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Cristina Casalinho: “Não há uma empresa que seja sustentável e não seja viável financeiramente”
A administradora da Fundação Gulbenkian defendeu, na conferência Green Finance, que sustentabilidade acabará por se tornar invisível, porque será incorporada nos próprios modelos. Painel contou também com representantes da EDP, Secil e Indie Capital Partners.
28 Nov 2025 - 11:13
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João Gouveia Carvalho, André de Almeida Santos, Carlos Correia de Barros e Cristina Casalinho | Foto: Jornal PT Green
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João Gouveia Carvalho, André de Almeida Santos, Carlos Correia de Barros e Cristina Casalinho | Foto: Jornal PT Green
Cristina Casalinho, administradora da Fundação Gulbenkian, considera que a sustentabilidade acabará por se tornar invisível, porque dentro de 40 a 50 anos “esta componente vai ser incorporada nos próprios modelos. O que estamos a falar é de internalizar externalidades que sempre existiram”, defendeu na conferência Green Finance, promovida nesta quinta-feira pelo Jornal PT Green com o apoio do Jornal PT50 e do Novo Banco.
No painel “Inovação Financeira e Mercados Verdes”, moderado por Vera Ferreira de Lima, partner da Linklaters, Cristina Casalinho sublinhou que a sustentabilidade obriga a olhar para riscos antes ignorados. “Se uma fábrica estiver numa zona de cheias, isso tem de entrar no modelo de cash flow. São riscos que sempre existiram, mas que eram negligenciados.”
Explicou como a Fundação Gulbenkian integrou a visão ESG (Environmental, Social, and Governance) em toda a carteira, tanto na gestão passiva, em que “passámos do MSCI World para o MSCI World ESG e Universal”, como na gestão ativa, onde o escrutínio dos gestores é rigoroso em que “monitorizamos desde a pegada carbónica à idade média dos colaboradores, diversidade de género ou contingências laborais”. Descreveu também o braço de impacto da Fundação, com investimentos em reflorestação, economia azul e start-ups de impacto: “A nossa lógica é escrutínio, reporte e monitorização”.
Cristina Casalinho foi cautelosa quanto ao futuro imediato. Salientou que alguns dos retrocessos fazem parte do processo de crescimento. Aquele cenário que achávamos que iria ser mais acelerado, provavelmente não vai ser tão rápido” e revelou que, como se pode constatar pelos relatórios e contas, “nenhuma fundação se compromete em pagar um prémio por ter uma agenda de investimentos mais sustentável. A rentabilidade continua a ser a principal preocupação.”
Pioneiros nas finanças verdes
João Gouveia Carvalho, Head Corporate Finance da EDP Global, apresentou o que pode ser considerado o exemplo mais avançado de integração do green finance em Portugal. A evolução da empresa é notável. O primeiro financiamento verde foi realizado apenas em 2018, mas hoje virtualmente 100% do novo funding da EDP tem características verdes.
“Para a EDP, neste momento, já não é mais um KPI como já foi. Há uns anos, o Green Financing era um tema de KPI, era um objetivo que tínhamos num plano para atingir. Hoje em dia já não estamos aí. O Green Financing faz parte integrante de toda a nossa estratégia. Virtualmente 100% do nosso investimento e do nosso funding é verde”, explicou João Gouveia Carvalho.

Foto: Jornal PT Green
A empresa vai no seu quarto framework de financiamento verde e mais de 80% do stock de funding atual tem características sustentáveis. Na emissão desta semana, um dado revela a mudança no mercado: 81% dos investidores que compraram as obrigações seguem políticas com critérios de sustentabilidade.
O executivo da EDP acredita que há um prémio no mercado para empresas líderes em sustentabilidade, embora difícil de quantificar: “Nas estatísticas de mercado, fala-se de 0 a 5 pontos base de benefício. É difícil medir isto, mas eu acredito que o nosso preço estreito tem a ver com este framework que sustenta a nossa atividade.”
Crítica ao Modelo ESG
“Sou particularmente dissonante em relação ao ESG. Há uma ambição tecnocrática que pede às PME e start-ups um nível de reporte impossível de cumprir”, disse André de Almeida Santos, partner da Indie Capital Partners. Com mais de 25 anos de experiência em finanças sustentáveis, não poupou palavras. Mas não deixou de reconhecer a importância do governance nas start-ups europeias e que se configura com uma vantagem em relação às norte-americanas.
André de Almeida Santos identifica dois problemas fundamentais. Primeiro, uma visão tecnocrática que impõe valores sem diálogo social adequado. Considera que “a questão não é falta de informação, a questão também não é falta de regulação per si, até porque a regulação aconteceu e depois criou um backlash.”
Segundo, a ambição impossível de monitorizar todas as externalidades e o risco de desajuste entre ideal regulatório e realidade empresarial”. As start-ups querem causar impacto até certo ponto, ou seja, até ao ponto da sobrevivência. Muitas não têm sequer capacidade para preencher métricas básicas de ESG”.
A experiência prática confirma as dificuldades. Mesmo empresas que procuram causar impacto positivo enfrentam obstáculos. Revela que “há dificuldades em conseguir cumprir métricas de escrutínio e de informação. Muitas vezes, o próprio founder não está interessado, o que não deixa de ser um comentário lateral curioso quando estamos à espera de uma evolução geracional com mais sensibilidade para os assuntos de sustentabilidade”.
Apesar das críticas, André de Almeida Santos reconhece que o investimento de impacto continua forte, e que tecnologias limpas são negócios viáveis. “O cleantech é um modelo de negócio viável. Há uma procura enorme. Comprovando que no fundo há um negócio que faz dinheiro, é limpo, é sustentável, traz inovação”, concluiu André de Almeida Santos.
Descarbonizar o impossível
Carlos Correia de Barros, CFO da Secil, apresentou talvez o desafio mais complexo, que é descarbonizar a produção de cimento, responsável por 6% das emissões globais de CO2. A indústria tem metas claras até 2050 e marcos ambiciosos já em 2030. Mas o caminho não é simples. “O ser humano está a construir o equivalente a uma cidade de Nova Iorque por mês, e vamos continuar neste ritmo até 2050. Se pararmos de produzir cimento, recuamos um século”, contextualizou Barros.
A solução passa por investimento massivo em tecnologia, mas, com o atual estado da arte, para descarbonizar completamente até 2050, seria necessário duplicar o preço do cimento, o que representaria apenas 1 a 3% de aumento nos custos de construção “15 a 30 euros por m²”, um impacto que Barros considera gerível.
A diferença entre mercados – além de Portugal, a Secil tem fábricas no Brasil, Tunísia, Líbano e Angola – também impacta na descarbonização e no financiamento verde. Na Europa, o sistema ETS (Emissions Trading System) torna os investimentos em redução carbónica financeiramente rentáveis. Fora da Europa, a história é diferente, porque o financiamento verde era menos compreensível. A evolução aconteceu gradualmente, primeiro no Brasil, depois noutras geografias. A Secil foi a primeira cimenteira europeia a financiar um projeto com Green Bond específico, na fábrica do Outão em Portugal, reduzindo 20% das emissões.
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