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Financiar não é restaurar
Limitar o papel do setor privado ao de financiador é desperdiçar parte significativa do seu potencial para acelerar a mudança sistémica de que o país necessita. Por Afonso Dinis, especialista de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal
22 Jul 2026 - 06:11
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Afonso Dinis, especialista de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal
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Afonso Dinis, especialista de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal
Num momento em que a perda de natureza se afirma como uma das maiores ameaças económicas do nosso tempo, a questão do financiamento surge como um dos principais obstáculos à sua reversão. O problema não reside apenas na insuficiência de recursos disponíveis, mas também na forma como estes são aplicados: apesar de existir financiamento, uma parte significativa continua a ser direcionada para atividades que degradam a natureza. Estima-se que o investimento anual destinado à conservação e restauro dos ecossistemas represente apenas uma fração do necessário, enquanto os impactos da degradação ambiental geram perdas económicas avultadas. Em contrapartida, uma economia que promova a recuperação da natureza tem potencial para gerar retornos muito superiores, criando riqueza, emprego e maior resiliência.
É neste contexto de profunda lacuna de financiamento para a natureza que também importa analisar a nova proposta do Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN), em consulta pública até dia 19 de agosto, avaliando em que medida as ambições definidas são acompanhadas pelos mecanismos financeiros necessários para as concretizar. Na proposta do PNRN, no documento “Visão Estratégica”, a expressão “setor privado” aparece três vezes, duas delas no contexto de orientações ligadas ao financiamento privado. No documento “Relatório Técnico – Financiamento”, a mesma expressão volta a aparecer três vezes, e a participação do setor privado é descrita como “através de investimento direto, fundos especializados, instrumentos financeiros verdes e iniciativas filantrópicas” ou “através de instrumentos financeiros inovadores (…), internalização de custos ambientais e maior maturidade dos mercados de biodiversidade e carbono.”
Embora seja de saudar o reconhecimento do setor privado como parte da solução para o défice de financiamento da natureza, o enquadramento apresentado continua a refletir uma certa visão em túnel. As referências existentes às empresas centram-se sobretudo na sua capacidade de mobilizar capital, tratando o restauro da natureza essencialmente como uma questão ambiental a financiar. Esta perspetiva ignora que a natureza também é um tema económico, social e estratégico, com implicações diretas na competitividade, gestão de risco e resiliência das cadeias de valor. Mais do que financiadores, as empresas devem ser encaradas como parceiras na conceção e implementação das soluções, contribuindo com conhecimento técnico, inovação e capacidade de execução e influência sobre os modelos de negócio.
Assim, limitar o papel do setor privado ao de financiador é desperdiçar parte significativa do seu potencial para acelerar a mudança sistémica de que o país necessita. Mais do que mobilizar capital, importa mobilizar empresas para integrarem a natureza nas suas decisões estratégicas e nos seus modelos de negócio, reconhecendo que a sua competitividade e resiliência dependerá cada vez mais da capacidade de gerir (e restaurar) o capital natural. Através da iniciativa act4nature Portugal, temos observado empresas que elaboram e implementam políticas e planos de ação de biodiversidade e serviços dos ecossistemas, aplicam medidas práticas para prevenir os impactos negativos da sua atividade, desenvolvem parcerias com ONG e dão formação sobre o tema aos seus colaboradores. É esta mudança de paradigma que, no BCSD Portugal, temos procurado incentivar.
Nota: Afonso Dinis escreve no âmbito de uma parceria mensal entre o BCSD e o Jornal PT Green dedicada à análise de temas de sustentabilidade.
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