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Frotas são motores da descarbonização
O setor dos transportes consome mais de um terço da energia em Portugal e é responsável por uma fatia significativa das emissões de gases com efeito de estufa. Num contexto de pressão energética crescente, a mobilidade corporativa surge como um fator decisivo para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, acelerar a descarbonização e reforçar a competitividade das empresas. Por Ana Paula Rodrigues, vice-presidente da ADENE
25 Mar 2026 - 07:29
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Ana Paula Rodrigues, vice presidente da ADENE
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Ana Paula Rodrigues, vice presidente da ADENE
O setor da energia enfrenta um momento crítico. A volatilidade dos mercados internacionais, o aumento dos custos ao longo de toda a cadeia de valor e o impacto direto nos preços dos combustíveis colocam famílias e empresas sob pressão. Tensões geopolíticas, dependência de importações e, em particular, o atual conflito no Irão, que ameaça a navegação no estreito de Ormuz, expõem fragilidades estruturais do modelo energético e disparam os preços do petróleo e do gás.
Os efeitos da atual situação global está a ter efeitos concretos em Portugal. O preço da gasolina e do gasóleo dispara. As famílias sentem no bolso e as empresas veem os custos operacionais subir sem pré-aviso. A culpa não é apenas do mercado global. Fragilidades profundas no modelo energético nacional tornam os impactos desiguais, afetando especialmente os territórios com menor oferta de transporte público, empresas menos preparadas e famílias mais vulneráveis, que sofrem de forma desproporcional e ficam ainda mais expostas às dificuldades.
É neste contexto que o setor dos transportes assume um papel central na transição energética. Em Portugal, representa cerca de 37% do consumo final de energia, mais de 90% dependente de produtos petrolíferos. O transporte rodoviário é responsável por aproximadamente 34% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa. Reduzir a pegada da mobilidade deixou de ser uma simples questão ambiental para se transformar numa prioridade estratégica. A competitividade das empresas, a sustentabilidade económica e a resiliência do país dependem diretamente da forma como nos movemos.
O setor dos transportes deve deixar de ser visto apenas como um consumidor problemático e ser encarado como a principal alavanca da transição energética. Mais do que um peso nas emissões, a mobilidade corporativa é o terreno onde a inovação tecnológica, a eficiência operacional e a resiliência financeira se fundem para ditar o novo rumo do país.
Para transformar intenções em ação, a ADENE criou o sistema MOVE+, que avalia e classifica a mobilidade nas empresas. Com o MOVE+ Frotas, uma frota eficiente e descarbonizada deixa de ser apenas um custo e passa a ser um verdadeiro ativo estratégico. Mas a mudança não se limita à frota. Para ampliar o impacto e abranger toda a mobilidade corporativa, o MOVE+ Frotas evoluiu para o MOVE+ Empresas. Esta abordagem holística integra as deslocações de colaboradores, fornecedores e utilizadores, permitindo às empresas gerir de forma estratégica os seus impactos ambientais e económicos, ao mesmo tempo que aumentam a eficiência, reduzem as emissões e contribuem para a melhoria do território onde estão inseridas.
A mobilidade corporativa ganha ainda mais relevância quando se olha para os números europeus, onde 60% dos veículos ligeiros de passageiros e 90% dos ligeiros de mercadorias novos são adquiridos por empresas. Em Portugal, um estudo recente mostra que cerca de 40% dos novos veículos de frotas corporativas já são elétricos ou híbridos plug-in, evidenciando uma transformação concreta e mensurável. As decisões das empresas estão a ter um impacto positivo na renovação do parque automóvel e repercutem-se no mercado de usados, que continua a ser a principal forma de muitas famílias acederem à mobilidade.
Para avançarmos na descarbonização não basta apenas a substituição de veículos. É necessário repensar os sistemas e compreender a pegada carbónica na sua totalidade, incluindo as emissões diretas da frota, o consumo de eletricidade e as deslocações de fornecedores, colaboradores e utilizadores, que muitas vezes representam a maior parte da pegada.
Sim, eletrificar frotas é essencial e cada vez mais competitivo com incentivos fiscais, mas só o conhecimento total das emissões permite que a mobilidade se torne um verdadeiro motor da transição climática. É exatamente nesse contexto que surgem os Planos de Mobilidade Empresarial, ferramentas que ajudam as empresas a transformar dados e diagnósticos em ações concretas. Eles permitem analisar padrões de deslocação, identificar oportunidades de melhoria e implementar medidas que reduzem emissões, cortam custos operacionais e elevam a qualidade de vida dos colaboradores.
Países como Itália e Países Baixos já tornaram estes planos obrigatórios para empresas de determinado porte, reconhecendo o seu valor como instrumento de política pública. Em Portugal, embora existam orientações desde 2011, a pressão energética, metas climáticas mais ambiciosas e novas formas de trabalho tornam a adoção destes planos, não só estratégica, como urgente.
Num contexto regulatório cada vez mais exigente, com limites de emissões de CO2 mais rigorosos e a introdução do ETS2, o sistema europeu que atribui um custo ao carbono nos transportes, as empresas precisam antecipar riscos e adaptar os seus modelos operacionais. Acrescem novos desafios como a imposição de metas para integração de veículos de zero emissões e de emissões reduzidas nas frotas corporativas em 2030 e 2035. Deste modo, a mobilidade corporativa deixa de ser apenas uma questão logística para assumir uma dimensão estratégica, com impacto na competitividade, resiliência, inovação e capacidade de resposta aos desafios da transição energética.
Mais do que tecnologia, a transição energética é hoje um processo humano e sistémico, que exige equilíbrio entre eficiência, sustentabilidade e equidade. A mobilidade corporativa, apoiada pelo sistema MOVE+ da ADENE, é o motor real da transformação energética em Portugal. Empresas que adotarem esta visão serão agentes de mudança, não apenas porque cumprem as metas climáticas, mas porque lideram na inovação, eficiência e competitividade.
O MOVE+ Frotas e o MOVE+ Empresas provam que a transição energética é uma oportunidade real de liderança empresarial. Com estas ferramentas, a mobilidade corporativa deixa de ser um desafio e torna-se uma das principais alavancas da descarbonização em Portugal.
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