3 min leitura
A transição energética não pode continuar a esquecer a biomassa e a gestão da floresta
Estamos a construir um sistema energético resiliente ou apenas a acelerar a massificação de algumas tecnologias? Por Manuel Pitrez de Barros, diretor-geral das Centrais de Biomassa do Norte (Viseu e Fundão)
19 Ago 2026 - 06:33
3 min leitura
Manuel Pitrez de Barros, diretor-geral das Centrais de Biomassa do Norte (Viseu e Fundão)
- ERSE fixa três fases para arranque do novo período de vazio às 22h30 a partir de 2027
- Guimarães vai lançar centro para divulgação ambiental
- EDP conclui projeto de armazenamento em baterias com 92 MW nos EUA
- Venezuela entrega à Hunt Oil exploração de dois campos de petróleo e gás
- Águas de Portugal investe 2 milhões de euros em infraestruturas de carregamento elétrico
- A transição energética não pode continuar a esquecer a biomassa e a gestão da floresta
Manuel Pitrez de Barros, diretor-geral das Centrais de Biomassa do Norte (Viseu e Fundão)
Portugal está a desenhar o seu mapa para as próximas décadas. Seria um erro histórico que continuássemos a tratar a biomassa como um recurso de segunda linha. Simplificar licenciamentos, desmantelar barreiras burocráticas e atrair investimento para as energias renováveis são medidas positivas, e o país deu um passo relevante ao aprovar alterações legislativas destinadas a acelerar a transição energética. Contudo, persiste uma questão estrutural: estamos a construir um sistema energético resiliente ou apenas a acelerar a massificação de algumas tecnologias?
O debate público e político continua estreitamente centrado no solar, na eólica, no armazenamento, no hidrogénio verde e no biometano. Todas estas soluções são fundamentais. No entanto, a biomassa e a gestão dos resíduos florestais, permanecem arredados das grandes prioridades, apesar de constituírem, entre outras, uma das poucas fontes renováveis capazes de responder, em simultâneo, à tripla urgência: energética, ambiental e de coesão do território.
A biomassa, ao contrário de outras tecnologias que dependem da importação de componentes e de cadeias de abastecimento globais, é uma matéria-prima genuinamente nacional. O seu aproveitamento significa reter o valor económico dentro das nossas fronteiras, transformando um recurso endógeno num motor de autonomia. Cada tonelada valorizada nas centrais representa menos combustível acumulado nas matas, menor risco de incêndios e mais rendimento para o mundo rural.
Contudo, este tem sido precisamente o erro do passado: continuamos a olhar para a biomassa quase exclusivamente como um mecanismo reativo de mitigação de incêndios, quando o foco deveria estar na sua valorização económica e industrial. A floresta não se protege apenas gerando custos de limpeza; protege-se gerando receitas através do aproveitamento inteligente dos seus recursos.
Além disso, urge perceber o imenso potencial de valorização dos bioprodutos e materiais sustentáveis gerados a partir deste ecossistema. A biomassa já não é apenas queima; é a base para a bioeconomia do futuro. O país tem aqui a oportunidade de liderar a rota dos novos combustíveis sintéticos, servindo de fundação para indústrias estratégicas como a produção de e-SAF (combustível sustentável para a aviação). Portugal pode ser um exportador de sustentabilidade para o setor dos transportes mais difícil de descarbonizar.
Apesar deste impacto multifacetado, o ecossistema político teima em olhar para a biomassa como mera tecnologia residual, quando deveria elevá-la a instrumento de inovação industrial e ordenamento do território.
Os recentes diplomas simplificam processos administrativos. É um avanço técnico assinalável. Mas continua a falhar a visão integrada: a gestão florestal sustentável não se faz apenas com decretos-lei. Faz-se criando valor real para o resíduo que permanece no terreno. Sem mercado, sem escoamento e sem o estímulo a estas novas frentes tecnológicas, não haverá limpeza contínua e viável.
Num contexto geopolítico volátil, diversificar as fontes é uma questão de soberania. Ao contrário da intermitência do clima, a biomassa fornece energia de base: contínua e previsível, garantindo o equilíbrio da rede nos momentos de maior tensão.
Numa geografia onde a floresta representa simultaneamente riqueza, risco e responsabilidade, ela não é apenas mais uma opção no menu das renováveis. É a peça que falta para a nossa verdadeira soberania energética e industrial.
- ERSE fixa três fases para arranque do novo período de vazio às 22h30 a partir de 2027
- Guimarães vai lançar centro para divulgação ambiental
- EDP conclui projeto de armazenamento em baterias com 92 MW nos EUA
- Venezuela entrega à Hunt Oil exploração de dois campos de petróleo e gás
- Águas de Portugal investe 2 milhões de euros em infraestruturas de carregamento elétrico
- A transição energética não pode continuar a esquecer a biomassa e a gestão da floresta