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E se amanhã os seus trabalhadores não conseguirem chegar à empresa?
Uma onda de calor não significa apenas temperaturas mais elevadas. Significa pessoas que trabalham mais lentamente, equipamentos que aquecem, maior necessidade de refrigeração, absentismo, problemas de saúde e atividades que podem ter de ser interrompidas. Por Sofia Santos, PhD, CEO da Systemic Sphere
09 Set 2026 - 06:52
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Sofia Santos, CEO da Systemic Systemic Sphere
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Sofia Santos, CEO da Systemic Systemic Sphere
Falamos muito de riscos climáticos. Mas talvez ainda falemos pouco sobre o que eles realmente significam para uma empresa.
E os números começam a ser difíceis de ignorar.
O Reino Unido acaba de viver o verão mais quente desde que existem registos, em 1884. Uma análise publicada em agosto estima que, só até ao final de julho, as sucessivas ondas de calor de 2026 terão provocado £4,4 mil milhões de perdas de produção económica. Só em junho, as perdas estimadas ascenderam a £2,36 mil milhões.
Londres estima já perder £577 milhões por ano em produtividade devido às temperaturas elevadas.
Em Portugal tivemos outro tipo de choque. A sucessão de tempestades entre 22 de janeiro e 15 de fevereiro deste ano provocou, segundo o Governo, mais de €5,3 mil milhões de prejuízos. Infraestruturas, habitações, equipamentos, ativos naturais e capacidade produtiva foram afetados.
E continuamos, muitas vezes, a olhar para estes acontecimentos como uma questão “ambiental” fora das preocupações dos Conselhos de Administração.
Não é.
É risco operacional e risco financeiro.
Uma onda de calor não significa apenas temperaturas mais elevadas. Significa pessoas que trabalham mais lentamente, equipamentos que aquecem, maior necessidade de refrigeração, absentismo, problemas de saúde e atividades que podem ter de ser interrompidas.
Uma tempestade não representa apenas árvores caídas ou casas inundadas. Pode significar trabalhadores que não conseguem chegar ao emprego, instalações sem eletricidade, telecomunicações interrompidas, estradas fechadas ou fornecedores que deixam de conseguir entregar.
E uma empresa pode não ser diretamente atingida pelo evento climático e, mesmo assim, não conseguir funcionar.
Há exemplos que mostram como estas interdependências podem chegar muito mais longe do que imaginamos.
Neste verão, o calor obrigou a desligar uma central nuclear na Suíça. Não porque a central tivesse sido atingida por um incêndio. Não porque tivesse ocorrido uma avaria. Mas porque a água do rio Aare, utilizada para a sua refrigeração, atingiu os 25°C. A central nuclear de Beznau começou por reduzir a produção dos seus dois reatores para 50% e, em junho, acabou por os retirar temporariamente da rede. Ao longo do verão, as elevadas temperaturas da água voltaram a provocar reduções de produção e novas interrupções. Estamos a falar de uma central que, num ano normal, produz eletricidade equivalente a cerca de 10% da procura suíça.
Este exemplo mostra aquilo a que muitas vezes não prestamos atenção quando falamos de risco climático: as dependências.
Uma empresa pode não ser atingida por uma inundação, um incêndio ou uma onda de calor. Mas depende de eletricidade. Depende de água. Depende da temperatura da água. Depende de telecomunicações. Depende de estradas, portos e caminhos-de-ferro. Depende de trabalhadores. Depende de fornecedores que, por sua vez, dependem de outras infraestruturas.
E basta que uma dessas peças deixe de funcionar para que aquilo que começou como um risco climático se transforme rapidamente num risco operacional e financeiro.
Talvez seja esta a pergunta que falta em muitos mapas de risco empresarial: De que depende realmente a minha empresa para conseguir funcionar amanhã?
Há ainda algo que os balanços dificilmente mostram: as pessoas.
Só durante as ondas de calor de maio e junho deste ano foram estimadas 2.877 mortes associadas ao calor em Inglaterra.
Os trabalhadores não deixam os impactos climáticos à porta da empresa. Podem ter a casa inundada, familiares numa zona de incêndio, filhos com a escola encerrada, transportes interrompidos ou simplesmente enfrentar condições de temperatura incompatíveis com a forma como tradicionalmente organizámos o trabalho.
Por isso, talvez seja altura de começarmos a fazer perguntas diferentes.
Quantos dos nossos trabalhadores estão expostos a calor extremo? O que acontece se 20% não conseguir chegar ao trabalho? Durante quanto tempo conseguimos operar sem eletricidade? E sem água? Onde estão os nossos fornecedores críticos? Que infraestruturas utilizamos para fazer chegar os nossos produtos aos clientes? Temos alternativas?
E se amanhã acontecer connosco aquilo que hoje estamos a ver acontecer noutro país europeu?
Durante muitos anos discutimos alterações climáticas essencialmente em termos de emissões e descarbonização. Temos agora de acrescentar outra palavra a esta discussão: adaptação.
Talvez ainda estejamos a gerir as empresas, infraestruturas e formas de organização do trabalho com base num pressuposto que deixou de ser verdadeiro: o de que o clima de amanhã será aproximadamente igual ao clima de ontem.
Não será.
E é por isso que o risco climático já é risco operacional. E risco operacional é risco de negócio.
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