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A sustentabilidade não cabe num relatório

O reporting ESG é um processo progressivo. Primeiro mede-se o que é possível. Depois melhora-se a qualidade da informação. E, gradualmente, aumenta-se a capacidade de gestão, de planeamento e de tomada de decisão. Por Inês Saltão, ESG Manager da UNICRE

15 Jul 2026 - 06:09

5 min leitura

Inês Saltão, ESG Manager da UNICRE

Inês Saltão, ESG Manager da UNICRE

Para muitas organizações, a publicação de um relatório de sustentabilidade pode parecer o fim de um ciclo: um documento que resume resultados, indicadores e compromissos. Mas talvez devêssemos olhar para estes relatórios de outra forma. Não como um ponto de chegada, mas como uma fotografia de um percurso que continua.

Ao longo dos últimos anos, o ESG passou a ocupar um lugar cada vez mais relevante na agenda empresarial. Criaram-se normas, métricas, frameworks e requisitos de reporte. Tudo isso foi, e continua a ser, fundamental. Mas existe um risco que importa evitar: o de confundirmos o relatório com o próprio caminho.

A sustentabilidade não se constrói quando se redige um relatório. Constrói-se antes, nas decisões do dia a dia, na forma como se gere uma organização, nas prioridades que se definem, na relação com as pessoas, com os clientes, com os parceiros e com a comunidade, e na forma como se equilibra crescimento económico, responsabilidade social e impacto ambiental.

É por isso que o ESG não deve ser encarado como um mero exercício de reporte. Deve ser, antes de tudo, um exercício de gestão.

Quando olhamos para a sustentabilidade desta forma, percebemos que o verdadeiro desafio não está apenas em produzir um documento, mas em integrar estes temas na estratégia, na cultura e nos processos de decisão das organizações. O relatório deve refletir esse trabalho. Não o substituir.

Esta distinção é particularmente importante porque o reporting ESG continua a ser, para muitas empresas, um processo de aprendizagem. Comparando diferentes exercícios de reporte, é comum verificar-se uma evolução significativa na qualidade da informação disponível, no rigor da medição e na capacidade de identificar impactos. E essa evolução traz consigo uma aprendizagem essencial: quando se mede melhor, nem sempre os resultados aparentam ser melhores.

Um exemplo claro é a medição da pegada de carbono. À primeira vista, o aumento da pegada reportada pode ser interpretado como um retrocesso. Mas nem sempre é esse o caso. Muitas vezes, esse aumento resulta precisamente de uma maior maturidade do processo de reporte: mais fontes de informação analisadas, mais dados recolhidos, maior detalhe metodológico e uma visão mais completa do impacto real da organização.

Aquilo que antes não era visível passa a ser medido. E só aquilo que é medido pode ser gerido.

Este é talvez um dos maiores desafios culturais associados ao ESG. Durante demasiado tempo, habituámo-nos a associar transparência à apresentação de resultados positivos. Mas, na sustentabilidade, transparência não significa necessariamente mostrar números mais favoráveis. Significa mostrar números mais reais. Significa assumir o ponto de partida, tornar visível o caminho, reconhecer desafios e demonstrar compromisso com a melhoria contínua.

Nenhuma organização inicia este percurso com sistemas perfeitos, bases de dados completas ou indicadores totalmente maduros. O reporting ESG é, em grande medida, um processo progressivo. Primeiro mede-se o que é possível. Depois melhora-se a qualidade da informação. E, gradualmente, aumenta-se a capacidade de gestão, de planeamento e de tomada de decisão.

Há uns tempos cruzei-me com uma frase interessante que resume bem esta lógica: “you don’t have to be great to start, but you need to start to be great”. O importante não é esperar pela perfeição para começar. O importante é começar.

Esta convicção é particularmente relevante para as PME portuguesas, que muitas vezes olham para a sustentabilidade como algo complexo, distante ou difícil de implementar. Mas o ESG não tem de ser, à partida, um exercício pesado ou excessivamente burocrático. Pelo contrário, pode trazer clareza às empresas, ajudando-as a compreender melhor os seus impactos, riscos, prioridades e oportunidades.

Existem hoje no mercado ferramentas de diagnóstico que podem apoiar esse primeiro passo. Para muitas empresas, em particular PME, o ponto de partida pode passar por compreender os impactos materiais da sua atividade, identificar prioridades e criar uma base mínima de informação que permita evoluir de forma gradual e consistente.

O primeiro passo raramente precisa de ser complicado. Começa por perceber onde se está, que temas são mais relevantes para a atividade, que informação já existe e que dados precisam de passar a ser recolhidos. A partir daí, cada organização pode desenvolver o seu próprio percurso, com maior consciência sobre as áreas onde pode melhorar e sobre a forma como pode criar valor de modo mais responsável.

A sustentabilidade deve ser encarada como um processo contínuo de melhoria, em que o propósito orienta, a estratégia estrutura, a ação concretiza e o reporte reflete. O que faz a diferença não é a sofisticação do primeiro relatório. É a consistência das decisões que se seguem.

Por isso, a publicação de um relatório de sustentabilidade tem sempre um significado que vai além do documento em si. Não porque represente uma meta cumprida, mas porque demonstra uma vontade de avançar, aprender e aumentar o nível de exigência.

Num contexto em que o escrutínio é cada vez maior e as expectativas sobre as empresas continuam a crescer, a credibilidade constrói-se com transparência. Não com narrativas perfeitas, mas com informação rigorosa, compromissos claros e capacidade de mostrar evolução.

O relatório não conta toda a história. Mas, quando é honesto, rigoroso e transparente, torna-se uma prova de que o caminho está a ser feito.

Mais do que a conclusão de uma jornada, cada relatório de sustentabilidade deve ser entendido como mais um passo numa ambição de longo prazo: criar valor de forma responsável, sustentável e duradoura.

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