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Investidores apostam milhões no fracasso climático global
Fundos de capital de risco injetam mais de 115 milhões de dólares em tecnologias de geoengenharia solar que prometem lucros caso os países falhem em travar o aquecimento do planeta.
02 Jan 2026 - 15:24
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Finn Murphy integra uma nova geração de investidores que está a canalizar milhões de dólares para empresas emergentes dedicadas à geoengenharia solar, tecnologias destinadas a limitar a quantidade de luz solar que atinge a Terra, bloqueando parte da radiação através da dispersão de partículas refletoras na estratosfera. O fundador do fundo de investimento Nebular admitiu ao Politico que “seria definitivamente melhor se perdêssemos todo o nosso dinheiro e isto não fosse necessário”.
Mais de 50 empresas financeiras, investidores e agências governamentais canalizaram coletivamente mais de 115,8 milhões de dólares em nove start-ups cujas tecnologias podem ser utilizadas para refletir a luz solar de volta ao espaço, segundo dados de investimento privado analisados pela E&E News, do Politico. Entre os financiadores contam-se a Sequoia Capital, de Silicon Valley, uma das maiores empresas de capital de risco do mundo, e outros quatro grupos de investimento que gerem ativos superiores a mil milhões de dólares.
A maior fatia deste financiamento, de 75 milhões de dólares, ou quase 65% do total, foi para a Stardust, uma start-up israelo-americana que está a desenvolver partículas refletoras e os meios para as pulverizar e monitorizar na estratosfera, a cerca de 18 quilómetros acima da superfície terrestre. O Politico indica que pelo menos três outras empresas de intervenção climática também arrecadaram montantes superiores a cinco milhões de dólares cada.
O modelo de negócio destas empresas assenta numa aposta arriscada: que os governos mundiais irão falhar na redução de emissões de gases com efeito de estufa (GEE). Perante o agravamento da crise climática, serão forçados a recorrer a soluções tecnológicas de último recurso, potencialmente destabilizadoras para os padrões meteorológicos, para os sistemas alimentares e para a geopolítica global.
Murphy, que tem formação em matemática e engenharia mecânica, encara o aquecimento global não apenas como uma tragédia humana e política, mas como um desafio técnico com soluções lucrativas. Na sua perspetiva, a Stardust “pode valer dezenas de milhares de milhões de dólares”.
Investidores esperam adesão de governos
Os investidores da Stardust incluem a Lowercarbon Capital, uma empresa focada no clima cofundada pelo bilionário Chris Sacca, e a Exor, uma holding industrial italiana. A empresa e os seus financiadores estão a apostar na assinatura de contratos com um ou mais governos que possam implantar o seu sistema de geoengenharia solar já no final desta década.
Mesmo os apoiantes da Stardust reconhecem que a empresa está longe de ser uma aposta segura. Citado pelo Politico, Ryan Orbuch, sócio da Lowercarbon, afirmou que a empresa só verá retorno do seu investimento “no contexto de um cliente real que possa realmente apoiar muitos anos de implementação estável e segura”. Murphy é mais direto: “É algo único, no sentido de que não existe atualmente procura para esta solução. É preciso criar o produto para potencialmente facilitar a procura”.
O CEO da SpaceX, Elon Musk, cuja empresa opera uma rede de aproximadamente 8.800 satélites de comunicação por internet no espaço, também propôs utilizar satélites em órbita para controlar a quantidade de radiação solar que atinge a Terra. Numa publicação recente na sua plataforma X, Musk defendeu que um sistema extenso de satélites equipados com inteligência artificial e alimentados por painéis solares poderia combater as mudanças climáticas através do controlo preciso da energia solar recebida pelo planeta. Tanto Musk quanto a SpaceX não se pronunciaram quando contactados pelo Politico.
Geoengenharia em corrida contra a IA
A peculiaridade deste modelo de investimento evidencia-se quando comparado com outras áreas tecnológicas. O financiamento para empresas de geoengenharia empalidece perante os milhares de milhões canalizados para a inteligência artificial. Só em 2025, a OpenAI, criadora do ChatGPT, angariou 62,5 mil milhões de dólares. Kim Zou, CEO da Sightline Climate, uma empresa de inteligência de mercado, explica que o setor da geoengenharia solar permanece um nicho, porque os governos ainda não determinaram como regulariam estas tecnologias, algo que a Stardust está ativamente a tentar mudar através de lobbying.
Diversas empresas emergentes que desenvolvem tecnologias de reflexão solar estão a surgir no setor, embora evitem identificar-se como participantes do campo da geoengenharia solar. A Arctic Reflections, fundada há dois anos, tem como objetivo mitigar o aquecimento do planeta através do aumento da cobertura de gelo no Ártico, uma vez que superfícies geladas refletem mais calor do que águas abertas. A empresa holandesa ainda não recorreu a financiamento externo.
Segundo Fonger Ypma, CEO da startup, em comunicação por e-mail ao Politico: “Encaramos a nossa atividade como adaptação às mudanças climáticas, e não propriamente como geoengenharia. De forma semelhante aos projetos de recuperação florestal, nos quais as pessoas ajudam o crescimento natural das árvores, a nossa proposta consiste em facilitar a formação natural de gelo”.
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