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Mercado ibérico: porque voltaram a subir os preços da eletricidade?
Como pode a eletricidade atingir estes valores quando Portugal e Espanha produzem cada vez mais energia renovável? A resposta está na capacidade de disponibilizar essa energia no momento em que é necessária. Por Andreia Carreiro, diretora de Inovação da Cleanwatts Digital
17 Ago 2026 - 06:45
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Andreia Carreiro, diretora de Inovação da Cleanwatts Digital
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Andreia Carreiro, diretora de Inovação da Cleanwatts Digital
Depois de vários meses marcados por preços moderados e, em algumas horas, próximos de zero ou mesmo negativos, a eletricidade voltou a encarecer significativamente no mercado ibérico. Em Portugal, o preço médio do mercado diário foi de aproximadamente 66 €/MWh em 2025. Em maio de 2026, os preços médios situaram-se em cerca de 54 €/MWh, aumentando, em junho, para cerca de 70 €/MWh. Para entrega em 14 de agosto, o preço atingiu cerca de 140 €/MWh em Espanha e 146 €/MWh em Portugal, mais do dobro da média registada em 2025. Esta evolução mostra não apenas uma subida recente, mas também a forte volatilidade a que consumidores e empresas continuam expostos.
Como pode a eletricidade atingir estes valores quando Portugal e Espanha produzem cada vez mais energia renovável? A resposta está na capacidade de disponibilizar essa energia no momento em que é necessária.
Nas horas de maior produção solar, a eletricidade pode ser abundante e barata. Ao final da tarde, porém, a produção fotovoltaica diminui, enquanto o consumo permanece elevado. Sem armazenamento suficiente, o sistema necessita de recorrer a outras tecnologias, nomeadamente às centrais a gás, com custos de produção superiores.
No mercado marginalista europeu, o preço da eletricidade em cada período é determinado pela última tecnologia necessária para satisfazer a procura. Quando essa tecnologia é uma central a gás, os custos do combustível, das emissões de dióxido de carbono e da operação influenciam o preço de toda a eletricidade transacionada nesse período.
O próprio gás natural encareceu nos últimos meses. No final de março, o produto para entrega no dia seguinte no MIBGAS negociava perto dos 53 €/MWh. Para entrega em 14 de agosto, situava-se em cerca de 60 €/MWh, uma subida próxima de 15%. Assim, sempre que as centrais a gás são necessárias para equilibrar o sistema, esta evolução repercute-se no preço da eletricidade.
A pressão é também agravada pelo aumento da procura. Portugal consumiu 27,2 TWh no primeiro semestre de 2026, mais 3,5% do que no período homólogo e o valor mais elevado de sempre para os primeiros seis meses do ano. No início de julho, a procura instantânea alcançou um novo máximo, atingindo 8.493 MW de potência, face ao anterior máximo de 7.918 MW, registado em junho de 2025.
Para além do aumento do consumo associado à eletrificação da mobilidade, da indústria e dos sistemas de aquecimento, prevê-se a entrada em funcionamento de novos projetos com necessidades energéticas significativas, nomeadamente centros de dados. Este crescimento esperado da procura reforça a urgência de preparar o sistema elétrico, através de nova produção renovável, redes mais robustas, armazenamento e soluções de flexibilidade.
As limitações das interligações também podem condicionar os preços. Quando a capacidade de ligação entre Portugal e Espanha é insuficiente para acomodar os fluxos necessários, os mercados separam-se e Portugal pode ficar sujeito a valores superiores. Além disso, a limitada interligação da Península Ibérica com França restringe a integração com o restante mercado europeu.
Para as empresas com consumos energéticos significativos, esta volatilidade representa um risco financeiro e competitivo. Uma das formas de reduzir essa exposição consiste na celebração de contratos de aquisição de energia de longo prazo, conhecidos pela sigla PPA. Ao permitirem contratar uma parte do consumo a um preço previamente definido ou segundo uma fórmula acordada, estes contratos oferecem maior estabilidade, facilitam o planeamento de custos e dão às empresas mais segurança para tomar decisões de investimento.
O autoconsumo constitui igualmente uma resposta importante. No autoconsumo coletivo, a energia produzida localmente pode ser partilhada entre empresas, edifícios ou outras instalações integradas numa comunidade de energia, reduzindo a eletricidade adquirida à rede. A associação de baterias permite armazenar os excedentes para utilização nas horas de menor produção renovável ou de maior preço, enquanto os sistemas inteligentes de gestão otimizam a produção, o armazenamento e o consumo, aumentando o aproveitamento da energia local e reduzindo a exposição às horas de maior preço.
A subida dos preços não significa que existam renováveis a mais. Mostra que ainda temos armazenamento, flexibilidade, redes e interligações a menos. Completar a transição energética exige, por isso, continuar a aumentar a produção limpa, garantindo também que essa energia pode ser armazenada, transportada e consumida no momento certo. Só assim será possível transformar o crescimento das renováveis em preços mais estáveis e numa energia sustentável e competitiva para famílias e empresas.
(Dados atualizados a 14 de agosto de 2026)
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