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Energias limpas: blindagem ou exposição? Repensar o risco numa era de conflito
A forma como construímos o sistema renovável determina se reduzimos ou se apenas deslocamos a exposição ao risco. Por Ariana Figueiredo Martins | Future Energy Leaders Portugal
24 Jul 2026 - 06:08
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Ariana Figueiredo Martins | Future Energy Leaders Portugal
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Ariana Figueiredo Martins | Future Energy Leaders Portugal
Em abril de 2026, o Banco Mundial projetou uma subida de 24% nos preços da energia. Este é o nível mais alto desde a invasão russa da Ucrânia, desta feita empurrada pela guerra no Médio Oriente. O mesmo relatório revela um dado que devia ocupar a mente de qualquer estratega energético: durante períodos de risco geopolítico elevado, a volatilidade do preço do petróleo é cerca do dobro da registada em períodos de calma, e uma quebra de 1% na produção, por motivos geopolíticos, faz subir os preços, em média, 11,5%.
A narrativa dominante diz-nos que a transição energética é a resposta. Eletrificar, descarbonizar, substituir o barril importado pelo eletrão doméstico. E está certa. Mas seria ingénuo tratar as energias limpas como uma blindagem automática contra a volatilidade. A verdade é mais incómoda: a forma como construímos o sistema renovável determina se reduzimos ou se apenas deslocamos a exposição ao risco.
Uma rede com elevada penetração de solar e eólica troca o risco geopolítico do combustível pelo risco da intermitência. A energia deixa de depender do Estreito de Ormuz, mas passa a depender do vento que sopra e do sol que aparece. Sem capacidade de gerir essa variabilidade, criamos uma rede tecnicamente limpa, mas operacionalmente frágil e a fragilidade técnica converte-se, rapidamente, em fragilidade económica e em picos de preço no mercado grossista.
É aqui que o armazenamento muda a equação. As baterias utility-scale (BESS) não são um acessório da transição: são o mecanismo que transforma geração intermitente em capacidade firme e despachável. Absorvem excedentes, libertam energia nos picos, prestam serviços de sistema e, crucialmente, comprimem a volatilidade de preços que tanto a intermitência como os choques geopolíticos amplificam. Um sistema com armazenamento profundo reage a uma disrupção externa com elasticidade; já um sistema sem esse mecanismo reage com cortes e com preços que disparam.
A lição para economias estruturalmente dependentes de importações energéticas é estratégica antes de ser ambiental. Investir em renováveis sem investir simultaneamente em flexibilidade e armazenamento é substituir uma vulnerabilidade por outra. A verdadeira soberania energética não se mede apenas em megawatts instalados de geração limpa, mas na capacidade da rede para manter-se estável, previsível e acessível quando o mundo lá fora se torna imprevisível.
O conflito geopolítico não vai desaparecer do horizonte. A pergunta que define a próxima década não é se vamos descarbonizar, mas se vamos fazê-lo construindo resiliência ou apenas trocando o risco de lugar.
Nota: Ariana Figueiredo Martins escreve no âmbito de uma parceria mensal entre o Future Energy Leaders Portugal (FELP)e o Jornal PT Green dedicada à análise de temas de energia.
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