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Portugal tem uma vantagem energética. Falta transformá-la em competitividade
A energia tornou-se um fator determinante na localização do investimento, nos custos de produção, na resiliência das operações e, em última análise, na capacidade de competir. Por Luis Pinho, diretor da Helexia Portugal
30 Set 2026 - 06:44
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Luis Pinho diretor da Helexia Portugal
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Luis Pinho diretor da Helexia Portugal
Durante décadas, Portugal procurou identificar a verdadeira vantagem competitiva. Falamos de talento, localização geoestratégica, estabilidade institucional e capacidade de inovação. Todos estes fatores são relevantes. Mas há hoje uma variável que ganhou centralidade económica e estratégica: a energia.
Não se trata apenas de uma questão ambiental. A energia tornou-se um fator determinante na localização do investimento, nos custos de produção, na resiliência das operações e, em última análise, na capacidade de competir.
O diagnóstico europeu é claro. O relatório de Mario Draghi sobre o futuro da competitividade europeia concluiu que as empresas da União Europeia continuam a enfrentar preços de eletricidade duas a três vezes superiores aos dos Estados Unidos e preços de gás quatro a cinco vezes mais elevados. Num contexto de crescente concorrência internacional, esta diferença não é apenas uma desvantagem energética: é uma desvantagem industrial.
É precisamente neste contexto que Portugal pode assumir uma posição diferenciadora.
Em 2024, as fontes renováveis asseguraram 71% do consumo de eletricidade em Portugal, beneficiando de uma combinação particularmente favorável de recursos hídricos, eólicos e solares. No contexto da Iberian Industry and Energy Transition Initiative, a McKinsey estimou que a energia limpa produzida na Península Ibérica pode ser entre 20% e 30% mais competitiva do que a média europeia.
Também no investimento existem sinais positivos. Uma análise da OCDE concluiu que Portugal foi uma das únicas duas economias avançadas, num conjunto de 34 países, em que o investimento líquido ultrapassou a tendência anterior à crise financeira. Este dado não significa que a energia seja a única explicação para o desempenho português. Confirma, no entanto, que o país se encontra num momento particularmente relevante para consolidar a sua capacidade de atração de investimento produtivo.
Mas é importante reconhecer que uma elevada disponibilidade de energia renovável não se traduz automaticamente numa fatura mais competitiva para todas as empresas.
A competitividade energética não se mede apenas pela percentagem de renováveis no sistema elétrico. Mede-se pelo custo efetivo da energia para as empresas, pela previsibilidade desse custo e pela capacidade de o integrar nas decisões de investimento, produção e operação.
A capacidade das redes, os processos de licenciamento, as tarifas, a fiscalidade, as condições de contratação, o armazenamento e a correspondência entre os momentos de produção e de consumo determinam quanto dessa vantagem chega efetivamente às empresas.
Uma vantagem energética só se transforma numa vantagem competitiva quando chega ao contador, à operação e à demonstração de resultados. Os investidores internacionais compreendem cada vez melhor esta realidade. Nos projetos industriais mais intensivos em energia, a estratégia energética começa a ser definida antes do início da operação. Quanto será consumido? Que parte poderá ser evitada através da eficiência? Quanto poderá ser produzido localmente? Que consumos podem ser deslocados? Qual o papel do armazenamento? Como reduzir a exposição à volatilidade durante a vida útil do investimento?
A energia deixa, assim, de ser uma despesa aceite no final do mês e passa a ser uma variável considerada desde a conceção do projeto.
Em contrapartida, uma parte relevante do tecido empresarial continua a gerir a energia sobretudo através da renegociação periódica do contrato de fornecimento. Essa negociação é necessária, mas não constitui, por si só, uma estratégia energética.
Uma verdadeira estratégia começa por compreender como, quando e onde a energia é consumida. Depois, combina eficiência energética, produção local, armazenamento, flexibilidade, eletrificação e contratação de longo prazo de acordo com o perfil operacional e os objetivos financeiros de cada empresa.
O valor não está apenas em instalar uma determinada tecnologia. Está na forma como as diferentes soluções trabalham em conjunto para reduzir custos, emissões e exposição ao mercado, sem comprometer a continuidade da operação.
É também essa a realidade que observamos no terreno: os projetos que criam mais valor são aqueles que partem de uma visão integrada. O autoconsumo solar, a eficiência energética, o armazenamento e a gestão ativa da energia não devem ser tratados como investimentos independentes, mas como componentes de uma mesma arquitetura energética.
O desafio, portanto, já não é essencialmente tecnológico. As soluções existem, os resultados podem ser medidos e os modelos de financiamento permitem, em muitos casos, avançar sem desviar capital do core business. O principal desafio é de gestão e de capacidade de execução.
Portugal tem, naturalmente, trabalho por fazer. Precisa de reforçar as redes, acelerar o licenciamento, desenvolver capacidade de armazenamento e garantir estabilidade regulatória. Mas as empresas não têm de esperar que todos esses desafios estejam resolvidos para começar a gerir melhor a energia que consomem.
As vantagens competitivas não são permanentes. À medida que outros países aceleram o investimento em renováveis, redes e armazenamento, a diferença tenderá a diminuir.
Portugal tem recursos. Tem localização. Tem experiência acumulada em renováveis. Tem uma janela de oportunidade. Mas, como qualquer vantagem competitiva, o tempo conta. A questão já não é saber se o país possui recursos energéticos capazes de apoiar a sua competitividade. É saber se conseguiremos transformá-los em custos mais baixos, maior resiliência, novo investimento e crescimento económico.
Os países distinguem-se pelos recursos de que dispõem. As empresas e as economias distinguem-se pela capacidade de os transformar em valor antes dos outros.
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