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Recordes de calor e El Niño agravam risco de incêndios em Portugal
Com o combustível deixado pelo comboio de tempestades e previsões de um El Niño forte e de recordes de calor, Portugal poderá enfrentar condições particularmente favoráveis à ocorrência de incêndios rurais no verão.
08 Jun 2026 - 06:08
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Foto: Copernicus
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Foto: Copernicus
O verão ainda não começou, mas os alertas já se fazem soar. Os sinais de se avizinhar um verão quente e potencialmente perigoso multiplicam-se, tanto em Portugal como à escala global, com especialistas e autoridades a anteciparem meses marcados por temperaturas acima do normal e um risco acrescido de incêndios florestais.
No passado dia 27 de maio, foram batidos em Portugal recordes de calor em 21 localidades portuguesas, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). A mesma data ficou marcada como o dia mais quente de sempre registado em maio em 21 estações meteorológicas do país. Os registos ocorreram durante uma onda de calor com duração de nove dias, considerada a terceira maior de sempre para este mês. Os modelos meteorológicos também apontam para um verão mais quente do que o habitual.
A reforçar estas previsões estão os novos dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM), revelados na passada terça-feira, que indicam uma probabilidade de 80% de ocorrer um novo episódio de El Niño entre junho e agosto de 2026. As probabilidades de o fenómeno se prolongar pelo menos até novembro rondam os 90% ou mais.
Embora permaneça alguma incerteza quanto à intensidade máxima e ao momento em que atingirá o pico, a maioria dos modelos da OMM sugere que o El Niño será, no mínimo, moderado, mas poderá tornar-se forte. O fenómeno está associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico tropical e tende a influenciar os padrões globais de temperatura e precipitação, aumentando a probabilidade de fenómenos meteorológicos extremos.
“A ciência é clara: o El Niño está a chegar à nossa porta nos próximos meses com 90% de certeza. O mundo deve encará-lo como o urgente aviso climático que ele representa”, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, numa declaração em vídeo. “A única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise — acabar com a dependência dos combustíveis fósseis, acelerar a transição para energias renováveis, proteger os mais vulneráveis e garantir sistemas de alerta precoce para todos”, acrescentou.
Outro alerta vem também do World Weather Attribution (WWA), que alertou recentemente para os níveis sem precedentes de incêndios florestais que ocorreram em várias regiões do planeta durante os primeiros quatro meses de 2026. Segundo os dados compilados pelo consórcio científico, mais de 150 milhões de hectares arderam entre janeiro e abril, cerca de 20% acima do anterior recorde para o mesmo período.
Os cientistas atribuem esta evolução à combinação entre alterações climáticas e condições meteorológicas extremas, prevendo também eles um agravamento da situação à medida que o verão se aproxima no hemisfério norte e o fenómeno El Niño ganha intensidade.
“Embora em muitas partes do mundo a época global de incêndios ainda não tenha atingido o seu auge, este início precoce, aliado à previsão do fenómeno El Niño, significa que nos podemos esperar um ano particularmente grave”, afirmou Theodore Keeping, especialista em incêndios florestais do Imperial College London e membro do WWA.
De salientar que a Comissão Europeia anunciou nesta semana a maior operação de prevenção aos incêndios de sempre, através do financiamento e da mobilização de um número recorde de bombeiros, aeronaves e especialistas em emergência, para as zonas de maior risco, incluindo Portugal. O plano prevê a mobilização de 777 bombeiros, que serão pré-posicionados nos países mais vulneráveis aos incêndios. Além de Portugal, os apoios abrangem Chipre, Grécia, Itália, França e Espanha.
Combustível extra deixado pelas tempestades
Em Portugal, as preocupações são agravadas pelos efeitos do comboio de tempestades que atravessou o país no início do ano. Os episódios de mau tempo deixaram vastas quantidades de material caído no terreno, aumentando significativamente a carga de combustível disponível para a propagação de incêndios. A esta realidade soma-se a vulnerabilidade de áreas que continuam sem proteção adequada, elevando os riscos para os meses mais quentes.
O ministro da Administração Interna já reconheceu que o verão será “muito duro” em matéria de incêndios florestais. Em abril passado, Luís Neves garantiu que existe um modelo de avaliação de risco para identificar as zonas prioritárias de limpeza. “Temos um modelo de avaliação de risco das zonas mais afetadas, particularmente junto das populações mais pequenas, para podermos fazer o nosso trabalho [de limpeza] durante estes meses, e é isso que vai acontecer”, afirmou na altura.
Recentemente, o Governo decidiu dar mais tempo aos municípios para atualizarem a forma como planeiam a prevenção de incêndios rurais, ficando válidos os atuais planos até 31 de dezembro de 2026.
Num decreto-lei publicado a 15 de abril, é referido que se mantém em vigor os atuais planos municipais enquanto não forem concluídos os novos programas sub-regionais e municipais previstos. Segundo o diploma, apesar dos avanços registados, a maioria dos municípios ainda não reúne condições para aprovar os programas municipais de execução que substituirão os atuais planos.
De salientar que, em Portugal Continental, 47,5% da superfície de áreas protegidas localizavam-se em territórios classificados com alta e muito alta perigosidade de incêndio rural, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
A mesma análise refere que, em termos gerais, Portugal Continental tem 30,6% da superfície categorizada como tendo alta e muito alta perigosidade de incêndio rural. Nas regiões Centro e Norte, estas classes de perigosidade representam mais de metade do território, nomeadamente 50,5% e 50,2%, respetivamente.
Desta feita, com recordes de calor já registados antes da chegada oficial do verão, previsões de temperaturas elevadas, florestas carregadas de combustível e um fenómeno climático global em desenvolvimento, os próximos meses apresentam-se, mais uma vez, como um teste à capacidade de prevenção e resposta das autoridades portuguesas.
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