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Na Sauna da Mary

Um continente inteiro, mais de 350 milhões de europeus, dois terços de todos nós, passava o dia com temperaturas mais próprias dos trópicos do que do mês de junho europeu. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI.

01 Jul 2026 - 06:06

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Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Clara é bibliotecária em Paris. Trabalha num edifício antigo virado a sul, onde o ar não circula e as janelas, à noite, têm de ficar fechadas, e esta semana, com a casa a não descer dos 30 ºC, disse uma coisa simples que vale mais do que qualquer número: «Sei como costuma ser o tempo nesta cidade, e não é isto.» Lá fora, o ar pesado dava-lhe razão.

Um continente inteiro, mais de 350 milhões de europeus, dois terços de todos nós, passava o dia com temperaturas mais próprias dos trópicos do que do mês de junho europeu, e o sol, de cenário que sempre fora, tinha-se feito personagem. Das que matam.

Clara sente-o, percebe-o, e o número dá-lhe razão. O estranho começa depois, quando o mesmo termómetro chega às mãos de quem analisa e decide, e passa a significar coisas opostas conforme quem o lê. É um problema basilar da filosofia do conhecimento (epistemologia), o de saber até que ponto conhecer um facto é o mesmo que vê-lo, e o filósofo australiano Frank Jackson deu-lhe a forma mais célebre numa experiência mental conhecida como «o quarto de Mary».

Imaginou uma cientista criada num quarto a preto e branco, que aprendeu tudo o que há para saber sobre a cor sem nunca ter visto nenhuma: cada comprimento de onda, cada reação na retina, todos os factos possíveis. Um dia ela sai e vê, pela primeira vez, o vermelho de um tomate maduro. Aprende alguma coisa nova? Aprende, e é o essencial: aprende o vermelho, que nenhum facto lhe dera enquanto esteve fechada. Saber tudo sobre uma coisa não é o mesmo que vê-la.

Quem lê o calor de hoje vive em dois quartos assim, cada um a ver no mesmo número uma cor diferente. Num estão os que leem recordes e desvios e veem um sistema a perder o prumo. No outro estão os que leem o mesmo número como custo, um pico passageiro, uma circunstância que o mercado há de absorver.

Para este quarto, o clima é uma externalidade. A palavra é familiar, repete-se em relatórios e conferências, mas raramente se repara no que ela faz: arrumar para fora das contas, como simples efeito lateral, aquilo que constitui a base de toda a economia. Trata-se o calor como uma anomalia quando ele é um sintoma, acaso passageiro quando é o resultado previsível do próprio sistema que o lê.

Nenhum dos dois se engana, dentro da sua própria lógica. Veem o mesmo número e leem-no na língua que aprenderam, e é por isso que não se entendem. Mas há uma diferença que não é apenas de língua. Um nomeia o que vê. O outro não chega a nomeá-lo, porque o seu modelo de sucesso, feito de crescimento e de produto, não tem onde arrumar o calor a não ser como custo passageiro.

E há aqui uma ironia que esse modelo desconsidera: a vaga de calor faz vender ar condicionado, dispara o consumo de eletricidade, enche hospitais, obriga a repor o que a seca queimou, e tudo isso, despesa atrás de despesa, soma ao produto interno como se fosse prosperidade. O instrumento que devia medir se vamos bem regista o estrago como atividade.

Demorar a aceitar uma doença que já começou não é novo, e ninguém o contou melhor do que Albert Camus, escritor franco-argelino, em A Peste. Na cidade de Oran, os ratos começam a morrer aos magotes pelas ruas, e durante semanas as autoridades recusam-se a dar-lhe o nome que se impõe, pedem mais análises, calculam o custo de fechar a cidade, preferem tratá-lo como um incómodo de estação. O nome só muda alguma coisa quando obriga a agir, e agir é caro, por isso adia-se o nome. Quando Oran aceita finalmente que tem uma epidemia, a epidemia já a governa.

Oran, no romance, é uma cidade fechada. Em quarentena, o calor a subir, a doença a circular sem ter por onde sair, todos lá dentro a discutir o que se passa enquanto se passa. E os dois quartos de que falávamos têm com Oran mais em comum do que parece: também são fechados. Um quarto fechado, como o de Clara em Paris, de janelas que à noite não podem abrir, tem uma propriedade que não depende de quem lá mora nem de como lê o mundo: o calor que entra não tem por onde sair.

Esta semana, em França, o calor cortou a produção de eletricidade nuclear em 4,1 gigawatts, equivalente a 7% da procura do país, porque os rios vinham quentes demais para arrefecer os reatores, no preciso momento em que toda a gente ligava o ar condicionado. A máquina de produzir frescura foi desligada pelo calor que devia ajudar a combater. Quem está lá dentro aquece o ar a tentar fugir do calor, e o espaço fechado devolve-lhe tudo. A um lugar assim, onde a temperatura sobe e não há saída, não se chama um quarto. Chama-se uma sauna. E nós estamos todos lá dentro, cada um a discutir a cor do termómetro.

Toda a sauna tem uma porta. E a porta de uma sauna, ao contrário da de uma prisão, abre-se por dentro, pela mão de quem lá está a transpirar. Acontece que esta tem dois ocupantes, encostados a paredes opostas, de costas um para o outro, cada um sem perceber como é que o outro, a olhar para o mesmo mostrador, não vê o que ele vê. A porta é pesada, do género que não cede a um par de mãos só. Abre-se com quatro, e as quatro estão ali, a um gesto de distância, ocupadas a provar uma à outra que está errada.

O climatólogo tem a medida exata da febre e nenhum poder para a baixar; o economista tem todas as alavancas e um instrumento que lhe regista a mesma febre como sinal de crescimento. Cada um possui metade do que era preciso para sair, e gasta essa metade a discutir leituras. Do outro lado está o que faltava aos dois: liberdade para respirar e as cores que os mostradores escondiam.

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