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Empresa de Trump entra na corrida à energia de fusão nuclear
Negócio com TAE Technologies prevê construção da primeira central elétrica de fusão à escala comercial em 2026, apesar de a tecnologia ainda estar em desenvolvimento. Críticos apontam conflito de interesses no negócio.
22 Dez 2025 - 11:17
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Foto: Wikimedia/Gage Skidmore
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Foto: Wikimedia/Gage Skidmore
A Trump Media & Technology Group (TMTG), detida em 58,7% pelo Presidente Donald Trump, acaba de entrar na corrida ao desenvolvimento da promissora tecnologia de fusão nuclear. A empresa anunciou a fusão da TMTG com a TAE Technologies, empresa norte-americana especializada em energia de fusão nuclear, numa transação integralmente em ações avaliada em mais de 6 mil milhões de dólares (cerca de 5,5 mil milhões de euros).
Após a conclusão do negócio, prevista para meados de 2026, os acionistas de cada empresa deterão aproximadamente 50% da nova entidade, numa base de capital totalmente diluído.
A empresa combinada pretende localizar e iniciar, já em 2026, a construção da primeira central elétrica de fusão à escala comercial do mundo, com uma capacidade inicial de 50 MWe, sujeita às aprovações necessárias, estando planeadas unidades adicionais entre 350 e 500 MWe.
Em comunicado, a Trump Media afirma que “as centrais de fusão deverão fornecer eletricidade económica, abundante e fiável, ajudando os Estados Unidos a vencer a revolução da inteligência artificial e a manter a sua dominância económica global”.
Contudo, recorde-se que a energia de fusão está ainda em desenvolvimento em vários projetos a nível global. A Agência Internacional de Energia Atómica aponta a energia de fusão como uma prioridade estratégica para investigação e desenvolvimento na área da energia limpa. Ao contrário da fissão nuclear, a tecnologia convencional que divide átomos pesados e gera resíduos perigosos, a fusão une átomos leves, produz energia limpa, com poucos resíduos e sem risco de acidentes graves, usando combustível abundante e seguro.
Porém, a TMTG alega que, após mais de 25 anos de investigação e desenvolvimento, “a TAE reduziu significativamente a dimensão, o custo e a complexidade dos reatores de fusão. A empresa construiu e operou com segurança cinco reatores de fusão e angariou mais de 1,3 mil milhões de dólares em capital privado, com investimentos da Google, Chevron Technology Ventures, Goldman Sachs, Sumitomo Corporation of Americas, NEA, escritórios familiares visionários de Addison Fischer, da família Samberg, Charles Schwab, entre outros”.
Trump quer EUA a liderar corrida à fusão
Como parte do acordo, a TMTG comprometeu-se a disponibilizar até 200 milhões de dólares em numerário à TAE no momento da assinatura, estando ainda disponíveis mais 100 milhões de dólares aquando da apresentação inicial do formulário S-4, uma exigência da Securities and Exchange Commission, o órgão federal responsável por regulamentar e supervisionar os mercados de capitais dos EUA.
Devin Nunes, presidente e CEO da TMTG, e Michl Binderbauer, CEO e administrador da TAE, vão assumir funções como co-CEO da empresa combinada. Michael B. Schwab, fundador e diretor-geral da Big Sky Partners, será o presidente do conselho de administração.
“Estamos a dar um grande passo em direção a uma tecnologia revolucionária que irá consolidar a dominância energética global da América durante gerações. A energia de fusão será o avanço energético mais dramático desde o início da energia nuclear comercial nos anos 1950 — uma inovação que irá reduzir os preços da energia, aumentar a oferta, garantir a supremacia americana em IA, revitalizar a nossa base industrial e reforçar a defesa nacional. A TMTG traz o capital e o acesso aos mercados públicos necessários para levar rapidamente a tecnologia comprovada da TAE à viabilidade comercial”, refere Devin Nunes no comunicado.
Por sua vez, Michael Binderbauer refere que a equipa “está preparada para resolver o enorme desafio global da escassez de energia. Na TAE, avanços recentes prepararam-nos para acelerar o investimento de capital com vista à comercialização da nossa tecnologia de fusão. Estamos entusiasmados por identificar o nosso primeiro local e começar a implementar esta tecnologia revolucionária que esperamos transformar fundamentalmente o fornecimento de energia dos Estados Unidos”.
Desde a sua entrada em bolsa em março de 2024, a TMTG acumulou ativos financeiros totais de 3,1 mil milhões de dólares, à data do terceiro trimestre de 2025.
Críticos apontam conflito de interesses
A fusão nuclear é vista como uma fonte energética descarbonizada com potencial para alimentar a procura crescente de energia limpa, sobretudo a exigida pela inteligência artificial (IA) e está no centro de interesses a nível global. Recorde-se que em Franca está a decorrer a maior experiência científica global de fusão nuclear do mundo, o ITER – International Thermonuclear Experimental Reactor.
Para avançar na investigação e produção de reatores são necessários investimentos significativos, assim como regulamentação, o que torna as ligações de Trump um “grande conflito de interesses”, afirmou Richard Painter, antigo advogado de ética da Casa Branca durante a administração de George W. Bush, à agência de notícias AFP. “Ele está a entrar nesta indústria tal como entrou nas criptomoedas”, disse Painter. “Precisamente quando o governo dos Estados Unidos se vai envolver profundamente nela. É óbvio que existe um enorme conflito de interesses”.
Segundo a AFP, o anúncio da TMTG surgiu no mesmo dia em que reguladores federais emitiram uma ordem que permitirá às empresas tecnológicas ligar grandes centros de dados diretamente a centrais elétricas.
Em outubro, o Departamento de Energia dos EUA publicou um roteiro para a tecnologia de fusão, com o objetivo de promover “um setor privado de fusão em crescimento nos EUA rumo à maturidade no mais curto prazo possível”. Várias empresas tecnológicas, incluindo a Google, a Microsoft e o CEO da OpenAI, Sam Altman, demonstraram interesse na fusão como forma de alimentar os centros de dados para desenvolver e operar produtos de IA.
Andrew Holland, diretor-executivo da Associação da Indústria de Fusão (FIA, na sigla inglesa), por seu lado, afirmou à AFP que uma nova fonte de financiamento e a criação de uma empresa de fusão nuclear cotada em bolsa “só podem ser positivas”, uma vez que qualquer avanço tecnológico exige tempo e recursos.
Em inquéritos realizados FIA ao setor, as empresas preveem ver energia de fusão ligada à rede elétrica na década de 2030, sendo que a maioria aponta para a primeira metade dessa década, disse Holland.
Segundo a Agência Internacional da Energia, a quota da fusão na produção global de eletricidade poderá atingir entre 10% e 50% até 2100, dependendo dos custos.
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