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ESG não é compliance. É estratégia empresarial

Este é o retrato de muitas PME portuguesas: foco no curto prazo, equipas reduzidas, pressão operacional constante e pouca disponibilidade para refletir estrategicamente sobre o futuro. Por Sofia Vinagre, ESG BU Manager da XPLOR

08 Jul 2026 - 06:30

3 min leitura

Sofia Vinagre, ESG BU Manager da XPLOR

Sofia Vinagre, ESG BU Manager da XPLOR

Durante muito tempo, o ESG foi associado quase exclusivamente à sustentabilidade ambiental e a obrigações de reporte. Hoje, essa visão é curta. E, em muitos casos, perigosa.

Este tópico é particularmente relevante para empresas de pequena e média dimensão. As grandes organizações já estão, na sua maioria, obrigadas a reportar ou têm equipas dedicadas a estes temas. Já interiorizaram que ESG é um vetor estratégico. Mas no tecido empresarial português, composto maioritariamente por PME, a perceção continua muitas vezes limitada ao cumprimento regulatório.

Com o pacote Omnibus e as alterações à CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) e a CSDDD (Corporate Sustainability Due Diligence Directive), são poucas as empresas em Portugal que ficam diretamente obrigadas a reportar. E isso cria uma falsa sensação de alívio: “Se não sou obrigado, não preciso de me preocupar.”

Mas o mercado não espera. Há umas semanas, numa reunião com um CEO de uma empresa do sector energético, ouvi: “Nós não precisamos de tratar do reporte de sustentabilidade. O nosso produto já é ecológico.” Respondi-lhe que então retirássemos da conversa as palavras “sustentabilidade” e “reporting” e falássemos apenas de negócio.

Perguntei-lhe: O que vos estão a pedir os vossos clientes? Quais são hoje os vossos maiores desafios?

A resposta mudou o tom da reunião. Disse-me que os clientes dos seus clientes estavam a exigir informação sobre desempenho, práticas, cadeia de fornecimento e risco. Informação que, na prática, se enquadra perfeitamente no que é ESG.

Este é o retrato de muitas PME portuguesas: foco no curto prazo, equipas reduzidas, pressão operacional constante e pouca disponibilidade para refletir estrategicamente sobre o futuro. No entanto, quando se fala de financiamento, cadeias de abastecimento, retenção de talento, inovação e concorrência, o tema deixa de ser “compliance” e passa a ser competitividade, estratégia empresarial.

Mesmo com sinais de abrandamento regulatório na União Europeia, o mercado está cada vez mais exigente e volátil. Os bancos pedem informações ESG na análise de risco de crédito. Os grandes clientes exigem transparência e práticas sustentáveis aos seus fornecedores. O talento procura organizações com propósito e responsabilidade. A inovação relevante responde a desafios ambientais e sociais concretos.

Tudo isto são temas de gestão de topo. ESG não é apenas ambiente. É governação, gestão de risco, cultura organizacional, impacto social e eficiência operacional. É a forma como a empresa se prepara para um contexto económico e climático mais instável.

Dados ESG são hoje tão relevantes como dados financeiros. Monitorizá-los é ter uma visão mais completa do negócio, antecipar riscos materiais e identificar oportunidades. Integrar estes indicadores na estratégia é reforçar a resiliência e aumentar a capacidade competitiva.

Reduzir ESG a um exercício de reporte é desperdiçar o seu verdadeiro potencial.  ESG não é um departamento. Não é um relatório anual. É uma nova forma de gerir empresas num mercado mais complexo, mais transparente e mais exigente. Não é “compliance”. É estratégia.

 

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