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A próxima revolução industrial pode começar na floresta
Portugal continua a exportar matérias-primas pouco transformadas, a importar energia e produtos de maior valor e a desperdiçar biomassa e resíduos que poderiam gerar riqueza, emprego e autonomia. Por Luís Macedo, especialista em Gestão Ambiental e ex-diretor do Parque Nacional da Peneda-Gerês
14 Ago 2026 - 06:10
5 min leitura
Luís Macedo, especialista em Gestão Ambiental e ex-diretor do Parque Nacional da Peneda-Gerês
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Luís Macedo, especialista em Gestão Ambiental e ex-diretor do Parque Nacional da Peneda-Gerês
Portugal continua a discutir os incêndios, o abandono rural, a dependência energética, as alterações climáticas e a perda de competitividade como se fossem problemas separados. Não são. Estão ligados pelo território, pelos recursos naturais e pela forma como escolhemos, ou não, valorizá-los.
Durante décadas, remetemos a floresta para a política ambiental, a agricultura para a política agrícola, a energia para a indústria e o desenvolvimento do interior para os fundos de coesão. Criámos instrumentos especializados, mas perdemos uma visão integrada dos recursos nacionais.
Essa fragmentação tem custos. Portugal continua a exportar matérias-primas pouco transformadas, a importar energia e produtos de maior valor e a desperdiçar biomassa e resíduos que poderiam gerar riqueza, emprego e autonomia.
A transição ecológica já não pode ser encarada apenas como uma obrigação ambiental ou um conjunto de metas impostas por Bruxelas. É também uma oportunidade económica e industrial.
A bioeconomia, os biomateriais, o biometano, os combustíveis renováveis e a valorização do carbono estão a criar novas cadeias de valor. Podem reduzir dependências externas, substituir recursos fósseis e gerar investimento em territórios onde as oportunidades são escassas.
Portugal dispõe de floresta, agricultura, indústria agroalimentar, investigação e empresas inovadoras. O obstáculo já não é tecnológico: existem soluções para produzir combustíveis sustentáveis, biometano e materiais de origem biológica.
O verdadeiro desafio está em organizar a matéria-prima, estruturar cadeias logísticas, assegurar escala económica e oferecer previsibilidade aos investidores. Nenhum projeto industrial avançará apenas porque existe biomassa num território. Avançará quando houver confiança de que ela continuará disponível daqui a dez ou vinte anos, em quantidade, qualidade e condições viáveis.
Isso depende da gestão florestal, da organização dos produtores, da logística e da articulação entre proprietários, comunidades, municípios, indústria, investigação e Administração Pública.
Por isso, uma política de bioeconomia não pode limitar-se a incentivos ou a projetos isolados. Tem de ser, simultaneamente, uma política industrial, ambiental e de transformação territorial.
A floresta não produz apenas madeira: pode fornecer energia, biomateriais, carbono e serviços dos ecossistemas. A agricultura não produz apenas alimentos: gera resíduos valorizáveis e novos fluxos económicos. E as comunidades rurais não podem continuar a ser tratadas como destinatárias de medidas compensatórias. Devem ser reconhecidas como fornecedoras estratégicas de recursos e serviços essenciais para uma economia de baixo carbono.
A valorização sustentável da biomassa pode reduzir a carga combustível e o risco de incêndio. Os mercados de carbono podem criar rendimento. O biometano pode reforçar a autonomia energética, enquanto a economia circular transforma resíduos em recursos.
Estas atividades podem atrair investimento e emprego qualificado para territórios marcados pelo despovoamento. Nenhuma solução, isoladamente, resolverá os problemas estruturais do país. Em conjunto, porém, podem alterar a relação entre a economia e o território.
Portugal precisa de uma Estratégia Nacional para a Bioeconomia Territorial, capaz de integrar agricultura, floresta, energia, indústria, clima e conservação da natureza numa mesma visão económica.
Não basta financiar projetos dispersos. É necessário identificar recursos, organizar produtores, criar plataformas logísticas, desenvolver certificação e rastreabilidade, garantir contratos de longo prazo e aproximar a investigação da indústria.
É igualmente indispensável assegurar que uma parte significativa do valor criado permanece nas regiões que fornecem os recursos. Uma bioeconomia que extraia matérias-primas do interior para concentrar novamente o investimento e o rendimento nos grandes centros urbanos repetirá os desequilíbrios que diz pretender combater.
A transição verde só será verdadeiramente justa se criar oportunidades para quem gere a floresta, trabalha a terra, previne incêndios, conserva a biodiversidade e mantém vivos os territórios rurais.
Durante demasiado tempo, Portugal exportou recursos naturais de baixo valor e importou produtos transformados, tecnologia e energia. A próxima etapa dependerá da capacidade de converter recursos locais em conhecimento, indústria e valor acrescentado.
Essa transformação pode começar numa floresta bem gerida, numa exploração agrícola inovadora, numa unidade de valorização de resíduos ou numa comunidade rural capaz de organizar os seus recursos.
A questão já não é saber se Portugal dispõe de biomassa, conhecimento e território. É saber se terá visão política, capacidade de organização e ambição económica para transformar esses ativos numa nova frente de sustentabilidade e competitividade.
A próxima revolução industrial pode não começar numa fábrica. Pode começar no território.
Mas só acontecerá quando deixarmos de olhar para a floresta e para o mundo rural como problemas que exigem despesa e começarmos a tratá-los como ativos estratégicos capazes de gerar mais sustentabilidade, mais autonomia, mais rendimento e mais futuro.
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