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Rita Nabeiro: ”A sustentabilidade tem de ser a base da inovação”
No ano em que o BCSD Portugal celebra 25 anos, a presidente em exercício defende a inovação e a criação de redes como motores da transição sustentável, num contexto de instabilidade global e pressão sobre o tecido empresarial português.
15 Jun 2026 - 06:06
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Rita Nabeiro, presidente do BCSD Portugal
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Rita Nabeiro, presidente do BCSD Portugal
Rita Nabeiro é administradora executiva do Grupo Nabeiro, CEO da Adega Mayor e a atual presidente do BCSD Portugal, num mandato de três que teve início em abril de 2025. Assume a continuidade da missão de apoiar as empresas portuguesas a entrarem no caminho da sustentabilidade, trazendo consigo um legado que desde sempre motivou o grupo empresarial criada pelo seu avô, o comendador Rui Nabeiro (1931-2023).
Ao longo do seu mandato, pretende reforçar a aposta na inovação empresarial e incentivar a criação de redes, acreditando que a partilha de conhecimento é essencial para acelerar a transição para modelos de negócio mais sustentáveis.
Em entrevista ao Jornal PT Green, Rita Nabeiro reconhece as dificuldades acresscidas que o tecido empresarial português, maioritariamente composto por micro e PME, tem num mundo geopoliticamente instável, com desafios económicos e com a ameaça crescente de fenómenos climáticos.
O ano está a revelar-se particularmente difícil. Tivemos tempestades, temos a guerra no Medio Oriente. As estratégias de sustentabilidade nas empresas portuguesas estão a sair abaladas por estas crises?
Há efetivamente um contexto complexo a nível económico, político, na transformação do ecossistema de uma forma global. Felizmente, as empresas que continuam connosco ou que ainda aderem ao BCSD têm uma visão de longo prazo, percebem o valor de ter este propósito, não só por uma questão de compliance, mas também por uma questão de competitividade. Apesar de muitas vezes usarem a palavra competitividade contra a sustentabilidade, como se a sustentabilidade estivesse contra a competitividade, acredito que é exatamente o contrário: a sustentabilidade a longo prazo ajuda à competitividade das empresas.
E temos as empresas que já estavam connosco, que acreditam neste caminho, mas infelizmente, ou por razões económicas ou por opções das lideranças de topo, há uma tomada de decisão de cortes, e muitas vezes este tipo de pertença a associações ou outro tipo de entidades são as primeiras a serem cortadas em termos do orçamento de uma pequena empresa. Felizmente. não temos visto isso acontecer muito. Uma associação como o BCSD, com este propósito de apoiar as empresas nesta transição e no compliance, acaba por ajudá-las a fazer este caminho.
Mas num país onde mais de 90% das empresas são PME e microempresas, o contexto atual poderá estar a desviar o foco da transição, incluindo nas cadeias de valor?
Algumas vão adiando. Outras são empresas que também têm essa visão de longo prazo, porque são pressionadas pelas grandes empresas que estão nessa cadeia de valor. Já começamos a ter também um modelo interessante que é grandes empresas apoiarem pequenas empresas que estão na sua cadeia de valor. Porque uma grande empresa poderá estar em incumprimento por causa de uma empresa que está na sua cadeia de valor. Por isso, elas, direta ou indiretamente, serão impactadas. Às vezes não têm é essa consciência.
Mas fenómenos climáticos como os que tivemos no início do ano não funcionaram como um “wake-up call”?
É um ‘wake-up call’, mas infelizmente isso também tem a ver com uma realidade que está sempre a mudar e, no fundo, com aquilo que é prioritário e ocupa a nossa atenção, inclusive no espaço mediático. E se naquela altura foi a tempestade Kristin, sabemos que agora estamos a aproximar-nos do verão e do risco dos incêndios, fala-se também de um super El Niño. O que acho é que associações como o BCSD podem ajudar não só nesta transição, em que há uma componente óbvia e imediata de otimização, mas também noutras dimensões. Como nos disse um membro, isto é um ‘business case’ até do ponto de vista económico, porque se não houver o cumprimento de determinados requisitos em matéria de resíduos, por exemplo, as empresas podem não chegar sequer a participar em determinados concursos, sejam nacionais ou internacionais, por não estarem em cumprimento com algum tipo de pressupostos. Por isso, é também uma questão de competitividade e de oportunidade.
Temos aqui outro fator de travagem, que é um ‘backlash’ desde a chegada de Donald Trump à Casa Branca, que acabou por se espalhar a nível internacional. Isso ainda continua a ter influência ou começa a perder impacto?
O que se passa nos Estados Unidos, sobretudo sendo uma das maiores potências mundiais, com a desvalorização de determinadas boas práticas, tem impacto. As empresas são, sem dúvida, parte da solução, mas também fazem parte do problema, porque grande parte das emissões está ligada à indústria e à atividade económica em geral.
