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SMR em Portugal? A pergunta errada

Sempre que se fala em energia nuclear em Portugal, a discussão começa e termina no mesmo sítio: precisamos mesmo dela? A questão não é se Portugal precisa hoje de um reator nuclear. Portugal pode dar-se ao luxo de ficar ausente de uma indústria estratégica que vários parceiros europeus estão a reconstruir? Por Bruno Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear

29 Jun 2026 - 06:20

10 min leitura

Bruno Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear

Bruno Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear

Enquanto em Portugal continua o deslumbre pela transição energética centrada nas promessas renováveis e baterias, lítio e do hidrogénio, assistimos na UE um interesse renovado pela energia nuclear e pelo seu potencial para enfrentar os principais desafios actuais: descarbonização, segurança de abastecimento energético e autonomia estratégica da UE. Para além do desenvolvimento da energia nuclear convencional, vários Estados-Membros têm mostrado interesse pelas tecnologias dos pequenos reatores modulares (Small Modular Reactors, SMR). Este interesse resultou na criação duma Aliança Industrial dedicada aos SMR, reunindo Estados-Membros, indústria, investigação, reguladores e a Comissão Europeia para desenvolver uma cadeia de valor europeia.

Mas sempre que se fala em energia nuclear em Portugal, a discussão começa e termina no mesmo sítio: precisamos mesmo dela? A questão não é se Portugal precisa hoje de um reator nuclear. Portugal pode dar-se ao luxo de ficar ausente de uma indústria estratégica que vários parceiros europeus estão a reconstruir? Portugal é frequentemente apresentado como um caso de sucesso na transição energética. Temos uma elevada penetração de renováveis, condições naturais privilegiadas para energia solar e eólica e uma capacidade crescente de armazenamento. E por esse motivo quando se fala de soluções energéticas, tenta-se centrar a discussão em torno da tecnologia mais barata. Uma tecnologia barata que exige armazenamento, reforço de redes e capacidade de reserva continua a ser barata? Qual é o custo de um sistema que funciona efetivamente, 24 horas por dia, 365 dias por ano?

Durante anos habituámo-nos a comparar tecnologias energéticas através do custo de produção de eletricidade, como se cada fonte funcionasse isoladamente. Mas um sistema elétrico não é uma coleção de centrais independentes. É uma infraestrutura complexa que exige redundância, armazenamento, capacidade de reserva, redes de transporte, estabilidade de frequência e garantia de abastecimento em qualquer momento do ano. À medida que a penetração das renováveis aumenta, o debate deixa de ser quanto custa produzir um megawatt-hora e passa a ser quanto custa manter todo o sistema a funcionar de forma segura e resiliente. Os custos totais do sistema devem ser contabilizados. Ignorá-los compromete qualquer estratégia energética orientada para o crescimento económico, a eletrificação e a redução do preço da eletricidade. A energia nuclear não deve ser descartada nesta análise.

O potencial impacto da energia nuclear não se resume apenas à eletricidade. Calor industrial de alta temperatura, produção de hidrogénio, combustíveis sintéticos, transporte marítimo descarbonizado. Setores inteiros que não podem ser eletrificados dependem diretamente de fontes de energia densas e fiáveis. A energia nuclear é uma arma de descarbonização maciça. Emitindo apenas 5-6 g de CO₂/kWh ao longo do seu ciclo de vida, apresenta emissões mais baixas do que qualquer outra forma de produção de eletricidade. E sem a energia nuclear, estes setores «difíceis de descarbonizar» continuam, na prática, a ser difíceis de resolver.

Argumenta-se frequentemente que Portugal é demasiado pequeno para ter energia nuclear. Mas a dimensão geográfica nunca foi o critério determinante. Países como a Suíça, a Bélgica, a Eslováquia, a Finlândia ou a Chéquia demonstram precisamente o contrário. E quando alguém afirma que Portugal não tem capacidade para manter uma central nuclear, a verdadeira questão deveria ser: queremos desenvolver essa capacidade?

A história económica dos países desenvolvidos raramente foi construída à volta daquilo que já sabiam fazer, mas daquilo que decidiram aprender. Mas em Portugal existe um paradoxo curioso. Aceitamos diariamente dependências energéticas, industriais e tecnológicas, desde matérias-primas importadas até equipamentos e tecnologias desenvolvidas por outros países. No entanto, quando o tema é nuclear, exige-se uma perfeição absoluta que não é exigida a nenhuma outra tecnologia. Talvez porque o debate continue dominado pelo medo e não por uma análise de risco. O risco não é exclusivo da energia nuclear. Existe também numa matriz elétrica excessivamente dependente das condições meteorológicas, em cadeias de abastecimento concentradas num pequeno número de países ou numa economia incapaz de produzir as tecnologias que consome. Temos de evitar a armadilha da mediocridade e deixar de normalizar a incompetência como justificação à ausência de estratégia.

Um programa nuclear, convencional ou baseado em SMR, exigiria engenheiros, físicos, especialistas em materiais, operadores, reguladores e novas competências industriais. Exige universidades a formar talento e unidades de investigação a gerar conhecimento. Mas o impacto vai muito além da operação de um reator. Um país que desenvolve capacidades nucleares cria competências transferíveis para a defesa, aeroespacial, fabrico avançado e outras tecnologias críticas. A energia nuclear é um multiplicador de capacidades. E Portugal pode participar na cadeia de valor dos SMR sem necessariamente instalar um único reator no seu território. Empresas e instituições portuguesas podem participar na cadeia de valor europeia dos SMR através da engenharia, materiais avançados, software, certificação, formação e investigação.

