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A COP que não vemos

Uma COP não é uma conferência no sentido habitual da palavra. É uma negociação multilateral: quase duas centenas de países procuram chegar a decisões comuns sobre questões que vão da redução de emissões ao financiamento climático. Por Ana Dias, Investigadora no Centro de Investigação em Ciência Política (CICP) da Universidade do Minho e consultora internacional em governação do clima e da biodiversidade.

14 Set 2026 - 06:50

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Ana Dias, Investigadora no Centro de Investigação em Ciência Política (CICP), Universidade do Minho e consultora internacional em governação do clima e da biodiversidade.

Ana Dias, Investigadora no Centro de Investigação em Ciência Política (CICP), Universidade do Minho e consultora internacional em governação do clima e da biodiversidade.

A imagem que chega ao público de uma COP (Conferência das Partes) é quase sempre a mesma: um grande auditório, bandeiras alinhadas, chefes de Estado a discursar perante dezenas de câmaras. É a parte mais visível, mas a menos representativa daquilo que realmente decide o resultado.

Uma COP não é uma conferência no sentido habitual da palavra. É uma negociação multilateral: durante cerca de duas semanas, quase duas centenas de países procuram chegar a decisões comuns sobre questões que vão da redução de emissões ao financiamento climático. No caso da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a COP é o principal órgão de decisão dos países que dela fazem parte.

Para perceber uma COP, é preciso olhar para além do palco.

Quem acompanha estas negociações de perto aprende rapidamente que um texto raramente nasce no plenário onde será finalmente adotado. Antes disso, passa por sucessivas rondas de negociação, consultas e reuniões mais pequenas. É aí que entram as chamadas informal informals: reuniões entre um número reduzido de delegações, convocadas para tentar resolver os pontos mais difíceis de uma negociação.

É difícil transmitir a importância desta linguagem a quem está de fora. Mas, numa negociação internacional, uma palavra pode fazer uma diferença considerável. Pode alterar o alcance de um compromisso, determinar se uma formulação é vinculativa ou meramente recomendatória, ou influenciar a forma como uma decisão será posteriormente implementada.

Ninguém negoceia sozinho.

Outro erro comum é imaginar que cada país chega a uma COP com uma posição e simplesmente a defende. Na prática, grande parte da negociação passa por grupos e coligações que coordenam posições antes (e muitas vezes durante) as sessões. A União Europeia negoceia enquanto bloco; o G77 e a China reúne um conjunto muito diverso de países em desenvolvimento; grupos como a AOSIS, que representa pequenos Estados insulares, defendem prioridades próprias.

Mas estas alianças não são estáticas. Um país pode estar alinhado com determinado grupo numa questão e com outros parceiros noutra. As posições mudam consoante o tema em discussão: financiamento, mitigação, adaptação ou perdas e danos. Esta geometria variável, muito menos visível do que os discursos, ajuda a explicar porque é que uma negociação pode parecer bloqueada durante dias e avançar subitamente numa determinada noite.

Á medida que o encerramento se aproxima, o relógio ganha importância.

Quem já acompanhou uma COP sabe que o horário oficial raramente conta toda a história. As reuniões acumulam-se, os textos mudam de versão e as delegações continuam a negociar quando a maioria das pessoas já estaria a dormir. O cansaço é uma realidade física destas conferências, mas também uma variável política: quanto mais perto do fim, maior é a pressão para encontrar compromissos.

Mas há ainda uma parte desta história que merece mais atenção: nem todos os que influenciam uma COP estão sentados à mesa de negociação: Cientistas, organizações não governamentais, povos indígenas, redes de cidades e governos regionais e outras organizações observadoras não têm voto nas decisões das Partes. Têm, no entanto, conhecimento, dados, capacidade técnica e acesso a redes políticas que podem influenciar o debate. A sua intervenção acontece através de briefings, eventos paralelos, reuniões bilaterais e conversas nos corredores.

Quem acompanha estas negociações presencialmente percebe rapidamente uma diferença entre estar numa COP e vê-la de fora. No plenário, ouvimos posições oficiais. Nos corredores, nas reuniões paralelas e nas conversas entre sessões, percebemos muitas vezes onde estão realmente os pontos de fricção, mas também onde começam a surgir possibilidades de compromisso.

É aqui que a imagem tradicional da diplomacia climática fica incompleta.

O sistema internacional continua formalmente organizado em torno dos Estados, mas uma parte importante da implementação acontece muito mais perto das pessoas. Cidades e governos regionais têm responsabilidades sobre transportes, ordenamento do território, habitação, infraestruturas e gestão de recursos. O próprio IPCC reconhece o papel crescente dos governos subnacionais na ação climática.

E é também por isso que o próximo outono será particularmente interessante.

A COP17 da Biodiversidade, em Yerevan, e a COP31 do Clima, em Antalya, realizam-se com poucas semanas de intervalo. Apesar de tratarem agendas diferentes, ambas terão de responder a desafios que estão cada vez mais interligados e cuja implementação acontece, em grande medida, nos territórios.

Quando os resultados forem anunciados, será tentador reduzi-los a uma manchete: sucesso ou fracasso, ambição ou desilusão. Mas para perceber o que realmente aconteceu, é preciso olhar para o que veio antes.

Mas talvez valha a pena olhar um pouco mais fundo.

Uma COP não se decide no palco. Decide-se nas salas onde quase ninguém está a fotografar, nas coligações que mudam de forma, nas palavras que sobrevivem a horas de negociação e, muitas vezes, quando já passa das três da manhã. É aí que começa a história que o público quase nunca vê.

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