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Quando o clima aumenta o preço da compra da casa
Para os bancos comerciais, a mensagem é clara: compreender os riscos climáticos deixa de ser apenas uma questão de reporte ESG ou de reputação. Passa a fazer parte da gestão prudente do risco. Por Sofia Santos, CEO da Systemic Sphere.
12 Ago 2026 - 06:22
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Sofia Santos, CEO da Systemic Systemic Sphere
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Sofia Santos, CEO da Systemic Systemic Sphere
Durante décadas, os bancos avaliaram empréstimos com base em variáveis relativamente conhecidas: rendimento, garantias, histórico de crédito, setor de atividade ou valor dos ativos. A partir de agora os bancos europeus sentem uma pressão adicional para incluir o risco climático nesta análise, incluindo nos empréstimos à habitação.
Recentemente o Banco Central Europeu (BCE) decidiu alargar a utilização de fatores climáticos na avaliação dos créditos a empresas utilizados como garantia junto do Eurosistema. Esta decisão é mais um sinal de que os riscos associados à transição climática passaram a ser considerados riscos financeiros. O objetivo é proteger o sistema financeiro de potenciais perdas resultantes de alterações nas políticas climáticas, avanços tecnológicos, mudanças de comportamento dos consumidores ou ajustamentos económicos decorrentes da transição para uma economia de baixo carbono.
À primeira vista, esta medida parece distante da realidade de empresas e famílias. Ou talvez já não é tão distante, se nos lembrarmos das perdas de mais de 5 mil milhões de euros que ocorreram no primeiro trimestre de 2026 com o comboio de tempestades que tivemos em Portugal. Não resta dúvidas de que os impactos destes riscos podem ser significativos para empresas, famílias e, como consequência, para os bancos.
Para os bancos comerciais, a mensagem é clara: compreender os riscos climáticos deixa de ser apenas uma questão de reporte ESG ou de reputação. Passa a fazer parte da gestão prudente do risco. Se uma empresa opera num setor altamente exposto à descarbonização, ou se os seus ativos podem perder valor devido a novas exigências regulatórias ou tecnológicas, essa informação torna-se relevante para a avaliação da sua capacidade futura de gerar receitas e cumprir obrigações financeiras.
Para uma empresa que procura financiamento, isto significa que os bancos poderão olhar com mais atenção para fatores que até há poucos anos raramente eram discutidos numa reunião de crédito. O consumo energético, a dependência de combustíveis fósseis, a exposição a futuras taxas de carbono ou a capacidade de adaptação a novas exigências ambientais poderão influenciar a perceção de risco do financiador. Empresas mais preparadas para a transição climática poderão beneficiar de melhores condições de financiamento, enquanto organizações mais vulneráveis poderão enfrentar um escrutínio acrescido.
Mas o impacto não se limita ao financiamento empresarial.
Também o crédito à habitação poderá sofrer uma evolução gradual. Quando um banco financia a compra de uma casa, está igualmente a avaliar o valor futuro do imóvel que serve de garantia ao empréstimo. Uma habitação localizada numa zona vulnerável a inundações, erosão costeira ou incêndios florestais pode estar sujeita a riscos que afetam o seu valor ao longo do tempo. Da mesma forma, edifícios pouco eficientes do ponto de vista energético poderão enfrentar custos acrescidos de utilização e reabilitação.
Isto não significa que os bancos deixarão de conceder crédito nessas circunstâncias. Significa, sim, que fatores como a resiliência climática dos edifícios, o desempenho energético ou a exposição a fenómenos climáticos extremos poderão ganhar relevância crescente nas avaliações de risco e de valorização dos imóveis.
Para os cidadãos, a consequência é simples: o valor de longo prazo de uma habitação deixa de ser apenas uma questão manutenção do ativo, passando agora também pela capacidade do ativo em ser eficiente a nível energético e resiliente ao impacto das alterações climáticas.
Para as empresas, a mensagem é semelhante. A capacidade de adaptação às alterações climáticas deixa de ser apenas uma preocupação dos departamentos de sustentabilidade e passa a influenciar o acesso ao capital.
O BCE está, no fundo, a reconhecer uma realidade que se torna cada vez mais evidente: numa economia sujeita a riscos climáticos crescentes, ignorar o clima significa ignorar o risco. E quando os riscos aumentam, os bancos, os investidores, as empresas e os cidadãos acabam inevitavelmente por sentir os seus efeitos.
O que está a acontecer não é apenas uma mudança técnica nos modelos de supervisão bancária. É uma mudança de paradigma. O clima está a entrar na análise de crédito. Neste contexto a obrigatoriedade legal de reportar as práticas de ESG deixa de ser tão relevante, uma vez que o mercado – os bancos e financiadores – vai solicitar evidências das práticas de ESG pelas empresas. Quando é o credor e financiador que pede, então a obrigatoriedade legal é ultrapassada pela exigência de mercado. Quando aqui chegamos, podemos assumir que a falha de mercado já não existe e que cabe então aos agentes económicos encontrar soluções para a gestão dos riscos climáticos. Não sei já estamos nesta fase, mas para lá caminhamos.
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