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O desafio da gestão do risco climático no setor financeiro

Bancos, seguradoras e o Banco Europeu de Investimento (BEI) - que se tornou o Banco do Clima na Europa - revelam como os riscos climáticos já influenciam as decisões de crédito e investimento. Há ativos, pessoas e bens que podem ficar sem cobertura de seguros.

28 Nov 2025 - 16:48

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Pedro Carvalho, Susana Lagarto, Nuno Cordeiro e Sónia Santos Dias | Foto: Jornal PT Green

Pedro Carvalho, Susana Lagarto, Nuno Cordeiro e Sónia Santos Dias | Foto: Jornal PT Green

Os riscos climáticos deixaram de ser apenas uma questão regulatória e passaram a ser uma realidade prática nas decisões de financiamento. No painel “Gestão do Risco Climático nas Instituições Financeiras” da conferência Green Finance, promovida nesta quinta-feira pelo Jornal PT Green com o apoio do Jornal PT50 e do Novo Banco, Nuno Cordeiro, partner da PwC, afirmou que a gestão do risco climático está hoje integrada nas operações diárias das instituições financeiras.

Salientou que, quando uma proposta vai ao comité de crédito, pode ser exigido à empresa um plano de investimento motivado pelos riscos climáticos, o que pode aumentar o nível de endividamento. Acrescentou que o comité de crédito e o departamento de risco trabalham agora em contacto com os departamentos de sustentabilidade, mostrando como a teoria passou à prática.

O especialista recordou a evolução dos últimos anos, desde as primeiras obrigações organizacionais (2018-2020), passando pelas avaliações de materialidade e pela quantificação de impactos, até aos planos de transição prudencial. Explicou que não se trata de novos riscos, mas sobretudo de risco de crédito e de mercado, sendo o desafio adaptar modelos existentes às novas dinâmicas climáticas.

Susana Lagarto, Principal Advisor (Energy) do BEI, apresentou dados que confirmam o papel central da instituição na transição climática. Referiu que o BEI é o Banco do Clima da União Europeia há cinco anos e que, desde 2020, deixou de financiar combustíveis fósseis, comprometendo-se a dedicar pelo menos metade do seu portefólio anual a investimentos verdes.

Segundo Susana Lagarto, o BEI já ultrapassou essa meta e, em 2024, 57% do financiamento, mais de 50 mil milhões de euros, foi dedicado a projetos verdes, correspondendo a investimentos que totalizam mais de 200 mil milhões de euros na transição energética da União Europeia. Recordou ainda o compromisso de financiar 1 trilião de euros, um milhão de milhões em português, em projetos verdes ao longo da década, garantindo que o BEI já superou metade desse objetivo.

A responsável explicou que o banco integra a análise climática em todo o ciclo de financiamento e só trabalha com contrapartes alinhadas com os objetivos de descarbonização da União Europeia.

Os efeitos climáticos

Pedro Carvalho, CEO da Generali Tranquilidade, alertou que diversos ativos, pessoas e bens estão a ficar fora da possibilidade de serem segurados. Deu o exemplo da agricultura, onde várias zonas agrícolas portuguesas já não conseguem contratar seguros de colheitas. Sempre foi difícil em algumas regiões, mas as alterações climáticas tornaram essa situação muito mais abrangente.

Para Pedro Carvalho, o maior risco encontra-se nas infraestruturas públicas desprotegidas. Lembrou ainda o risco sísmico da zona de Lisboa e a inexistência de um fundo de catástrofe semelhante aos existentes noutros países europeus. Considera que, no caso de uma fatalidade, a economia seria profundamente afetada, configurando um risco sistémico.

Foto: Jornal PT Green

O CEO criticou também a falta de ação política e afirmou que, a nível global, “já desistimos de resolver as alterações climáticas”, dado que o consumo de combustíveis fósseis continua a aumentar. Apesar de mudanças no mix energético, o crescimento da procura mundial impede a redução efetiva do uso de combustíveis fósseis.

Pedro Carvalho alertou ainda para o impacto da inteligência artificial, afirmando que os investimentos necessários para a alimentar implicam aumentos muito elevados do consumo de energia e de emissões de CO₂, com previsões conservadoras de 20 a 30 por cento. Considera que a energia necessária poderá ser entre quatro a cinco vezes a atualmente consumida no mundo, excedendo a capacidade de geração renovável.

No setor segurador, recordou que há 15 a 20 anos várias seguradoras se juntaram numa aliança net zero, mas que hoje, das grandes europeias, apenas a Generali permanece, depois da saída da Allianz, Zurich e Axa, que gerem em conjunto cerca de 11 milhões de milhões de euros em ativos.

Os testes de stress

Nuno Cordeiro analisou os testes de stress climático realizados pelas autoridades europeias e explicou que as perdas estimadas em horizontes de um a três anos representam reduções de cerca de 1% no rácio de capital, mesmo sob cenários adversos. Os exercícios da EBA e do BCE apontam para perdas totais entre 2,5 e 3 por cento no sistema financeiro, equivalentes a cerca de 1 por cento de quebra de capital a curto prazo.

Advertiu, no entanto, que estes testes falham em captar impactos de segunda ordem, descrevendo a situação como “caminhar sobre uma camada de gelo cada vez mais fina”.

A questão dos dados foi identificada como fundamental. Nuno Cordeiro afirmou que o essencial é definir quais os dados relevantes, que variam consoante o setor. Considera que a inteligência artificial pode apoiar o processamento de informação e ajudar a identificar relações entre dados.

Susana Lagarto reconheceu que, há cinco anos, muitos promotores desconheciam estes requisitos, mas que hoje já integram análises climáticas nos dossiês apresentados. Explicou que o BEI utiliza prestadores externos para avaliações relacionadas com geolocalização e com a viabilidade dos planos climáticos das empresas, podendo recorrer a ferramentas de IA.

Nuno Cordeiro assinalou ainda que existem oportunidades noutros setores com intensidade carbónica moderada, onde pequenos incentivos podem gerar ganhos relevantes e mais rápidos, especialmente numa economia como a portuguesa, maioritariamente terciária.

O painel, moderado por Sónia Santos Dias, diretora do Jornal PT Green, evidenciou um setor financeiro mais sofisticado na gestão do risco climático, mas confrontado com desafios sistémicos que ultrapassam a sua capacidade individual de resposta. A mensagem final é clara: o risco climático já não é futuro, está presente nas decisões tomadas hoje.

 

 

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