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Regresso do El Niño pode agravar fenómenos extremos já sentidos em Portugal
Francisco Ferreira, da ZERO, explica que os impactos do El Niño em Portugal são apenas indiretos, mas ainda assim devem ser tratados como “um fator de risco climático adicional a monitorizar”, por intensificar fenómenos como incêndios e secas.
22 Jun 2026 - 06:06
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O possível regresso do fenómeno climático El Niño entre junho e agosto deste ano poderá agravar alguns dos fenómenos extremos já sentidos em Portugal, como ondas de calor, períodos de seca prolongada e maior risco de incêndio rural.
No entanto, o presidente da associação ZERO, Francisco Ferreira, alerta que a influência do fenómeno no em Portugal é indireta e que os impactos mais relevantes resultam da combinação entre padrões climáticos globais num contexto de aquecimento global, que torna estes eventos cada vez mais frequentes e intensos.
Ainda que os riscos sejam apenas indiretos, Portugal deve tratar o El Niño como “um fator de risco climático adicional a monitorizar”, considera Francisco Ferreira.
Os riscos mais relevantes a vigiar no país são os já associados ao contexto de aquecimento climático como a maior probabilidade de ondas de calor, o agravamento de seca meteorológica e hidrológica e uma maior vulnerabilidade a precipitação intensa e cheias rápidas quando ocorrem episódios extremos.
Outra das maiores preocupações é o maior risco de incêndio rural em períodos quentes e secos. É importante relembrar que, este verão, uma em cada três freguesias em Portugal já apresenta altos riscos de incêndio sem o impacto do El Niño, de acordo com o mapa de susceptibilidade ao incêndio 2026.
No caso de Portugal, “não se deve atribuir automaticamente ao El Niño uma seca, uma onda de calor ou um inverno chuvoso”, explica. Ainda assim, o presidente da associação admite que um episódio mais intenso pode vir a influenciar as probabilidades da circulação atmosférica, devendo ser analisado em conjunto com outros fatores climáticos, como a oscilação do Atlântico Norte e a temperatura das águas do Atlântico.
Assim, a atual situação de calor em Portugal também não deve ser atribuída diretamente ao El Niño, sublinha a ZERO. O episódio resulta sobretudo da circulação atmosférica regional sobre o Atlântico e a Península Ibérica, com transporte de ar quente e seco.
Trata-se de uma situação “normal”, mas que se torna mais frequente, extensa e intensa num contexto de aquecimento global, que aumenta a probabilidade e a severidade das ondas de calor.
Embora o El Niño possa contribuir indiretamente para alterações nos padrões climáticos globais e para um aumento da temperatura média do planeta, do ponto de vista científico, “seria precipitado estabelecer uma relação direta com o calor atualmente sentido em Portugal”. No entanto, a confirmação de um padrão semelhante nos próximos meses permitiria avaliar essa eventual ligação.
Neste sentido, o presidente da associação ZERO deixa algumas recomendações de precaução para o país. A prioridade deve passar pelo “reforço da adaptação a fenómenos extremos climáticos”, com foco na gestão da água, na preparação para ondas de calor e na prevenção de incêndios rurais e cheias.
Estas medidas devem incluir o reforço da gestão dos recursos hídricos e a preparação para períodos de seca, a proteção da saúde pública em episódios de calor extremo, e o aumento da resiliência das cidades e do território a eventos climáticos intensos.
Para a ZERO, estas ações são relevantes “independentemente da influência do El Niño”, uma vez que diminuem a vulnerabilidade do país aos impactos das alterações climáticas.
Afinal, o que é o El Niño?
O chamado El Niño corresponde a um fenómeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico e ocorre, em média, a cada dois a sete anos, podendo durar entre nove e doze meses. O último El Niño, e o mais forte até ao momento, ocorreu entre 2023 e 2024.
Francisco Ferreira explica que, em condições normais, os ventos no Pacífico empurram as águas mais quentes para ocidente, junto à Ásia e à Oceânia.
No entanto, quando ocorre um episódio de El Niño, esses ventos enfraquecem e a água quente desloca-se para leste, em direção à costa da América do Sul. Esta alteração influencia a circulação da atmosfera e pode provocar mudanças nos padrões de chuva e temperatura em várias regiões do mundo.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há uma probabilidade de 80% de ocorrer um novo episódio de El Niño entre os meses de junho e agosto de 2026. As probabilidades de este fenómeno se prolongar pelo menos até novembro rondam os 90% ou mais.
Embora haja alguma incerteza quanto à intensidade máxima e ao momento do pico, a maioria dos modelos de previsão da OMM sugere que o El Niño será, no mínimo, moderado, mas possivelmente forte.
A nível global, o El Niño agrava os riscos de secas severas, falhas agrícolas, insegurança alimentar, incêndios florestais, cheias, deslizamentos, ondas de calor, stress térmico, impactos na saúde pública, perdas económicas e perturbações em ecossistemas marinhos, explica o especialista.
Além disso, o fenómeno tende ainda a acentuar o aquecimento da temperatura média global, tendo principal impacto nas temperaturas do ano seguinte. De acordo com Francisco Ferreira, 2024 foi o ano mais quente alguma vez registado, devido à combinação do El Niño de 2023 e 2024 com o aquecimento global.
Ainda que não haja evidências científicas de que as alterações climáticas possam aumentar a frequência e a intensidade do El Niño, adivinha-se que um oceano e uma atmosfera mais quente acabem por “amplificar os seus impactos na atmosfera”, através de fenómenos como ondas de calor e períodos de chuva extrema.
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