Muitas vezes o debate continua a girar em torno de quatro objeções: custo, tempo de construção, segurança e resíduos. Os projetos nucleares no Ocidente tornaram-se caros, e a Europa não é excepção, fruto da perda de capacidade de executar projectos nucleares complexos. “a Europa cometeu um erro estratégico ao afastar-se de uma fonte de energia fiável e acessível, com baixas emissões.”  disse a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na cimeira nuclear organizada pela França e pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), em março de 2026. Os países que constroem de forma consistente constroem mais depressa e mais barato. A China e a Coreia do Sul demonstraram-no. O mesmo aconteceu no passado com França e Japão. Uma central nuclear demora tempo a construir, mas precisamente por isso é oportuno uma discussão séria sobre a sua pertinência económica e estratégica. Países que tinham decidido abandonar o nuclear, como é o caso da Suíça, ou tinham mesmo abandonado o nuclear, como é o caso da Itália, repensaram a sua pertinência económica e estratégica e votaram recentemente por retomar a energia nuclear.

Em Portugal os SMR surgem frequentemente como uma curiosidade confortável: suficientemente promissores para gerar interesse, mas suficientemente distantes para evitar uma discussão séria sobre energia nuclear. Não porque não existam, mas porque ainda não demonstraram de forma inequívoca a competitividade prometida pelos seus promotores. Os custos permanecem incertos e a maturidade tecnológica continua em evolução. Ignorar estas limitações seria tão irresponsável quanto ignorar o seu potencial. No entanto, estas incertezas não impediram que vários países, como o Reino Unido, Suécia e Chéquia, estejam a considerar seriamente a adopção de SMR.

Os dados da IAEA sugerem uma correlação entre a dimensão do reator e os tempos de construção. A modularização e a construção repetida de projetos padronizados permitiram ao Japão, França e Coreia do Sul reduzir significativamente prazos e atrasos regulatórios. É precisamente nesta lógica que assenta uma das principais promessas dos SMR: reduzir risco de construção, capital imobilizado e tempo até entrada em operação.

A energia nuclear é, estatisticamente, uma das formas de energia mais seguras já desenvolvidas. O receio que desperta continua a ser desproporcional ao risco que representa, sobretudo quando comparado com os impactos dos combustíveis fósseis

Os resíduos nucleares são frequentemente apresentados como um problema insolúvel. Na realidade, a energia nuclear é uma das poucas indústrias que internaliza totalmente os seus resíduos e tem dos fluxos de resíduos mais controlados da história industrial. São monitorizados, contabilizados e confinados. O desafio existe, mas é sobretudo um desafio de governação, continuidade institucional e confiança pública. Nenhuma estratégia energética sobrevive sem confiança pública. No setor nuclear, a chamada «licença social para operar» não é opcional. Os países que têm sucesso não são apenas aqueles que dominam a tecnologia, mas aqueles que mantêm a confiança dos cidadãos ao longo de décadas.

O nuclear convencional e os SMR podem ou não vir a justificar-se para produzir eletricidade em Portugal. Sem uma análise séria dos custos totais do sistema, qualquer afirmação peremptória não passa de opinião. Os SMR poderão revelar-se particularmente interessantes se conseguirem cumprir uma das suas principais promessas: reduzir tempos de construção e custos de capital. A sua natureza modular permite instalar capacidade de forma faseada, acompanhando a procura e reduzindo o risco associado a grandes investimentos únicos. Simultaneamente, múltiplas unidades de menor potência introduzem redundância e maior flexibilidade operacional. Mas a sua utilidade não se esgota na produção de eletricidade. Poderão justificar-se para produzir hidrogénio, calor industrial, combustíveis sintéticos ou para responder ao crescimento da procura associado aos centros de dados, à dessalinização e à eletrificação da economia. Poderão até justificar-se apenas porque participar nesta indústria cria conhecimento, competências e empresas exportadoras.

O maior desafio português poderá não ser tecnológico nem financeiro. Poderá ser institucional. Um programa nuclear exige reguladores independentes, estabilidade regulatória, capacidade de planeamento para décadas e continuidade entre governos. Exige instituições capazes de pensar para além do próximo ciclo eleitoral. Esta é talvez a verdadeira questão nuclear portuguesa.

É possível que os vários países que estão a considerar o nuclear estejam errados. É possível que a Comissão Europeia esteja errada. É possível que a Suécia, a Chéquia, a Finlândia, a Polónia, a França, o Reino Unido e a Itália estejam errados. Mas se for esse o caso, seria útil perceber porque razão tantos países chegaram simultaneamente à mesma conclusão.

Portugal não precisa nem conseguiria ter energia nuclear amanhã. A questão central é se Portugal quer pensar estrategicamente o futuro da energia. É um debate sobre ambição, sobre a capacidade de um país participar em tecnologias complexas, desenvolver competências avançadas e integrar cadeias de valor estratégicas. Talvez Portugal nunca venha a precisar de um SMR para produzir eletricidade. Talvez venha a precisar de vários. O que seria difícil de justificar é nunca fazer a análise, nunca desenvolver competências e nunca participar numa indústria estratégica, por um preconceito contra o nuclear que substitui a avaliação racional das opções.

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