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A Odisseia da Natureza

O Plano Nacional de Restauro da Natureza está em consulta pública. Temos um plano em cima da mesa, temos as cordas já atadas ao mastro, e temos até 19 de agosto para dizer o que queremos que ele diga. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI

10 Ago 2026 - 06:12

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Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

A Odisseia de Christopher Nolan estreou em Portugal a 16 de julho, foi o filme mais visto do país no fim de semana de estreia segundo os dados do ICA e dos Cinemas NOS, e custou USD 250 M para que Matt Damon pudesse remar de volta a casa em 70mm, primeiro filme da história rodado inteiramente em câmaras IMAX, o que quer dizer que meio mundo comprou bilhete e se sentou no escuro para ouvir contar outra vez, com o melhor equipamento alguma vez construído para o efeito, um poema com vinte e sete séculos em cima. Dez dias antes, sem IMAX nem bilheteira, o país tinha ardido em 15.000 hectares numa única semana.

Fomos ver os monstros, que é sempre o que nos leva a estas histórias, o gigante de um olho só, a criatura de seis cabeças à saída do estreito, o mar que se abre e se fecha ao sabor de um deus ofendido, e é por isso que convém reparar naquilo que Homero faz logo à cabeça e que nenhum guionista faria hoje, porque conta o fim nos primeiros versos e o fim que ele conta não tem monstro nenhum, os companheiros de Ulisses morreram pela sua própria insensatez, diz o poema, porque abateram e comeram o gado de Hélios, e por isso o deus lhes tirou o dia do regresso.

O que vende bilhetes são os monstros mas o que lhes custa o regresso é uma refeição. Vinte e sete séculos depois, continuo sem conhecer descrição melhor daquilo que nos está a acontecer.

A refeição que ofendeu os deuses

O gado que os espera na ilha de Trinácia são sete manadas de bois e sete rebanhos de ovelhas, de cinquenta cabeças cada, guardados por duas filhas de Hélios, e Homero faz questão de explicar o que aqueles animais têm de particular, porque são imortais, nunca dão crias e nunca morrem, o que quer dizer que o rebanho não cresce e que comer uma cabeça é retirá-la para sempre de um stock que não se repõe. Ulisses tinha sido avisado duas vezes, por Tirésias no mundo dos mortos e por Circe com instruções detalhadas, e ambos lhe disseram exatamente o mesmo, que se tocassem naquele gado perderiam o navio e a tripulação inteira.

Depois é tudo muito humano. Ficam retidos na ilha um mês por causa do mau tempo, as provisões acabam, a fome instala-se, e Ulisses, que é quem responde por aquela gente, afasta-se para rezar e adormece, e é nesse intervalo exato que Euríloco convence os companheiros de que morrer de fome é pior do que ofender um deus. Inevitavelmente, comem. E quando voltam ao mar, Zeus parte o navio ao meio e morrem todos, à exceção de Ulisses, que se agarra aos destroços e vai dar a uma ilha onde ficará sete anos a olhar para o horizonte.

Faça-se a contabilidade, que é instrutiva. Os Lestrígones afundaram-lhe onze navios de uma assentada e devoraram centenas de homens, o Ciclope comeu seis, Cila levou outros seis, e nenhuma dessas perdas mereceu a Homero uma linha na abertura do poema. De todas as maneiras de morrer que aquela viagem oferece, e são muitas, a única que ele escolheu para os primeiros versos foi o jantar.

Uma fatalidade baseada num recurso que não se renova, dois avisos entregues por escrito, uma pressão de curto prazo genuína, e a decisão tomada enquanto quem devia responder por ela estava a dormir. Temos os quatro elementos para uma bela tragédia grega.

E não é preciso navegar até Trinácia para os ir buscar. Temos o recurso, porque o solo europeu está degradado entre 60% e 70%, com a Zero a estimar a proporção portuguesa em cerca de 65% e mais de metade do território suscetível à desertificação, e porque um solo leva séculos a formar-se e perde-se numa estação, o que faz dele, à escala das nossas decisões, exatamente aquilo que era o gado de Hélios, um stock que não repõe o que se lhe tira. Temos os avisos, entregues há décadas e assinados por quem de direito. E temos a fatura, cobrada duas vezes só este ano, primeiro com as sete tempestades de janeiro e fevereiro que custaram ao país mais de 5,3 mil milhões de euros, valor que o Governo levou ao Fundo de Solidariedade da União Europeia, e depois em julho, quando 91% da área ardida veio de incêndios classificados como extremos e mais de 15.000 hectares arderam numa só semana.

A diferença entre nós e Euríloco é que ele apenas tinha fome.

O tear de Penélope

Em Ítaca, e durante três anos, Penélope tecia de dia e desfazia de noite a mortalha de Laertes, tendo prometido escolher marido de entre os pretendentes quando a acabasse, e assim foi atravessando o tempo sem ter de decidir coisa nenhuma, o que é o retrato mais exato e mais incómodo do nosso comportamento coletivo que a literatura alguma vez produziu.

Em agosto tecemos, com comissões, culpados e planos, e em novembro desfazemos. Em 2025 o sistema de gestão integrada de fogos rurais absorveu cerca de 600 milhões de euros, com 54% aplicados em prevenção, e mesmo assim 84% da área ardida ocorreu em zonas classificadas com perigosidade alta ou muito alta, o que quer dizer que ardeu onde já sabíamos que ia arder. O fogo controlado, a ferramenta mais barata que temos, ficou abaixo de metade da meta anual. E a meio da década Portugal já consumiu 98% de toda a área que estava previsto poder arder até 2030.

Em abono de Penélope, ela não tinha poder para expulsar ninguém de casa e o tear era a única arma disponível. Nós temos poder, temos orçamento e temos relatórios a acumular há décadas. O que herdámos dela foi só o tear, mas mesmo assim somos peritos em enlear tudo.