Sabemos qual é o problema e sabemos que existe uma janela temporal limitada para agir. Por isso, insisto muito na necessidade de explicar o “porquê”. Porque, muitas vezes, e tenho tido várias conversas com administradores de empresas, não se compreende bem o racional: porquê o ESG? Porquê isto agora? Porquê este nível de reporte que parece tão automático e burocrático? Acredito que o reporte não financeiro vai acabar por se tornar o “default”, tal como hoje fazemos um relatório financeiro. É questão de transparência, é onde as empresas se vão diferenciar, na forma como transformam esse reporte em ação.
Este impacto é evidente em vários âmbitos. É no âmbito da sustentabilidade, é no âmbito dos direitos humanos, é no âmbito da intolerância, é um discurso que se radicaliza e polariza a sociedade. Por isso, para quem ouve a ciência, é preocupante sentir que temos um tempo limitado para agir e que não estamos a fazer o suficiente.
E eu acredito muito que o BCSD quer cada vez mais ajudar as empresas nessa jornada. Há empresas que estão mais atrás, estão a começar, outras estão um pouco mais à frente, mas o importante é que possa haver uma partilha de propósito e de conhecimento, sobretudo das melhores práticas.
Quais são os principais entraves que identifica à transição sustentável? É sobretudo falta de conhecimento, de recursos e financiamento, ou existem outras dificuldades que as empresas vos transmitem?
Muitas das pequenas empresas que nos procuram já têm algum nível de consciência sobre esta temática. Acho que já ultrapassámos a fase em que a sustentabilidade era apenas um departamento. Eu acredito que tem de ser um chapéu macro, até para ajudar com a inovação, porque muitas das soluções surgem precisamente das limitações que enfrentamos. As restrições obrigam-nos a ser criativos e a encontrar respostas que talvez nunca tivéssemos procurado de outra forma.
Há muitas empresas, obviamente, que enfrentam dificuldades devido à forte pressão económica. E não podemos esquecer isso: as equipas são reduzidas, os recursos são limitados e, por isso, muitas vezes esta área acaba por não ser uma prioridade. Além disso, a componente de compliance é particularmente exigente: o reporting, toda a recolha de dados e, por isso, acredito que isto irá evoluir, no sentido em que a inteligência artificial vai ajudar-nos, e muito, a automatizar determinado tipo de tarefas que, na verdade, não acrescentam tanto valor. O que acrescenta valor é aquilo que conseguimos extrair dessa informação, aquilo que ela nos diz sobre a organização. E acho que essa é também a importância de termos dados, de medir informação, para podermos gerir melhor. Porque, caso contrário, nem sabemos por onde começar e acabamos por ter empresas perdidas.
As tecnologias, nomeadamente a inteligência artificial podem ajudar as empresas, mas também isso requer investimento.
Tudo requer investimento, mas as empresas podem começar com passos mais pequenos. Claro que ajuda ter uma visão, claro que a liderança também tem que sentir que há caminho e que quer incorporar a sustentabilidade na sua estratégia, com uma visão de longo prazo. Ficámos um pouco mais adormecidos com todo o ruído que anda à volta, seja destas questões geopolíticas, seja o aumento dos preços, seja com a questão da guerra no Irão, todos os desafios que sabemos e que acabam por impactar indiretamente as empresas. Eu diria que a tecnologia está a evoluir de forma muito rápida. O tipo de tecnologias e de oferta, por exemplo ao nível da energia, está cada vez mais acessível. Por isso, há cada vez mais incentivos e acredito que as empresas podem ir dando alguns passos. E investimento não é um custo, ele terá eventualmente o seu retorno. É preciso é haver vontade de esperar por esse retorno.
No meio disto, a União Europeia tem vindo a flexibilizar regras com o pacote Ómnibus. Isto alivia a pressão sobre as empresas ou acha que pode pôr em risco as metas ambientais?
Eu sinto que o grande desafio tem sido este avanço e recuo. E quando há avanços e recuos, a credibilidade se calhar perde-se. Eu percebo a necessidade de regular e de acelerar esta transição. Por outro lado, é preciso perceber se as condições estão reunidas e conhecer a realidade do tecido empresarial. Isso é fundamental. Acho que isso acabou por descredibilizar. Mas a data vai estar lá na mesma, um pouco mais à frente. Por isso, mais vale começar já do que estar a adiar uma coisa que sei que irá acontecer. Agora, quando há muitas pressões e outras prioridades, obviamente há esse afrouxamento. E, por isso, percebo que tenha sido necessário adiar a transposição de algumas diretivas e, em alguns casos, ter havido algum alívio.
Relativamente à questão de talento especializado, as empresas também sentem dificuldade em recrutar e reter talento nestas áreas?
