4 min leitura
Liderar o futuro: colocar a IA ao serviço da sustentabilidade
O que separa as organizações que lideram das que ficam para trás não é o acesso à tecnologia. É a capacidade de integrar IA com critério e governance adequados. Por Inês Faria, Especialista de Formação e Conhecimento do BCSD Portugal
24 Abr 2026 - 07:40
4 min leitura
Inês Faria, Especialista de Formação e Conhecimento do BCSD Portugal
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- Liderar o futuro: colocar a IA ao serviço da sustentabilidade
Inês Faria, Especialista de Formação e Conhecimento do BCSD Portugal
Em poucos anos, a Inteligência Artificial (IA) deixou de ser um tema reservado a investigadores e empresas tecnológicas para se tornar parte do quotidiano das pessoas e organizações em todo o mundo. O IA Index Report 2026 revela o que já se sente na prática: em apenas três anos, 53% da população global adotou IA generativa, o que representa uma velocidade de difusão superior à do computador pessoal ou da internet. Nas empresas, a taxa de adoção global chegou a 88%. A IA é mais do que uma tendência, é uma reconfiguração estrutural em curso.
Esta reconfiguração traz consigo uma questão que as organizações, comprometidas com a sustentabilidade, não podem ignorar: de que forma esta tecnologia se articula com os seus objetivos ambientais, sociais e de governance?
Por um lado, a IA traz mais eficiência para muitas empresas: equipas de desenvolvimento de software que trabalham com IA registam ganhos de produtividade de 26% e profissionais de marketing produzem 73% mais conteúdo no mesmo período. Por outro lado, consome energia e água a uma escala que se começa a quantificar com rigor pela primeira vez. A infraestrutura global de data centers dedicados à IA consome uma quantidade de energia equivalente ao pico de consumo da cidade de Nova Iorque, e o volume de água necessário para arrefecer os sistemas que respondem às pesquisas e pedidos feitos a um único modelo ao longo de um ano, excede as necessidades de água potável de 12 milhões de pessoas.
Existem, ainda, outros desafios que merecem igual atenção. O viés algorítmico é uma realidade documentada, com conclusões e decisões enviesadas em sistemas de recrutamento, avaliação de crédito e triagem médica. Incidentes relacionados com IA, como danos, falhas, discriminações, violações de privacidade ou desinformação, aumentaram 55% entre 2024 e 2025. A transparência dos modelos continua limitada, dificultando auditorias e accountability.
Apesar disto, a IA tem um potencial transformador para a agenda da sustentabilidade, embora ainda longe de ser aproveitado de forma sistemática. Modelos de análise avançada permitem monitorizar cadeias de valor com uma granularidade que antes era impossível; ferramentas de processamento de linguagem natural permitem o reporte de sustentabilidade com menos fricção; sistemas de otimização reduzem consumos em operações industriais. A IA pode, ainda, ser um motor para a inovação em novos materiais, economia circular ou descarbonização. A evidência de que a IA pode potenciar a sustentabilidade empresarial é crescente e robusta.
O que separa as organizações que lideram das que ficam para trás não é o acesso à tecnologia, tendo essa barreira baixado drasticamente nos últimos anos. É antes a capacidade de integrar IA com critério e governance adequados. É saber fazer as perguntas certas antes de implementar. Os profissionais de sustentabilidade têm aqui um papel que não está ainda suficientemente reconhecido: poderão ser arquitetos de uma integração tecnológica que cria valor partilhado e de longo prazo sem comprometer os limites planetários e sem deixar os sistemas sociais entrarem em falência.
A aceleração não vai abrandar. Os modelos vão tornar-se mais capazes, os agentes autónomos vão assumir tarefas cada vez mais complexas, e a pressão para adotar vai intensificar-se. As organizações que chegarem a esse momento com governance clara, literacia instalada e uma visão integrada de tecnologia e sustentabilidade não vão apenas gerir melhor o risco, vão estar em melhor posição para capturar oportunidades, tornando-se mais competitivas, resilientes e preparadas para o futuro.
Nota: Inês Faria escreve no âmbito de uma parceria mensal entre o BCSD e o Jornal PT Green dedicada à análise de temas de sustentabilidade.
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