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O posto de abastecimento pode desaparecer antes do combustível?
Alguns postos desaparecerão. Outros tornar-se-ão grandes hubs energéticos e de mobilidade. E outros poderão sobreviver precisamente porque deixarão de ser apenas locais onde compramos energia. Por Luis Monge, coordenador de Operações de Rede
16 Set 2026 - 06:42
6 min leitura
Luis Monge, coordenador de Operações de Rede
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- Fundo Ambiental canaliza 3,8 ME para fomentar cogestão das áreas protegidas
- ADENE apresenta simulador de mobilidade elétrica para apoiar a transição para veículos limpos
Luis Monge, coordenador de Operações de Rede
Durante décadas, a lógica foi simples: precisávamos de energia para o automóvel e, por isso, deslocávamo-nos a um posto de abastecimento. A transição energética está a começar a desfazer esta relação.
Em agosto, 36,1% dos ligeiros de passageiros novos matriculados em Portugal eram 100% elétricos. No acumulado do ano, já representavam 26,8%. Ao mesmo tempo, circulam no país cerca de 6,2 milhões de ligeiros de passageiros, com uma idade média de 14,3 anos.
Esta aparente contradição ajuda a perceber o desafio: a eletrificação dos veículos novos pode avançar rapidamente, mas transformar todo o parque automóvel demora muito mais tempo.
Os combustíveis mostram-no bem. Segundo os dados de introduções no consumo da Autoridade Tributária, entre janeiro e agosto de 2026 foram introduzidos no consumo, no Continente, 4,549 mil milhões de litros de gasolina e gasóleo rodoviário. É menos 1,17% do que no mesmo período de 2025 e, talvez mais surpreendente, mais 1,55% do que em 2019, antes da pandemia.
O combustível não vai, portanto, desaparecer amanhã. Mas o posto pode ter de mudar muito antes disso.
Uma transição que dificilmente terá uma única energia
Entre o parque que temos hoje e uma eventual eletrificação generalizada existe uma longa distância. E essa transição dificilmente será monoproduto.
Os próximos anos serão marcados pela coexistência de diferentes soluções. A eletricidade ganhará progressivamente espaço, mas combustíveis fósseis, biocombustíveis avançados e combustíveis sintéticos poderão desempenhar papéis diferentes consoante o tipo de mobilidade, a maturidade tecnológica e a sua competitividade.
Portugal já estabeleceu metas crescentes de incorporação de combustíveis de baixo teor em carbono nos transportes: 13% em 2025, 14% em 2027 e 16% a partir de 2029. Para biocombustíveis avançados e biogás existe uma trajetória própria que chega aos 10% em 2030.
Há ainda uma dimensão que ganhou importância no atual contexto geopolítico: soberania energética.
Portugal continuava, em 2025, com uma dependência energética de 64,9%. Desenvolver eletricidade renovável e soluções renováveis para substituir progressivamente produtos fósseis importados não é apenas uma questão ambiental. É também uma discussão sobre segurança de abastecimento, competitividade e capacidade de preservar soluções para equipamentos que não serão substituídos de um dia para o outro.
Também não devemos assumir que todos os segmentos eletrificarão à mesma velocidade. Nos veículos pesados, a oferta elétrica está a evoluir rapidamente e a Comissão Europeia reconhece que já existem soluções nos diferentes segmentos. Mas o investimento nos veículos, as necessidades de potência, a infraestrutura de carregamento e as exigências operacionais tornam a transformação particularmente exigente.
Os apoios e o financiamento poderão acelerar esse processo. Mas não eliminam essas condicionantes.
Nem todos os postos têm o mesmo futuro
É aqui que considero importante deixarmos de falar genericamente no “futuro dos postos”.
Um posto localizado numa autoestrada ou num grande eixo rodoviário ocupa um ativo que continuará a ser valioso: localização, acessibilidade e fluxo de mobilidade.
