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Adaptação climática, um problema económico nacional

Hoje, o verdadeiro teste à resiliência económica passa pela capacidade de proteger infraestruturas, garantir continuidade de negócio e reduzir perdas financeiras em contextos de crise climática. Por Sofia Santos, CEO da Systemic Sphere

18 Mai 2026 - 06:25

3 min leitura

Sofia Santos, CEO da Systemic

Sofia Santos, CEO da Systemic

Portugal enfrenta hoje um dos maiores desafios estruturais da sua economia: a adaptação às alterações climáticas. Em apenas três meses, o país perdeu, pelo menos, cerca de cinco mil milhões de euros devido a tempestades e fenómenos extremos — um valor sem precedentes na história recente. Nunca Portugal tinha registado perdas tão elevadas num período de tempo tão curto. Este dado, mais do que alarmante, deve ser entendido como um sinal claro de que o risco climático deixou de ser um tema ambiental para passar a ser um problema económico de primeira ordem.

Hoje, o verdadeiro teste à resiliência económica passa pela capacidade de proteger infraestruturas, garantir continuidade de negócio e reduzir perdas financeiras em contextos de crise climática. A adaptação deixou de ser preventiva — é agora uma resposta urgente a riscos já materializados. Portugal necessita de reconhecer a adaptação climática como peça central ao crescimento da economia.

Foi neste contexto que Lisboa acolheu recentemente uma conferência no ISEG e dinamizada pela Systemic Sphere dedicada ao papel do financiamento climático no desenvolvimento económico em países africanos. O debate tornou evidente que, em muitas geografias, a adaptação já não se discute no plano conceptual — implementa-se através de instrumentos concretos. Os problemas de adaptação em África são na realidade, os mesmos que em Portugal. A participação de instituições como o Green Climate Fund, a GGGI ou o World Resources Institute demonstrou que existem soluções financeiras testadas, com impacto real, que combinam capital público, privado e multilateral.

Em paralelo, o encontro de 2026 da Tagus Roundtable também no ISEG, veio reforçar o posicionamento de Lisboa como um espaço de diálogo estratégico entre Europa e África. Estes fóruns são particularmente relevantes porque mostram algo contraintuitivo: algumas das soluções mais inovadoras em adaptação climática não vêm dos mercados mais desenvolvidos, mas de países africanos forçados a responder rapidamente a contextos de elevada vulnerabilidade.

Essas soluções são hoje claras. No setor segurador, os seguros paramétricos — que pagam automaticamente com base em indicadores como precipitação ou intensidade de tempestades — permitem responder de forma rápida e eficiente a choques climáticos. No setor bancário, instrumentos como linhas de crédito para adaptação, resilience bonds ou estruturas de blended finance têm sido utilizados para financiar infraestruturas resilientes e reduzir o risco para investidores.

Portugal tem muito a ganhar em aprender com estas experiências. Não se trata de importar modelos, mas de adaptar abordagens que já foram testadas em contextos complexos. Ao fazê-lo, o país pode acelerar a criação de soluções financeiras adequadas à sua realidade, reduzindo a exposição a perdas futuras e aumentando a previsibilidade económica.

Para que isso aconteça, é fundamental reforçar a interação com instituições multilaterais. Estas entidades desempenham um papel crítico na estruturação de instrumentos financeiros para a adaptação, oferecendo não apenas financiamento, mas também conhecimento técnico, capacidade de partilha de risco e experiência acumulada em diferentes geografias.

Portugal está, assim, perante uma escolha clara: continuar a reagir aos impactos climáticos ou antecipá-los com inteligência financeira. A adaptação já não é apenas uma questão ambiental — é um dos principais determinantes da estabilidade económica futura.

 

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