhecido pelas greves nas escolas em 2022/2023 como rosto do Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (S.T.O.P.), sublinha a necessidade de combater a pobreza energética, que afirma afetar mais de dois milhões de portugueses.
Catarina Martins, ex-coordenadora do Bloco de Esquerda durante mais de uma década, apresenta uma perspetiva mais institucional, enquadrando a transição energética numa dimensão que cruza “soberania, justiça social e democracia”. A eurodeputada defende um “compromisso de longo prazo, consagrado na lei que assegure investimento público continuado, incluindo na produção descentralizada de energia”, valorizando a cooperação europeia sem abdicar da “autonomia e da segurança energética nacionais”.
António Filipe, jurista e membro do Comité Central do PCP desde 1992, considera que o apagão demonstrou que “o Sistema Elétrico Nacional e a Rede Elétrica de Serviço Público […] são demasiado importantes para estarem nas mãos de interesses privados”. O candidato comunista defende a recuperação pelo Estado do controlo das principais empresas do setor energético, criticando os sucessivos governos por favorecerem promotores de projetos de energias renováveis através de leilões que atribuem “capacidade de ligação à rede a título perpétuo”, o que considera “altamente lesivo dos interesses do país”.
Portugal falha reciclagem e aterros aproximam-se do limite
Portugal enfrenta uma crise na gestão de resíduos, com 59% dos resíduos urbanos a seguir para aterro em 2024, numa altura em que uma parte significativa se aproxima do limite de capacidade. Dos 35 aterros existentes no país, apenas 13 dispõem de mais de 20% de capacidade disponível, havendo unidades que poderão esgotar-se até 2027.
Quanto à reciclagem de embalagens, em 2024 foram encaminhadas para reciclagem 477 mil toneladas, equivalente a 58,6% de taxa de retoma, cumprindo a meta de 55% desse ano, mas longe da nova meta de 65% para 2025. Com taxas de reciclagem em torno dos 30%, Portugal continua significativamente abaixo da média europeia, que se aproxima dos 50%.

Catarina Martins
Catarina Martins defende que “a economia circular implica encarar a gestão de resíduos ao longo de todo o ciclo, desde a produção até ao pós-consumo”, criticando a timidez das medidas adotadas. A candidata apoiada pelo BE propõe regulação mais exigente e responsabilização efetiva na produção e distribuição de bens, através da redução do volume de embalagens e utilização obrigatória de materiais reciclados, defendendo que o Estado deve assumir um “papel regulador firme”.
António Filipe atribui o falhanço das metas nacionais à alienação dos sistemas de gestão de resíduos urbanos ao setor privado. O candidato nota que 32% dos resíduos têm a deposição em aterro como destino direto e 57% acabam depositados em aterro, defendendo a “recuperação do controlo público em todo o setor” para garantir a prestação efetiva de serviço em vez da “obtenção de máximo lucro”.
André Pestana promete não ficar “passivo perante a situação de limite dos nossos aterros” e propõe, além do retorno financeiro de vasilhame para garrafas de vidro e plástico, a criação de hortas e compostagem comunitárias em todas as freguesias. O candidato independente considera que estas medidas, além de reduzirem a pegada ecológica, potenciam o “sentimento de comunidade, tolerância e solidariedade entre vizinhos”.
Transição verde e competitividade empresarial
Sobre a capacidade do tecido empresarial português – composto maioritariamente por micro, pequenas e médias empresas – realizar a transição verde mantendo a competitividade, os três candidatos apresentam perspetivas diferentes.

António Filipe | Foto: PCP
António Filipe concentra-se na questão dos preços da energia e telecomunicações, criticando os lucros milionários de grupos como a EDP e defendendo medidas de regulação de preços. O candidato do PCP propõe a recuperação do controlo público do setor energético como forma de garantir segurança e preços adequados, argumentando que o problema não é a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, mas sim “o esmagamento dos custos de produção da eletricidade à custa da segurança do sistema elétrico […] para aumentar os lucros dos grupos económicos do setor”.
Catarina Martins rejeita a ideia de conflito entre transição energética e competitividade empresarial. A candidata argumenta que a produção descentralizada de energias renováveis pode ter “um impacto positivo na estrutura de custos das empresas, reforçando a sua autonomia energética e tornando-as mais competitivas”. Propõe que o Presidente da República promova “um quadro político e institucional que reconheça a transição verde como um investimento estratégico no futuro económico do país”.
André Pestana defende que o Estado deve apoiar mais as empresas que rapidamente efetivem a transição verde e taxar cada vez mais as poluidoras, propondo também transportes públicos gratuitos para incentivar os trabalhadores a deixarem o automóvel. No entanto, estabelece uma ligação direta entre política ambiental e investimento militar, afirmando que “uma transição verde global só será efetivamente possível” se Portugal não alimentar com “milhares de milhões de euros a super poluidora indústria de armamento dos EUA e Alemanha”.
O candidato refere-se ao compromisso assumido na cimeira da NATO de junho de 2025, quando o Governo português se comprometeu a gastar com a defesa 5% do seu PIB até 2035 (3,5% em despesas estritamente militares e 1,5% em proteção de infraestruturas críticas). O sindicalista opõe-se frontalmente a esta decisão, que considera retirar “recursos essenciais para proteger o meio ambiente e combater a crise climática”, potenciando “a política agressiva e criminosa de Donald Trump”.
As três candidaturas da esquerda, que nas sondagens recentes da Universidade Católica para a Antena 1, RTP e Público aparecem distantes dos três primeiros lugares, partilham preocupações ambientais comuns, mas divergem significativamente nas propostas concretas. As eleições presidenciais decorrem a 18 de janeiro de 2026, com possível segunda volta a 8 de fevereiro.
- Cantanhede candidata projeto de 665 mil euros para plantar 1.400 árvores
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