Hoje fornece sobretudo combustíveis líquidos. Amanhã poderá combinar combustíveis renováveis com carregamento elétrico rápido ou ultrarrápido. A própria regulamentação europeia aponta nesse sentido, impondo infraestrutura de carregamento ao longo dos principais corredores europeus e requisitos específicos para veículos pesados.
Nestes locais, talvez o desafio não seja justificar a existência do posto, mas decidir que energias e serviços deverá disponibilizar.
O verdadeiro desafio poderá estar nos postos marginais – urbanos, periurbanos ou em localizações onde o fluxo de mobilidade não seja suficiente para justificar grandes investimentos em novas infraestruturas.
Porque a eletricidade introduz uma alteração fundamental: a energia deixa de obrigar à paragem e passa a poder aproveitar paragens que já existiam.
Portugal dispõe já de mais de 15.800 pontos de carregamento na rede conectada à MOBI.E, e o carregamento pode acontecer em casa, no trabalho, num supermercado, num hotel ou num centro comercial.
Se o consumidor deixar de precisar de se deslocar propositadamente ao posto para obter energia, teremos de responder a outra pergunta:
O que o fará parar?
E se o posto deixar de ser apenas um posto?
Talvez parte da resposta esteja naquilo que já aconteceu noutros setores.
Em Portugal assistimos à transformação de várias redes físicas. Os serviços postais passaram a recorrer também a estabelecimentos parceiros. A rede de pagamentos CTT/Payshop conta atualmente com cerca de 7.000 pontos presenciais, incluindo aproximadamente 5.000 agentes instalados em negócios de proximidade como papelarias, tabacarias, quiosques e supermercados. A rede Collectt agrega ainda lojas e pontos CTT, agentes Payshop e cacifos Locky para entrega e recolha de encomendas.
Ao mesmo tempo, bancos encerraram balcões e transferiram cada vez mais operações para canais digitais.
Por que razão um posto de abastecimento não poderá fazer o percurso inverso e agregar serviços que estão a abandonar estruturas físicas próprias?
Recolha e devolução de encomendas, cacifos, serviços postais, pagamentos, serviços digitais assistidos ou pequenas operações logísticas são apenas algumas possibilidades. Não significa que todos os postos devam fazer tudo. Significa reconhecer um ativo que talvez estejamos a subvalorizar: uma rede física distribuída pelo território, acessível, com horários alargados e presença humana.
Para aproveitar esse ativo teremos, contudo, de repensar também a operação.
Pagamentos digitais, automatização, self-checkout, monitorização remota e Inteligência Artificial podem retirar progressivamente aos operadores tarefas repetitivas, administrativas ou associadas ao manuseamento de produtos e meios de pagamento de maior risco.
Curiosamente, isto não significa necessariamente retirar pessoas.
Pode significar exatamente o contrário: usar mais tecnologia para devolver tempo às pessoas.
O setor já viveu uma transformação semelhante quando o abastecimento passou, em grande medida, do operador para o próprio cliente. A próxima poderá libertar o operador de outras tarefas e permitir-lhe concentrar-se onde a presença humana acrescenta mais valor: no atendimento, no apoio ao cliente e na prestação de novos serviços.
Afinal, o posto vai desaparecer?
Provavelmente alguns desaparecerão. Outros tornar-se-ão grandes hubs energéticos e de mobilidade. E outros poderão sobreviver precisamente porque deixarão de ser apenas locais onde compramos energia.
O erro talvez esteja em imaginar que todos terão o mesmo futuro.
A eletrificação está a avançar, mas Portugal continuará durante muitos anos a gerir simultaneamente veículos elétricos, híbridos e milhões de motores de combustão. E, pelo caminho, diferentes formas de energia irão competir e complementar-se.
O desafio não começa quando o último litro de combustível for vendido.
Começa quando vender energia deixa de ser, por si só, razão suficiente para garantir uma visita.
Durante décadas perguntámos quantos litros um posto conseguia vender.
Talvez a pergunta decisiva para alguns postos do futuro seja outra: quantas razões consegue criar para que uma pessoa pare ali?
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