De uma forma global, há muita coisa a mudar. Inclusivamente, há os desafios que agora se colocam com a inteligência artificial e também com a entrada desta nova geração, recém-formada, cujas competências, muitas vezes, ainda estão a ser desenvolvidas, mas que já não são, em parte, necessárias para tarefas que a inteligência artificial consegue cumprir ao nível mais básico. O que também é um desafio.
Por outro lado, estes temas têm a ver com o bem-estar nas organizações e com uma nova forma de estar e de trabalhar, que é cada vez mais importante, não só na captação, mas também naquilo a que se chama retenção de talento. Acima de tudo, acho que temos é de dar ferramentas às pessoas para se desenvolverem e quererem continuar essa jornada.
O BCSD Portugal faz este ano 25 anos. Que balanço faz da atuação da associação e o que é que gostaria de implementar no decorrer do seu mandato?
Os 25 anos são um momento muito importante para fazermos um balanço. De facto, há 25 anos, um pequeno grupo de empresas foi visionário ao colocar a sustentabilidade como prioridade e ao envolver outras grandes empresas. Uma associação tem sempre esse propósito: ajudar a acelerar as melhores práticas, a partilha de conhecimento e, a partir daí, definir uma visão comum. Aquilo que eu gostava, no limite, é que uma associação com este tipo de missão fosse tão bem-sucedida que deixasse de ser necessária. É um pouco uma utopia, mas eu acho que precisamos de utopias para definir metas ambiciosas mesmo que longínquas.
Agora, aquilo que eu gostaria, sendo o meu mandato de três anos e que coincidiu com mudanças políticas nos EUA e com uma grande complexidade geopolítica, é que pudéssemos fazer ver que precisamos de continuar a inovar e que a inovação é o motor da transformação, e a sustentabilidade tem de ser a base dessa inovação.
Grande parte do desenvolvimento económico da China vem da produção de turbinas eólicas, painéis solares e carros elétricos, setores que, há bem pouco tempo, estavam concentrados do outro lado do Atlântico. A China soube ver isso. Por isso, há aqui uma oportunidade económica clara: a sustentabilidade como base e como motor da inovação.
Acho que hoje é difícil quase fazer previsões a um ano, pela complexidade que estamos a viver a nível global. Mas sabemos que podemos definir essa visão. E importa também saber como a comunicamos e, sobretudo, como conseguimos trazer esperança. Essa esperança e a capacidade de criar redes fortes, inquebráveis de alguma forma, são essenciais para conseguirmos fazer essa transformação, por vezes, até contra tudo e contra todos. E é esse o caminho que, acima de tudo, eu vejo: continuar a trazer essa visão e essa inspiração.
Estamos a fazer também alguma renovação. Este ano está a decorrer um estudo de impacto do BCSD. Estamos a ouvir todo o ecossistema para perceber de que forma podemos continuar este caminho, mas também como podemos construir o futuro e fazer parte desta visão 2050, envolvendo as empresas do ecossistema na construção dessa visão. Acredito muito na cooperação e no trabalho em equipa. As grandes transformações não se fazem sozinhas. Há um provérbio africano que gosto muito de citar: “Se queres ir rápido, vai sozinho; se queres ir longe, vai acompanhado.”
Agora, precisamos de lideranças corajosas, nas empresas, mas também a nível político. Hoje em dia sentimos, de alguma forma, que estamos um pouco órfãos de lideranças inspiradoras que nos tragam esse alento. Por isso, quando assim é, as empresas têm de se chegar à frente. Eu venho de uma empresa familiar assim.
Precisamente, a Rita traz consigo esse legado familiar, o Grupo Nabeiro, que sempre teve um forte foco na sustentabilidade. Como pretende trazer esse contributo para o BCSD?
Exatamente. Sempre foi isso que vi, sobretudo pelo exemplo do meu avô, que era uma pessoa para quem a sustentabilidade tinha muito a ver com o impacto na comunidade e nas pessoas. Em grande parte, foi sempre essa a dimensão. Mas também percebi que não podemos ficar à espera que os outros façam. Temos de fazer a nossa parte e, se calhar, ir um pouco além daquilo que é apenas a dimensão económica da atividade empresarial. Podemos sempre ir um pouco mais além. E se todos formos um pouco mais além, esses círculos acabam por se expandir e tocar-se de alguma forma, cobrindo melhor as necessidades das nossas comunidades. Sabemos também que existe uma dimensão social importante: com a pressão económica e a insatisfação das pessoas, tudo isto pode gerar instabilidade social e, consequentemente, também económica.
Por isso, quando contribuímos para uma maior paz social, acabamos também por contribuir para maior prosperidade económica. Sempre foi esse o exemplo que vi, essa visão do legado que queremos deixar, mas acima de tudo da visão a longo prazo, mas também das ações concretas no momento.
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