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A descarbonização da economia europeia exige pragmatismo regulatório

A realidade tem mostrado que a transição energética exige a coexistência de diferentes vetores energéticos. A eletricidade renovável terá um papel central, mas a economia continuará a necessitar de moléculas energéticas descarbonizadas. Por Paulo Preto dos Santos, coordenador da Comissão de Espacialização de Energia da Ordem dos Engenheiros

06 Jul 2026 - 06:30

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Paulo Preto dos Santos, coordenador da Comissão de Espacialização de Energia da Ordem dos Engenheiros

Paulo Preto dos Santos, coordenador da Comissão de Espacialização de Energia da Ordem dos Engenheiros

As alterações climáticas e a necessidade de acelerar a descarbonização da economia europeia deixaram há muito de ser um debate conceptual. O desafio já não está em reconhecer o problema, mas em construir soluções tecnicamente sólidas, economicamente viáveis e operacionalmente exequíveis para garantir uma transição energética eficaz.

Durante anos, o debate sobre a transição energética foi excessivamente centrado na eletrificação da economia, como se a substituição progressiva dos combustíveis fósseis por eletricidade renovável fosse, por si só, suficiente para responder às necessidades energéticas das sociedades modernas e industrializadas. Essa visão simplificou um sistema energético que é, por natureza, complexo e diversificado.

A realidade tem mostrado que a transição energética exige a coexistência de diferentes vetores energéticos. A eletricidade renovável terá um papel central, mas a economia continuará a necessitar de moléculas energéticas descarbonizadas, em particular na indústria intensiva, no transporte pesado e em vários setores onde a eletrificação direta ainda não constitui uma solução tecnicamente ou economicamente viável.

Neste contexto, o biometano, o hidrogénio renovável e outros combustíveis renováveis assumem um papel central. Não apenas como alternativas energéticas, mas como instrumentos que permitem acelerar a descarbonização com maior eficiência, aproveitando infraestruturas existentes e evitando investimentos redundantes.

A integração destes gases renováveis na Rede Europeia de Gás já está em curso há vários anos. O biometano e, numa fase inicial o hidrogénio renovável, podem ser injetados e misturados com o gás natural nas infraestruturas existentes, sem necessidade de grandes investimentos adicionais nem de substituição generalizada de equipamentos por parte dos consumidores.

Do ponto de vista energético e ambiental, esta integração produz efeitos imediatos. Sempre que energia renovável é injetada na rede, a intensidade carbónica do sistema reduz-se proporcionalmente. O princípio é semelhante ao do setor elétrico, onde eletricidade de origem renovável e fóssil circulam na mesma rede, sendo a componente renovável identificada através de sistemas de certificação e garantias de origem.

Recentemente, a Comissão Europeia sugeriu que, no caso do hidrogénio renovável misturado com gás natural nas redes, só seria possível reconhecê-lo como sustentável caso existisse separação física no ponto final de consumo.

Esta interpretação, que desde logo levanta dúvidas, resulta da Comunicação da Comissão C/2025/2983, no texto da qual se lê “destina-se exclusivamente a servir de documento de orientação para efeitos de transposição e aplicação da Diretiva das Energias Renováveis revista. Apenas o próprio texto da legislação da UE tem força jurídica”. A legislação europeia não exige essa separação física. Pelo contrário, assenta em sistemas de rastreabilidade e certificação que permitem contabilizar a energia renovável injetada, mesmo quando existe mistura física na rede.

Na prática, estes mecanismos foram criados para permitir o uso de infraestruturas partilhadas, garantindo a rastreabilidade da energia através de registos e certificação, e não através da separação física das moléculas ao longo de toda a cadeia.

Do ponto de vista técnico e energético, a mistura de hidrogénio renovável com gás natural continua a representar energia renovável no sistema, desde que essa energia esteja devidamente registada e certificada.

Exigir separação física no consumo final tornaria o sistema mais complexo e mais caro, sem trazer melhorias claras na forma como a origem da energia é rastreada ou verificada.

No caso de Portugal, esta discussão é particularmente relevante no contexto da transposição da diretiva europeia e da definição do futuro enquadramento dos gases renováveis. O país dispõe de condições favoráveis ao desenvolvimento do biometano e do hidrogénio renovável e a utilização das infraestruturas existentes representa uma oportunidade importante para acelerar a descarbonização de forma eficiente e economicamente racional.

Por isso, o desafio regulatório não deve ser o de criar barreiras técnicas adicionais, mas sim o de garantir regras claras, coerentes e proporcionais, que assegurem a integridade do sistema de certificação sem comprometer a viabilidade económica da transição energética.

A descarbonização exigirá inovação tecnológica, mas também realismo regulatório. E esse realismo passa por reconhecer que o essencial não é a separação física das moléculas, mas a correta contabilização e certificação da energia renovável que entra no sistema.

Nota: Paulo Preto dos Santos é coordenador da Comissão de Espacialização de Energia da Ordem dos Engenheiros e membro do Conselho de Energia da Confederação Empresarial de Portugal

 

 

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