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Capacidade global de energia limpa deverá mais do que duplicar até 2030 com solar a representar 80%
Relatório anual da AIE destaca crescimento recorde das renováveis no meio de tensões geopolíticas, desafios nas cadeias de fornecimento, na integração das redes, por pressões financeiras e mudanças nas políticas públicas.
07 Out 2025 - 07:51
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Foto: Adobe Stock/Photocreo Bednarek
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A capacidade instalada de produção de energia renovável deverá mais do que duplicar até 2030, à medida que o setor enfrenta desafios nas cadeias de abastecimento, na integração nas redes elétricas e no financiamento.
As fontes renováveis de produção de eletricidade continuam a crescer de forma robusta em todo o mundo, com a capacidade global a prever-se que mais do que duplique até 2030, de acordo com a mais previsão de médio prazo da Agência Internacional de Energia (AIE), divulgada nesta terça-feira.
Liderada pelo rápido aumento da energia solar fotovoltaica, a expansão das renováveis ocorre num contexto de tensões nas cadeias de fornecimento, desafios de integração nas redes elétricas, pressões financeiras e mudanças nas políticas públicas, destaca a AIE
O relatório Renewables 2025, principal publicação anual da AIE sobre o setor, prevê que a capacidade mundial de produção de energia renovável aumente em 4 600 gigawatts (GW) até 2030 – o equivalente a somar as capacidades totais de geração elétrica da China, da União Europeia e do Japão.
A energia solar fotovoltaica representará cerca de 80% do aumento global da capacidade renovável nos próximos cinco anos – impulsionada pelos baixos custos e por prazos de licenciamento mais rápidos – seguida da energia eólica, hídrica, bioenergia e geotérmica. As instalações geotérmicas deverão atingir máximos históricos em mercados-chave como os Estados Unidos, o Japão, a Indonésia e várias economias emergentes e em desenvolvimento.
Desafios crescentes
Os crescentes desafios de integração nas redes estão a renovar o interesse pela energia hidroelétrica de bombagem, cujo crescimento se prevê ser quase 80% mais rápido nos próximos cinco anos do que nos cinco anteriores.
Nas economias emergentes da Ásia, do Médio Oriente e de África, a competitividade dos custos e um maior apoio político estão a impulsionar um crescimento mais rápido das renováveis, com muitos governos a lançarem novos programas de leilões e a aumentarem as suas metas. A Índia deverá tornar-se o segundo maior mercado de crescimento das renováveis a nível mundial, depois da China, e espera-se que atinja confortavelmente o seu ambicioso objetivo para 2030.
Eólica offshore com crescimento ‘mais fraco’
Ao nível empresarial, a confiança nas energias renováveis mantém-se elevada. A maioria dos grandes promotores manteve ou aumentou as suas metas de implantação até 2030 em comparação com o ano anterior, refletindo resiliência e otimismo no setor. A energia eólica offshore é a exceção, com uma perspetiva de crescimento “mais fraca” – cerca de 25% inferior à do relatório do ano passado – devido a mudanças políticas em mercados-chave, estrangulamentos nas cadeias de abastecimento e aumento de custos, explica a AIE.
“O crescimento da capacidade global de energias renováveis nos próximos anos será dominado pela energia solar fotovoltaica – mas com contributos também da eólica, hídrica, bioenergia e geotérmica”, afirmou Fatih Birol, diretor executivo da AIE. E acrescenta: “A energia solar fotovoltaica deverá representar cerca de 80% do aumento da capacidade renovável mundial nos próximos cinco anos. Para além do crescimento nos mercados consolidados, a energia solar está prestes a acelerar em economias como a Arábia Saudita, o Paquistão e vários países do Sudeste Asiático. À medida que o papel das renováveis nos sistemas elétricos cresce em muitos países, os decisores políticos precisam de prestar especial atenção à segurança das cadeias de abastecimento e aos desafios de integração nas redes.”
Mudanças na EUA e China impactam crescimento
As perspetivas do relatório para o crescimento da capacidade renovável global foram revistas ligeiramente em baixa em comparação com o ano passado, devido sobretudo a mudanças políticas nos Estados Unidos e na China. O fim antecipado de incentivos fiscais federais e outras alterações regulatórias nos EUA reduziram as expectativas de crescimento das renováveis nesse mercado em quase 50% face às previsões anteriores.
A transição da China de tarifas fixas para leilões está a afetar a viabilidade económica dos projetos, levando a uma revisão em baixa das previsões para o crescimento das renováveis no mercado chinês.
Porém, a AIE refere que estas revisões são parcialmente compensadas pelo dinamismo noutras regiões – em especial na Índia, na Europa e em grande parte das economias emergentes e em desenvolvimento – onde as perspetivas de crescimento foram revistas em alta devido a novas políticas ambiciosas, maior volume de leilões, processos de licenciamento mais rápidos e aumento da instalação de sistemas solares em telhados. Os acordos corporativos de compra de eletricidade (PPA), os contratos com serviços públicos e as centrais independentes de mercado também são motores importantes, representando em conjunto 30% da expansão global da capacidade renovável até 2030 – o dobro da quota prevista no relatório anterior.
Domínio da China traz alguns perigos
A energia solar fotovoltaica deverá dominar o crescimento das renováveis entre agora e 2030, permanecendo a opção de menor custo para nova geração na maioria dos países. A energia eólica, apesar dos desafios a curto prazo, também deverá registar uma expansão considerável à medida que os estrangulamentos na cadeia de abastecimento forem sendo ultrapassados e os projetos avançarem, especialmente na China, na Europa e na Índia. A energia hídrica e outras tecnologias renováveis continuarão a desempenhar papéis importantes no apoio aos sistemas elétricos e no reforço da sua flexibilidade.
As cadeias de abastecimento globais de energia solar fotovoltaica e dos elementos de terras raras usados nas turbinas eólicas continuam fortemente concentradas na China, o que sublinha os riscos contínuos para a segurança do fornecimento. Embora estejam a ser realizados novos investimentos para diversificar as cadeias de abastecimento em vários países, a concentração na China em segmentos-chave de produção deverá manter-se acima dos 90% até 2030.
Ao mesmo tempo, o rápido crescimento das renováveis variáveis está a colocar uma “pressão crescente” sobre os sistemas elétricos. Casos de limitação de produção e de preços negativos já estão a surgir em mais mercados, “sinalizando a necessidade urgente de investimento em redes, armazenamento e geração flexível”, destaca o relatório. Vários países já começaram a responder com novos leilões de capacidade e de armazenamento, mas “será necessário fazer muito mais para garantir que as renováveis variáveis sejam integradas de forma económica e segura”, considera a Agência.
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