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Cidades do interior: viver com qualidade
No vasto interior despovoado do centro e norte há ativos reais que não podem continuar a ser ignorados pela distância aos centros de decisão. Por António Espinha Monteiro, biólogo e presidente da Faia Brava - Associação de Conservação da Natureza
27 Jul 2026 - 06:13
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António Espinha Monteiro, presidente da Faia Brava
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António Espinha Monteiro, presidente da Faia Brava
A Guarda é reconhecida como a cidade mais alta de Portugal, com o ponto mais elevado a 1 056 metros, encostada ao último contraforte da Serra da Estrela. É uma altitude que se sente no ar puro, no frio seco e na neve que ali ninguém estranha. É dali que nascem linhas de água que alimentam três das maiores bacias hidrográficas da Península Ibérica: Tejo, Douro e Mondego. A poucos quilómetros, em Vale de Estrela, há um ponto triplo onde essas três bacias se tocam.
A cidade tem cerca de 26 mil habitantes no perímetro urbano e pouco mais de 40 mil no concelho. De fora, essa escala parece pequena. Por dentro, vive-se de outra maneira: percorre-se tudo a pé, conhecem-se as caras, e a cidade tem vida própria, sossegada, mas nunca parada. Tem atividade, comércio, serviços, uma agenda cultural interessante, espaços arejados e uma ruralidade discreta que não a diminui; pelo contrário, aproxima-a do território que a rodeia. Falo também da experiência de quem teve o privilégio de ali viver quase três anos, entre 2022 e 2025, e de quem vive neste distrito há mais de três décadas. Gosto de a imaginar como uma Coimbra mais pequena, ou uma Pinhel em escala grande. Há ali proximidade genuína, pessoas afáveis e um orgulho claro de pertencer à cidade mais alta do país.
A Guarda tem origem medieval e durante séculos teve um papel relevante na economia serrana, escoando lã, carne, madeira e outros recursos da Serra da Estrela para o litoral. Essa economia perdeu força com o declínio agropecuário e com o encerramento das indústrias que ainda resistiam há poucas décadas.
A partir dos anos sessenta, o êxodo rural e a emigração atrofiaram a cidade, como aconteceu a tantas outras do interior. A Guarda esvaziou-se, mas não morreu. Salvaram-na âncoras concretas: o Instituto Politécnico, alguma indústria, o hospital, os serviços públicos próprios de uma capital de distrito e o seu papel comercial regional. Mais recentemente, juntou-se o turismo, apoiado na natureza, no património, na escala humana e em novos atrativos como os Passadiços do Mondego.
Entre os aspetos diferenciadores estão as áreas verdes. O Parque da Saúde é impressionante, com um núcleo de sequoias muito pouco comum no país, uma mancha arbórea centenária que merece ser visitada. Há ainda o Parque da Cidade, a zona Polis junto ao rio Diz e várias pracetas arborizadas, muitas com tílias magníficas. A neve no inverno faz parte do quotidiano. Quem sobe à Torre de Menagem encontra uma vista extraordinária sobre a cidade e a serra.
Há também um detalhe que poucos conhecem, mas que para mim, como ornitólogo, é especial. A Guarda é uma cidade onde as aves de montanha entram claramente no tecido urbano e onde, pela minha experiência, a estrelinha-real, Regulus ignicapilla, encontra boas condições nas zonas verdes. É uma das aves mais pequenas da Europa, e tê-la com presença regular dentro da cidade é sinal raro de qualidade ecológica.
A posição encostada à serra explica a verticalidade da Guarda, vivida em patamares mais do que em encostas agressivas. A distribuição do casario em redor da montanha, expandindo-se para o vale do rio Diz, torna-a aprazível e legível. Percorre-se a pé ou de bicicleta elétrica, do centro histórico medieval aos bairros recentes, com relativa facilidade. Vista de longe, a cidade aparece concentrada, branca e altiva, recortada contra a serra. Sabe-se onde acaba o campo e começa a zona urbana, sem a mancha difusa de tantas cidades portuguesas.
Do ponto de vista rodoviário, a Guarda tem uma das melhores posições do interior português para ligação a Espanha e, por aí, à Europa. O cruzamento da A25 com a A23 liga-a a Espanha, Aveiro, Porto, Madrid e ao eixo interior Covilhã–Castelo Branco. Pode afirmar-se como um dos pontos estratégicos de ligação rodoferroviária de Portugal à Europa. A linha da Beira Alta e a linha da Beira Baixa dão-lhe uma realidade ferroviária muito especial, que pode ser decisiva no futuro. Mais do que um destino isolado, a Guarda pode ser lida como um eixo de ligação.
A cidade tem contradições. A construção de pouca qualidade estética e o urbanismo caótico dos anos oitenta e noventa atacaram-na como atacaram tantas outras. Mas talvez a atitude mais grave tenha sido um certo marasmo, que hoje começa a ser contrariado por uma nova consciência do valor da cidade, da sua posição estratégica e da qualidade de vida que pode oferecer.
Esta capital de distrito merece crescer proporcionalmente ao que tem de positivo. Precisa de ambição ferroviária, seja no cenário convencional, seja numa futura linha de alta velocidade. Precisa de consolidar a sua vocação logística e de porto seco, potenciar espaços de estudo, investigação e inovação, afirmar-se como cidade desportiva de altitude e aproveitar aquilo que o distrito tem em abundância: espaço, natureza, montanhas, vales selvagens e pequenas bolsas agrícolas com elevado potencial para produtos de qualidade.
Mas, de novo, a sua maior aptidão para crescer vem da geografia e da capacidade que tem para integrar um eixo urbano chave do interior: Viseu, Guarda, Covilhã e Castelo Branco. Estas cidades podem funcionar como uma espinha dorsal da raia ibérica.
Na prática e no presente, é aqui que podem nascer novos sonhos: turismo de natureza, agricultura regenerativa, conservação, nómadas digitais, empresas ligadas ao território e investidores que procurem paisagem, identidade e futuro. A escala humana não é uma limitação. É a base de uma vida com sentido. A Guarda tem de acrescentar mais um F à sua história: tem de ser também a cidade do Futuro.
No vasto interior despovoado do centro e norte há ativos reais que não podem continuar a ser ignorados pela distância aos centros de decisão. Falo da Guarda porque é a que conheço por dentro, mas o raciocínio estende-se a outras cidades e capitais regionais do interior com perfil semelhante: Castelo Branco, Vila Real, Bragança, Portalegre, Covilhã. Viseu é talvez o caso mais avançado, com uma dinâmica própria que as outras ainda não alcançaram, mas que mostra que é possível. Onde o litoral está sobrepovoado, aqui há espaço. Onde o litoral se tornou caro e sufocante, aqui há natureza, escala humana e espaço para sonhos. Portugal não pode continuar a pensar-se apenas como um país à beira-mar plantado. Precisa de voltar a olhar, com inteligência e ambição, para o seu interior e para as suas montanhas!
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