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Exposição da banca a zonas de alta perigosidade de incêndio é “limitada”

Relatório anual do Banco de Portugal sobre riscos climáticos aborda pela primeira vez o impacto dos incêndios na carteira de crédito dos bancos. Incêndios de 2017 aumentaram risco de incumprimento de empresas na banca, mas impacto foi limitado.

17 Dez 2025 - 11:05

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Foto: Unsplash

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O Banco de Portugal (BdP) divulgou, nesta quarta-feira, o relatório anual sobre a exposição do setor bancário ao risco climático, centrando-se pela primeira vez na avaliação dos impactos dos incêndios rurais.

Os resultados apontam para uma “exposição direta limitada do setor bancário aos níveis mais elevados da perigosidade de incêndio rural por via do crédito concedido às empresas”, refere o BdP. O documento especifica ainda que a distribuição de crédito evidencia um peso diminuto das classes perigosidade “alta” e “muito alta”, situando-se em 1,8% do total de crédito às empresas. Com a extensão da informação de perigosidades às áreas adjacentes, o peso destas categorias no crédito às empresas mantém-se reduzido em 3,5%. Adicionalmente, a conjugação do nível de perigosidade de incêndio rural com a classe de risco de crédito das empresas não revelou a existência de concentração de riscos, indica o supervisor bancário.

O documento revela ainda que os grandes incêndios de junho e outubro de 2017, em Pedrógão Grande, que destruíram cerca de 560 mil hectares e causaram 114 mortes, provocaram um aumento da probabilidade de incumprimento das empresas diretamente afetadas, mas o efeito foi temporário e limitou-se ao ano de 2018.

A análise conclui que as empresas dos setores mais sensíveis aos incêndios, como a agricultura, silvicultura, indústrias da madeira e fabrico de pasta e papel, registaram um aumento de 0,5 pontos percentuais na probabilidade de incumprimento. Contudo, “este aumento do risco de incumprimento foi limitado a 2018, o que poderá traduzir o papel dos seguros e dos apoios públicos na mitigação das perdas”, refere o relatório.

Os dados mostram que não houve diferenças estatisticamente significativas entre empresas afetadas e não afetadas em termos de crédito vencido, reforçando a tese de que as indemnizações de seguros e as linhas de crédito com garantia pública criadas na sequência da catástrofe ajudaram à recuperação das empresas.

Exposição direta é também “limitada” em áreas de maior risco

Recorrendo à carta de perigosidade de incêndio rural do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, o Banco de Portugal avaliou pela primeira vez o detalhe geográfico a exposição do crédito bancário a este risco. A conclusão é que a exposição direta é “limitada”, com apenas 1,8% do total do crédito às empresas associado aos níveis mais elevados de perigosidade – classes “alta” e “muito alta”.

Considerando uma extensão de 100 metros da avaliação de perigosidade às zonas adjacentes às áreas rurais, para captar o efeito sobre aglomerados populacionais próximos, o peso daquelas categorias aumenta para 3,5% do crédito total às empresas.

No crédito hipotecário a particulares, os números são semelhantes: 1% dos empréstimos à habitação está associado a imóveis em zonas de perigosidade “alta” ou “muito alta”, valor que sobe para 3% com a extensão da área de risco.

O relatório sublinha também que a conjugação do nível de perigosidade de incêndio com a classe de risco de crédito das empresas “não revelou a existência de concentração de riscos”, ou seja, não há por enquanto uma acumulação preocupante de crédito de má qualidade em zonas mais expostas a incêndios.

Alterações climáticas agravam contexto

Portugal é particularmente vulnerável aos incêndios em resultado das condições climatéricas e das características do território, com 36% do país ocupado por florestas. O relatório alerta que as alterações climáticas tendem a prolongar o período com risco de incêndio elevado e a aumentar a frequência e magnitude destes eventos.

O ano de 2024 foi o mais quente a nível global desde que há registos, e o primeiro em que a temperatura média global ultrapassou em 1,5°C a média pré-industrial, o limiar estabelecido no Acordo de Paris. Na Europa, o aquecimento tem sido duas vezes mais rápido do que a média planetária desde a década de 1980.

Entre 2001 e 2024, Portugal perdeu cerca de 427 mil hectares de área florestal devido a incêndios, equivalente a 30% da floresta existente em 2020. No verão de 2025, o país voltou a registar incêndios extremos, com a área ardida a atingir 3% do território nacional até setembro.

Bancos menores atrasados na adaptação

Do lado da supervisão, o BdP identificou progressos nas instituições menos significativas no cumprimento das expetativas sobre gestão de riscos climáticos, mas considera que os avanços são “insuficientes” na maioria dos casos. Cerca de 40% das situações analisadas apresentavam conformidade “maioritária ou plena” com as expetativas fundacionais em dezembro de 2024, uma melhoria face aos 5% registados em 2023. No entanto, 20% mantinham-se em total desconformidade.

As principais lacunas identificam-se na integração dos riscos climáticos na estratégia de negócio e na capacidade de recolher e compilar dados para medir estes impactos. O supervisor considera “essencial” que as instituições acelerem esforços para cumprir as orientações até final de 2025, prazo-limite fixado para as instituições menos significativas.

Nas instituições significativas, supervisionadas pelo Banco Central Europeu, subsistem “deficiências severas” em alguns casos, apesar dos progressos graduais. O BCE prevê recorrer a medidas progressivamente mais severas, incluindo sanções e multas pecuniárias, para acelerar a integração dos riscos climáticos na gestão bancária.

Riscos de transição estabilizam

Quanto aos riscos de transição, associados ao processo de descarbonização da economia, o relatório conclui que a exposição do setor bancário se estabilizou. A carteira de empréstimos às empresas mantém-se mais intensiva em carbono do que o total da economia, mas não se identifica uma concentração excessiva em setores mais expostos ao risco de transição.

O BdP reconhece, no entanto, que “os desenvolvimentos geopolíticos internacionais, designadamente a saída dos EUA do Acordo de Paris, colocam desafios acrescidos aos esforços de mitigação e de adaptação aos riscos climáticos”.

O documento destaca também um aumento da pegada carbónica dos empréstimos desde 2020, particularmente nos setores da agricultura e das ‘utilities’ (empresas de fornecimento de energia, água e gás), que apresentam intensidades carbónicas acima da média.

O Banco de Portugal refere que “a disponibilidade de informação tempestiva e granular sobre as intensidades carbónicas ao nível da empresa – e não setorial – é crucial para melhorar no futuro a qualidade e a relevância” dos indicadores de risco.

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