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Crise no Estreito de Ormuz agrava pobreza energética global e ameaça acesso a gás para cozinhar
Escalada do conflito no Médio Oriente provoca colapso nas exportações de GPL, faz disparar preços e coloca milhões de famílias perante o risco de voltar a usar lenha e carvão para cozinhar.
18 Mai 2026 - 07:01
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A crise energética desencadeada pelo conflito no Médio Oriente está a provocar uma das mais graves perturbações globais no abastecimento de combustíveis das últimas décadas, afetando de forma particularmente severa os países emergentes e em desenvolvimento. O alerta é lançado pela Agência Internacional de Energia (AIE), que destaca o impacto crescente da escassez de gás de petróleo liquefeito (GPL), combustível utilizado diariamente por cerca de 3,4 mil milhões de pessoas para cozinhar.
Segundo a análise, as perdas de petróleo nos mercados internacionais em março de 2026 ultrapassaram, num único mês, o pico combinado das duas grandes crises petrolíferas da década de 1970. Desta vez, porém, a consequência mais imediata não se limita aos transportes ou ao aquecimento doméstico. Os analistas destacam que milhões de famílias estão a enfrentar dificuldades acrescidas para garantir algo tão básico como cozinhar uma refeição.
“Quase todo o GPL exportado do Médio Oriente em 2025 foi destinado à Ásia. Cerca de 60% dos volumes exportados para a região destinavam-se a cozinhar em habitações, restaurantes, vendedores ambulantes e outros estabelecimentos comerciais ou públicos. Esta quantidade era suficiente para responder às necessidades de cozinha de 820 milhões de pessoas”, pode ler-se no comentário assinado por analistas da AIE.
No centro da crise está o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde transitavam, em 2025, cerca de 30% das exportações marítimas mundiais de GPL. Com a redução do tráfego marítimo nesta região, as exportações de GPL através do estreito caíram cerca de 80%, passando de 1,5 milhões de barris por dia para apenas 300 mil.
A Ásia é a região mais afetada. Índia e Indonésia, países que nas últimas décadas promoveram campanhas massivas para substituir lenha, carvão e querosene por combustíveis mais limpos, dependem fortemente das importações provenientes do Médio Oriente. Na Índia, onde cerca de 80% das famílias cozinham com GPL, as importações caíram para metade nos primeiros dois meses da crise.
Gráfico AIE: Número de pessoas que utilizam GPL para cozinhar e percentagem do consumo final total de GPL importado através do Estreito de Ormuz

Gráfico: AIE
O Governo indiano respondeu ordenando às refinarias nacionais que aumentassem a produção interna de GPL e impondo medidas para garantir o abastecimento doméstico. Ainda assim, os efeitos já se fazem sentir: aumento acentuado dos preços, limitações no fornecimento a consumidores comerciais e relatos de deslocações de população das cidades para zonas rurais, onde o acesso à lenha e carvão continua disponível, refere a AIE.
A situação também se faz sentir na África subsaariana, onde o GPL tem sido apontado como a solução mais viável para expandir o acesso a cozinhas limpas. Apesar de a região importar pouco combustível diretamente do Golfo, os preços internacionais dispararam até 90% acima da média de 2025, dada a incerteza que se vive no mercado global.
De acordo com estimativas da AIE, cerca de 45% das famílias que utilizam GPL na África subsaariana gastam agora pelo menos mais 1% do rendimento mensal apenas para cozinhar. Em muitos casos, o agravamento chega a representar mais 10% do rendimento familiar, aumentando também aqui o risco de regresso ao uso de combustíveis tradicionais mais poluentes e prejudiciais para a saúde.
A AIE defende que a crise expôs uma vulnerabilidade estrutural pouco debatida, nomeadamente, a dependência global de cadeias de abastecimento frágeis para garantir um bem essencial à sobrevivência humana.
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