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António Guterres: “Demasiados líderes continuam cativos de interesses entrincheirados”
Na abertura da Conferência de Líderes da COP30, Guterres avisou que a falta de coragem política está a travar a luta contra o aquecimento global. Lula da Silva disse ainda ser necessário superar desigualdades.
06 Nov 2025 - 16:49
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António Guterres e Lula da Silva | Foto: COP30
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António Guterres e Lula da Silva | Foto: COP30
“A dura realidade é que não conseguimos garantir que continuaremos abaixo de 1,5 graus”, admitiu o secretário-geral da ONU ao abrir a Conferência de Líderes da COP30, nesta quinta-feira, em Belém, no Brasil. O que ainda falta, a seu ver, é coragem política. “Os combustíveis fósseis ainda recebem vastos subsídios – dinheiro dos contribuintes. Demasiadas empresas estão a obter lucros recorde com a devastação climática, gastando milhares de milhões em ‘lobbying’, enganando o público e obstruindo o progresso”, explicou numa sala preenchida por líderes de todas as partes. “Demasiados líderes continuam cativos destes interesses entrincheirados”, rematou ainda, “chega de ‘greenwashing’”.
António Guterres alertou que mesmo um excedente temporário poderá empurrar os ecossistemas para “pontos de inflexão irreversíveis”, expor milhares de milhões a “condições inviáveis” e amplificar as ameaças à segurança e à paz. “Isto é uma falha moral – e uma negligência mortal”, frisou ao adicionar que as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, em inglês) recentemente apresentadas representam um progresso, mas ainda estão longe do necessário.
Enquanto isso, a crise climática está a acelerar. Guterres relembra os incêndios florestais recordes, inundações mortais, supertempestades que estão a destruir “vidas, economias e décadas de progresso”. Recorde-se que a Organização Meteorológica Mundial confirmou também, no início da sessão em Belém do Pará, que as emissões continuaram em crescimento em 2025, ao registar 1,42 ºC.
“Sejamos claros: o limite de 1,5 °C é uma linha vermelha para a humanidade. Tem de ser mantido ao nosso alcance. E os cientistas também nos dizem que isso ainda é possível”, apelou o líder. Acrescentou que as Nações Unidas “não desistirão da meta de 1,5 graus, porque outra verdade é evidente: nunca estivemos tão bem equipados para lutar”. Salientou que a energia limpa esta ganhar “em preço, desempenho e potencial”, ao oferecer soluções para transformar as economias e proteger as populações.
Guterres defendeu que se deve traçar um caminho “claro e credível para atingir os 1,3 biliões de dólares americanos por ano em financiamento climático para os países em desenvolvimento até 2035”, tal como ficou acordado na COP 29 em Baku.
“Os países desenvolvidos devem assumir a liderança na mobilização de 300 mil milhões de dólares anualmente, proporcionando financiamento acessível e previsível na escala acordada”, reiterou.
O líder das Nações Unidas argumenta que os países em desenvolvimento devem sair de Belém equipados com “um pacote de justiça climática que proporcione equidade, dignidade e oportunidades”. Isto é, com um plano concreto para colmatar o défice de financiamento da adaptação, um dos principais temas em debate nesta Conferência das Partes.
Numa última nota, Guterres declarou: “Podemos escolher liderar ou ser levados à ruína. Escolham fazer de Belém o ponto de viragem. Apoiem a ciência. Defendam a justiça. Defendam as gerações futuras”.
Já o Presidente Lula da Silva, após sublinhar a importância da realização de uma COP no coração do mundo, deixou claro que esta “será a COP da verdade”. Referiu que as convergências já são conhecidas. “O nosso objetivo será enfrentar as divergências. Podemos e devemos discutir tudo”, esclareceu.
O líder brasileiro argumentou que, para avançar, será necessário ultrapassar a “desconexão entre os salões diplomáticos e o mundo real”. A seu ver, “as pessoas podem não entender o que são emissões ou toneladas métricas de carbono, mas sentem a poluição”. Assegura, então, que o combate às alterações climáticas deve estar no centro das decisões de “cada governo, cada empresa e cada pessoa”.
Será ainda necessário superar as desigualdades, segundo o governante, dado que existe um desfasamento entre “o contexto geopolítico e a urgência climática”. Concluiu que se está a verificar o “aprisionamento das gerações futuras a um modelo ultrapassado que perpetua disparidades sociais e económicas”.
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