A corda e o mastro

Há um episódio em que Ulisses acerta de uma forma que ainda hoje se estuda, e é quando decide ouvir o canto das sereias sabendo que quem o ouve morre, e em vez de prometer a si mesmo que resistirá tapa os ouvidos da tripulação com cera, manda amarrar-se ao mastro, e deixa uma ordem prévia que é a coisa mais adulta da Odisseia inteira, a de que se ele suplicar para ser solto o apertem com mais cordas ainda.

Ulisses não confia na sua futura força de vontade, e por isso torna a fraqueza inoperante antes de ela chegar, amarrando-se enquanto ainda está lúcido, que é a única altura em que alguém se amarra.

É para isso que servem as metas vinculativas. O Regulamento (UE) 2024/1991 obriga os Estados-Membros a restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas até 2030, e a pôr em recuperação, até 2050, todos os ecossistemas que dela careçam. A Diretiva de Monitorização do Solo, aprovada em outubro de 2025, obriga cada Estado a montar um sistema de monitorização de carbono orgânico, erosão, nutrientes e contaminação do solo, e Portugal chega a essa obrigação sem sistema nacional de monitorização, com a Lei ProSolos por concluir desde uma consulta pública de há quase uma década. Deram-nos corda, mas continuamos a preferir o canto das sereias.

Ítaca mudou

Nolan optou por contar a história fora da ordem cronológica, e a escolha é acertada, porque a Odisseia é menos uma viagem do que uma chegada observada de vários ângulos, e metade do poema passa-se já em Ítaca, onde Ulisses desembarca ao fim de vinte anos para não encontrar nada daquilo que deixou, a casa ocupada por mais de cem homens que lhe comem a fazenda, o filho transformado num adulto que nunca o viu, o pai retirado no campo, e à porta o cão Argos, deitado no estrume, que ergue a cabeça e abana a cauda sem forças para se levantar e morre no instante exato em que o reconhece.

Ítaca continua lá, mas não é a mesma ilha, e ele não é o mesmo homem.

É a lição que falta a quase toda a conversa sobre ambiente. O regresso cumpre-se e a nostalgia não. Restaurar não nos devolve o clima de 1990 nem a paisagem de 1960. Devolve função a um território que mudou de dono, de uso, de clima e de gente, e devolve-a com as espécies e as condições que temos hoje. Quem prometer a ilha intacta está a vender bilhete para uma viagem impossível.

E repare-se em como Ulisses chega, sem exército, disfarçado de mendigo, a retomar a casa com o que tem à mão. Qualquer semelhança com a situação portuguesa em 2026 é pura coincidência.

O arco

Ulisses retoma a casa com um arco que esteve guardado na despensa todo o tempo em que os pretendentes infernizaram Penélope e Telémaco, e que nenhum deles conseguiu sequer armar. O nosso instrumento também já está em casa, e também ainda ninguém lhe pegou para o tornar funcional.

O Plano Nacional de Restauro da Natureza está em consulta pública no portal Participa até 19 de agosto, promovido pelo ICNF, e tem de chegar a Bruxelas até 1 de setembro. Traz mais de quatrocentas medidas, identifica 260 km² de restauro prioritário, compromete três milhões de árvores por ano até 2030 e 44.000 hectares de restauro florestal, e integra o PRO~RIOS, que recupera 1.500 quilómetros de linhas de água até ao final da década. Organiza-se em torno de 500 milhões de euros por ano, mobilizando o Portugal 2030, a Política Agrícola Comum, o Fundo Ambiental, os EEA Grants e uma expectativa declarada de crescimento do investimento privado.

É nessa última cláusula que a década se decide, e é aí que o calendário europeu favorece quem se mexer já. A Comissão publicou em julho de 2025 o Roteiro para os Créditos de Natureza, que estima em 65 mil milhões de euros a necessidade anual de investimento em biodiversidade na União, compromete 10% do orçamento comunitário com biodiversidade em 2026-2027, e avisa que os riscos de clima e de Natureza podem custar às empresas até 7% dos lucros na próxima década. Em meados de 2026, portanto agora, o grupo de peritos entrega os critérios e as metodologias. Em 2027 saem o quadro de certificação e os princípios de governance.

Uma carteira de projetos de restauro credível leva cerca de dois anos a montar, que é exatamente o tempo que falta, e daí que a quem gere território valha levar diagnóstico à consulta em vez de opinião, a quem tem balanço exposto a Natureza valha estruturar projetos antes de o quadro de certificação sair, porque o dinheiro não espera pela carteira, e a quem detém terra convenha reter o essencial, que o Regulamento obriga os Estados-Membros e deixa o restauro voluntário do lado privado, o que significa que quem se antecipa escolhe as condições em que participa e quem chega tarde recebe-as feitas.

A avaliação de impacto da Comissão estima que cada euro investido em restauro gere entre 8 e 38 euros de benefício societal agregado até 2050. É retorno para a sociedade, e a distinção importa a quem quiser usar o número sem o ver desfeito à primeira pergunta.

O gado de Trinácia não voltou a crescer. O solo também não volta sozinho, e o que ardeu este mês não se recompõe em nenhum horizonte de mandato. Mas Ítaca ainda está lá, e há uma diferença decisiva entre a nossa situação e a de Euríloco. Nós não temos fome. Temos um plano em cima da mesa, temos as cordas já atadas ao mastro, e temos até 19 de agosto para dizer o que queremos que ele diga.

Enchemos as salas para ver um homem levar vinte anos a chegar a casa. A parte difícil da história começa quando ele chega, e essa não se resolve em IMAX.

O regresso de Ulisses não tinha prazo. O nosso tem.

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